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Investir em infraestrutura também é investir nos mais pobres. Ou: o pensamento míope de Lula

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Lula (à direita), com o presidente do Paraguai Horacio Cartes (à esquerda) e o diretor de Itaipu no Brasil, Jorge Samek (centro). (Fonte da imagem: Estadão)
No ano passado, em pleno calor da disputa eleitoral, escrevi um artigo neste blog em que critiquei o falso dilema entre preocupar-se com a economia e preocupar-se com a área social, procurando deixar claro que é simplesmente impossível preocupar-se com o último sem pensar no primeiro. Da mesma forma, pensar em curto prazo sem pensar no longo pode simplesmente colocar ambos a perder.
Infelizmente, porém, governos e políticos populistas não pensam assim e, mesmo com todos os problemas gerados por suas visões míopes, não aprendem. É o caso do ex-presidente Lula, que, em uma palestra no Paraguai, resolveu demonstrar em seu discurso essa visão:
“É verdade que eu poderia fazer uma ponte, uma estrada, mas entre cuidar de 54 milhões de pessoas que estão passando fome e fazer uma estrada, a estrada pode esperar que essas pessoas comam, fiquem fortes e ajudem a construí-la“, afirmou, em português misturado a algumas palavras em espanhol. “Se fizesse a estrada, essas pessoas morreriam de fome antes de vê-la terminada. É muito difícil encontrar alguém no setor de Fazenda ou Tesouro que esteja disposto a dar essa contribuição aos que estão abaixo. Não é uma política de esmola, de compensação, é um direito”

Como afirmei antes, o pensamento de Lula é míope. É há diversas razões para isso. Elencarei algumas.

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Uma delas é justamente a questão da alimentação. Entre outras coisas, o preço da comida que está em nossa mesa todos os dias tem, embutido, os custos de transporte, que, no Brasil, correspondem a 8% do preço final do produto, contra apenas 3% nos EUA. Além disso, no caso das frutas e hortaliças, 10% do que é colhido é perdido ainda no campo, sendo que metade dessa perda ocorre no transporte. Ou seja, além do efeito direto no aumento dos custos logísticos, uma infraestrutura precária ajuda na redução da oferta de alimentos, o que, pela lei de oferta e procura, tem como consequência o aumento dos preços. É evidente imaginar que uma infraestrutura de transporte decente ajudaria na redução dos custos logísticos e na expansão da oferta de alimentos (pela redução das perdas), o que baratearia o preço final dos mesmos. Os mais pobres, que gastam boa parte de sua renda na alimentação, seriam os principais beneficiados.

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Outra razão para eu apontar a miopia lulista tem a ver com os serviços públicos, dos quais as populações mais pobres dependem mais. Sobretudo em localidades mais remotas (no N/NE os exemplos são mais evidentes, muito embora no restante no país também não sejam raros), uma infraestrutura de transporte precária tende a piorar o acesso ou a cobertura dos mesmos. Um exemplo mais gritante disso seria, por exemplo, o deslocamento às escolas em zonas rurais, que, em alguns casos, podem levar horas em estradas de terra ou esburacadas. Outro, em uma escala menor, seria o transporte de pacientes de pequenas localidades para os grandes centros. Na primeira situação, as consequências vão de absenteísmo ao mau desempenho dos alunos, devido ao cansaço provocado pela viagem. Na segunda, essas vão da baixa (na verdade, ainda mais baixa) capacidade de atendimento a, até mesmo, a morte de pacientes em casos de emergência. Mais uma vez, os mais pobres seriam os principais beneficiados por uma infraestrutura de qualidade.

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Por fim, mas nem por isso menos importante, temos ainda o fato de que o investimento em infraestrutura, bem planejado e bem executado, é capaz de fomentar um ciclo virtuoso para as economias locais. Na fase de implantação (construção, ampliação ou reforma), há a geração de empregos diretos e indiretos, e a economia se movimentaria com a renda dos trabalhadores da obra. Na fase de operação, a melhoria na infraestrutura propicia a instalação de novos empreendimentos (sejam públicos ou privados), e os operários inicialmente envolvidos na obra seriam remanejados a esses. Ou seja: mais emprego, renda e o fortalecimento das economias locais, uma vez que haveria menor propensão de migrar para regiões mais desenvolvidas. Novamente, os mais pobres seriam os maiores beneficiados.

Alguns podem, ao final disso, se perguntar: “ora, então investir em política social não é importante”? É claro que é, até porque programas como o Bolsa Família (por incrível que pareça, trata-se de uma ideia defendida por economistas liberais) consomem uma parcela pequena do orçamento federal e, ainda que eu defenda uma reformulação do mesmo, eles são uma medida necessária para garantir uma vida digna. Além disso, em vários textos meus neste blog, defendi e defendo a ideia de que os investimentos em infraestrutura devem ter como carro-chefe as concessões para a iniciativa privada, com a contrapartida de redução dos impostos que seriam inicialmente destinados às obras públicas. Não obstante isso, a fala de Lula é apenas uma de várias demonstrações do curto-prazismo existente na gestão pública de nosso país. Talvez, pouco importa a ele que, graças à sua ideia, os mais pobres continuem dependentes de auxílios do Estado do que acabem rompendo com o ciclo de pobreza no qual estão inseridos.

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