Educação

Maquiavel Pedagogo e a subversão da educação – Parte 3

Esta última parte da resenha de Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, tem o objetivo de comentar as consequências desta nefasta revolução pedagógica.

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Nas últimas semanas, resolvi dedicar alguns artigos para resenhar o livro Maquiavel Pedagogo, do francês Pascal Bernardin, que visa apresentar a revolução pedagógica em curso nas escolas de todo o mundo, bem como os objetivos dela, declarados em diversos documentos de organizações internacionais. Apesar de ser um livro relativamente curto – 159 páginas -, a leitura do mesmo é bastante densa pela riqueza e variedade de informações, tanto que tive que dividir a resenha em três partes.

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Na primeira parte, publicada há quase duas semanas, resumi e comentei alguns pontos dos primeiros capítulos da obra: a revolução pedagógica a ser conduzida em todo o mundo; as técnicas de manipulação psicológica utilizadas para recondicionar o pensamento de professores e alunos; a ideia do ensino multidimensional que, longe de ser sólido, é prejudicial às crianças, sobretudo as de regiões mais humildes, e; a condução da revolução ética, que extirpa os valores religiosos e familiares das instituições de forma a se criar um novo ethos, ainda que à custa de uma evidente degradação moral, consequência inicial desta fase.

Já na segunda parte, publicada na segunda-feira da semana passada, continuei a tratar de outros meios relacionados a esta revolução pedagógica, bem como alguns aspectos operacionais desta: a revolução cultural, que abre o caminho para a aceitação do multiculturalismo e destrói as identidades nacionais; a reescrita da história, com o objetivo de alcançar a “educação para a paz”; a descentralização do ensino, uma ideia aparentemente inofensiva mas que, neste caso, tem apenas o intuito de adequar os objetivos revolucionários às realidades locais, e; as estratégias de avaliação e informatização do sistema de ensino, também com o intuito de alimentar o “Grande Irmão” educacional.

Nesta terceira e última parte desta resenha, buscarei sintetizar algumas das consequências já visíveis desta revolução pedagógica, bem como a conclusão de Bernardin a respeito. Preparem-se.

As consequências da revolução pedagógica

Logo no início do capítulo intitulado A Sociedade Dual, Bernardin diz que não é de se surpreender que a implementação dessa revolução pedagógica acabe resultando em uma impressionante queda do nível escolar. Mas o pior é que os próprios defensores da mesma reconhecem que ela persegue objetivos políticos sociais, e a formação intelectual dos alunos está fora de cogitação. Na verdade, diversos autores fazem verdadeiras apologias e elogios à ignorância. Segue abaixo uma citação de G. S. Hall, criador do primeiro escritório de Psicologia dos EUA (grifos meus):

“[…] O saber que os iletrados adquirem é, enfim, provavelmente mais pessoal, mais direto, mais próximo do seu meio e, provavelmente, para uma grande parte, mais prático. Além disso, eles evitam fatigar a vista tanto quanto se resguardam da excitação mental e, ainda, são eles provavelmente mais ativos e menos sedentários. […] Os iletrados estão livres de certas tentações, como a das leituras ineptas e viciosas. Talvez sejamos inclinados a atribuir demasiada importância às capacidade e às disciplinas necessárias ao domínio dessa arte.

Já John Dewey, considerado o pai da Pedagogia moderna e importante influência para essa reforma pedagógica defendida pelos organismos internacionais, dizia que:

“A última resistência do isolamento antissocial e oligárquico é a perpetuação da noção puramente individual da inteligência.

“A simples acumulação de fatos e saberes é uma atividade de tal modo individual que ela tende muito naturalmente a se transformar em egoísmo. Não há qualquer justificação social para a simples aquisição de ciência, ela não fornece qualquer ganho social nítido.

“A introdução das ocupações ativas, ao estudo da natureza, da ciência elementar, da Arte, da História; a relegação das disciplinas puramente simbólicas e formais a uma posição secundária; a modificação da atmosfera moral das escolas…Não são simples acidentes, mas são fatos necessários à evolução social do seu conjunto.

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Bernardin sintetiza esses pontos de vista como uma desvalorização que busca “destruir a inteligência, ‘noção puramente indidivual’, antissocial e reacionária”.

Veja também:  Maquiavel Pedagogo e a subversão da educação - Parte 1

É evidente que, no Brasil, podem ser encontrados ecos desses discursos em nosso sistema educacional. Paulo Freire, considerado “patrono da educação brasileira“, era um ferrenho crítico a ideia de escola como simples ferramenta de absorção de conhecimentos, denominando isso como “educação bancária“. Também é dele a frase de que “não há saber mais ou saber menos, apenas saberes diferentes”. Não é necessário ser um gênio para pensar que essa despreocupação com a aquisição de conhecimentos básicos têm resultados. Trágicos, diga-se.

(Fonte da imagem: Reprodução/VEJA)
(Fonte da imagem: Reprodução/VEJA)
(Fonte da imagem: Reprodução/UOL)
(Fonte da imagem: Reprodução/UOL)
(Fonte da imagem: G1)
(Fonte da imagem: G1)

É importante, ainda, frisar que essa mediocrização do sistema educacional, longe de atingir o objetivo inicial de “democratizar” o ensino, acaba criando dois modelos de educação, sendo um voltado às elites e outro, totalmente diferente, voltado às massas. Este último seria um ensino não-cognitivo, desprovido de qualquer substância intelectual, enquanto que o primeiro possui uma verdadeira formação intelectual, com instrumentos que dão chances de emancipação. Não obstante, ambos estão sujeitos à doutrinação ideológica. No Brasil o cenário não é diferente, postas as diferenças entre as escolas da rede pública, voltadas em sua maioria para a população mais pobre, e a rede privada, voltadas às classes mais abastadas.

Veja também:  Armínio Fraga ou Aloízio Mercadante: vocês ainda têm dúvida?

O totalitarismo da revolução pedagógica

Diante dos pontos apresentados no tópico anterior (bem como nos demais apresentados nas duas primeiras partes da resenha), é possível afirmar, segundo Bernardin, que a revolução pedagógica é intrinsecamente totalitária. O objetivo desta, acima de tudo, é submeter o indivíduo ao Estado. As citações de alguns documentos da Unesco deixam transparecer isso:

“Na verdade, toda a taxonomia dos objetivos pedagógicos subentende um modelo de adulto ideal. É preciso alguma coragem, nos dias de hoje, para admitir que se escolheu este ou aquele dentre os inumeráveis modelos que nos são propostos.”

Precisamos ter uma concepção do tipo de pessoa que desejamos formar, para que só então possamos ter uma opinião precisa sobre a educação que consideramos ser a melhor.”

Recomendo que leia essas duas citações ao som desta música, por sinal:

O autor ainda acrescenta que esse revolução, de caráter psicológico, é veiculada inicialmente pelo sistema educacional, mas outros domínios são igualmente envolvidos: mídia, empresas, setores da sociedade civil e até mesmo as instituições religiosas, envolvendo tanto crianças como adultos. Sendo assim, a subversão do sistema educacional envolve o todo da população. Ou seja, trata-se de uma subversão educacional dissimulada. Não é preciso imaginar que o mesmo ocorre no Brasil, e os exemplos disso são fartos.

Veja também:  Iniciativas educacionais: um paradoxo público vs. privado

Conclusão

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Bernardin, no capítulo final de sua obra, retoma e sintetiza alguns pontos da revolução pedagógica em curso em todos os sistemas educacionais: a redefinição do papel da escola, o processo antidemocrático em que isso é conduzido e o objetivo oculto disso: a “mudança social”. Também são citados alguns dos meios para a condução dessa revolução: revolução ética, revolução cultural, inovações pedagógicas que introduzem técnicas de manipulação, formação de professores, descentralização como meio de adequar a implementação destes novos métodos às realidades locais, etc.

O autor também destaca o papel das instituições internacionais neste processo, bem como a grande importância que estas dão às Ciênciais Humanas e Sociais, cujo campo de atuação vai além da tarefa de ensinar propriamente dita. Além disso, o papel dessas cresce a cada dia, fazendo com que o centro de decisão da política se desloque para fora dela.

Para finalizar, encerro a última frase da resenha com o último parágrafo do livro, que deveria servir de alerta a aqueles, que, mesmo acreditando que suas intenções sejam boas, acabam se valendo da posição de educador para doutrinar os alunos:

“Enfim, gostaríamos de nos dirigir a todos aqueles que, seguros de possuir a verdade e cegos o bastante para não duvidar da nobreza de sua causa, colocam tanto ardor revolucionário em lavar o cérebro de seus semelhantes, em pôr fogo na mente dos homens, em neles incutir a revolta e em ultimar a revolução psicológica: estão seguros de que não fazem o jogo do adversário? Estão seguros de que ele não os conduzirá aonde não querem ir?

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