Educação

Escola sem Partido é Escola sem Paulo Freire

Como é possível não falar sobre Paulo Freire quando discutimos sobre o ensino e principalmente, quando falamos de "escolas partidárias"?

LinkedInTumblrRedditWhatsAppEmailGoogle GmailYahoo MailWordPress
O Escola Sem Partido [1] tem se tornado, nos últimos meses, objeto de discussões em todo o país. A coisa atingiu tal dimensão que até o Fantástico fez uma reportagem a respeito, sendo também pauta em uma série de debates e eventos [2]. A situação toda gerou, em contrapartida, um movimento nacional contra o movimento, com direito a mudança na foto do Facebook, uma série de notas de sindicatos e associações de professores [3] , represálias do ex-Ministro da Educação (Renato Janine Ribeiro) e da ex-presidente Dilma, além de vídeos de membros do “palpitariado youtubístico” [4] (há bons e maus vídeos).

Publicidade

Dentro do debate que se criou em torno do assunto, notei na esmagadora maioria das abordagens feitas uma deficiência fatal que transformou toda a discussão num imenso teatro. Refiro-me ao fato de que ninguém quer tocar na vaca sagrada da educação brasileira: o pedagogo comunista Paulo Freire. Como é possível que não se fale sobre o Patrono da Educação Brasileira e pedagogo mais lido e mais influente em todo o país ao se falar sobre ensino e educação?

A expressão “educação democrática/humanista” é muito presente no debate educacional atual. Ao ler ou ouvir ta expressão, o observador incauto imagina que se trata de uma educação livre, que permite o debate de idéias das mais variadas correntes. Ledo engano. Para Freire, como se pode ver claramente em seu Pedagogia da Autonomia, “democrática/humanista” significa necessariamente algo de esquerda, progressista. De acordo com esse mesmo livro, o professor deve ser um agente formador de agentes, tanto pelo exemplo quanto pela didática. O pedagogo também afirma que a educação deve ser feita com “amor”, amor esse que, de acordo com ele, Guevara, Mao e outros possuíam. Para ele, a educação é parte fundamental no processo revolucionário, revolução essa que, para Freire, era uma ação principalmente cultural.

Retirado do facebook da Caneta Desesquerdizadora
(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)

O mais importante de tudo quanto à questão do Escola Sem Partido é a visão de Paulo Freire sobre a escola: para ele, a escola é um partido. Ele deixa isso muito claro quando afirma que “dizer que a escola não é um partido contribui para a alienação presente na sociedade“. Mais ainda: sendo ele mesmo um adepto da revolução cultural, podemos afirmar com segurança que a escola deve ser, para ele, braço e colaboradora da revolução comunista (marxista, socialista, progressista ou como preferir).

Para quem deseja entender mais sobre a pedagogia de Freire e seus problemas, recomendo efusivamente o curso Desconstruindo Paulo Freire [5]¸do Professor Thomas Giuliano. O livro Maquiavel Pedagogo é igualmente fundamental para compreender a realidade da educação nos dias de hoje. [6]

Um pouco sobre Paulo Freire

Para o pernambucano, as revoluções [7] são manifestações de amor e é por isso que Che Guevara, na Pedagogia do Oprimido, é, para ele, um espelho de revolucionário amoroso. Ele afirma também que Fidel Castro [8] dá um testemunho corajoso, valente, de alguém que amou o povo e sacrificou-se por ele. [9] Segundo Freire, Lênin (o “Grande” Lênin) era, assim como Che Guevara, um espelho de revolucionário e a classe média, “em sua alienação, quer a todo custo parecer com o opressor, imitá-lo, seguí-lo. Isso se verifica sobretudo nos oprimidos de classe média, cujo anseio é serem iguais ao homem ilustre, da classe superior.”

Veja também:  O Foro de São Paulo não existe

Além disso, o educador do MST [10] disse absurdidades históricas que , na época em que foram ditas, já tinham sido amplamente refutadas. A idéia de que o “negro não tinha alma” e a perspectiva tradicional sobre o catolicismo colonial brasileiro que os professores de história do Ensino Médio repetem é oriunda de Freire, assim como a questão da “branquitude da população” e similares. Ele também comete um erro histórico grosseiro quando relaciona a origem do MST com os quilombos.

Publicidade

Ironia das ironias, a época em que Paulo Freire mais vendeu livros foi nos anos 70, quando estava no exílio durante o governo militar. Disso podemos perceber que tal exílio era apenas físico e que a “ditadura militar” que aqui se fazia presente não era tão “ditadura” assim, pois permitiu que Freire estivesse em estreitíssimo contato intelectual com o Brasil.  Ao observarmos as entrevistas de Paulo Freire podemos notar que ele se tinha em altíssima conta, alegando ser uma pessoa que “sempre amava”, que “amava intensamente” e que era um lutador pela fé e pela caridade [11]. Entretanto, ele jamais direcionou o seu olhar “amoroso” para aqueles que o MST, Castro, Guevara [12], Mao e Lênin não amaram, a menos que ele ache que homicídio, seqüestro, assalto e várias outras atrocidades são demonstrações de amor.

Ademais, “o nosso pedagogo” – que é como ele foi chamado durante os governos FHC, Lula e Dilma – deixa muito evidente que é necessário deixar de lado a alienação da família [13] e, com isso, permitir que o aluno reflita “adequadamente”. Freire também compara Karl Marx a Jesus Cristo em sua obra [14].

Sobre a “carreira internacional” de Freire

Sua carreira internacional inicia no Conselho Mundial de Igrejas, onde foi conselheiro. Em Estocolmo há uma estátua sua ao lado de Mao Tsé-Tung. Quando falamos da tal “carreira internacional de Freire, devemos perguntar: que carreira internacional é essa que coroa a ligação com o maior genocida de de todos os tempos? A qual preço e ao lado de quem? De que forma foi constituída? Devemos também analisá-la em seu aspecto histórico-cronológico. Vejam que primeiro ele foi alçado ao CMI e de lá, por conta de suas convicções de esquerda, para os EUA (aquele país imperialista neoliberal fascista opressor). A partir das entrevistas que deu à revista TIME, seria recebido pelos mais diversos núcleos de esquerda de análise da América Latina em universidades ao redor do mundo. Antes de sairmos por aí louvando pessoas por terem conseguido congratulações em universidades, devemos analisar o que foi feito para que fossem obtidas e quem as deu. Um caso que ilustra isso muito bem é o de Lula, que recebeu 36 congratulações internacionais e vários títulos de Doutor honoris causa.

Sobre os vários pedagogos e colaboradores internacionais de Freire, deixo-os com o seguinte link revelador:

Critical views of Paulo Freire’s work, John Ohliger, Basic Choices, Inc., Madison, Wisconsin, USA. Compiled for the 1995 Iowa Community College Summer Seminar.

Considerações finais

Fora tudo o que já foi dito, há mais algumas observações importantes a serem feitos sobre o Escola Sem Partido, Paulo Freire, educação, ensino e os livros didáticos.

Veja também:  Interpretação de texto: pistas do quanto ela está ruim

Primeiramente, gostaria de fazer uma distinção clara entre educação e ensino e afirmar que uma coisa pouco tem a ver com a outra, como bem mostrou o falecido professor José Monir Nasser neste curto vídeo de 8 minutos. Ainda sobre esse assunto, gostaria de recomendar o livro Contra a Escola,de Fausto Zamboni. Em segundo lugar, afirmo aqui que o problema começa antes de tudo nos livros didáticos, sendo o caso Mário Schmidt emblemático. [15] O artigo de Flávio Morgenstern sobre como a “história” contará o PT pós-13 de março e a relação disso com os professores de história e os livros didáticos é excelente para os que desejam ter uma noção maior do poder que os livros didáticos e os professores de história têm.

Quanto a Paulo Freire, os efeitos devastadores que suas idéias tiveram no Brasil são gritantes e escandalosos [16], principalmente sobre os estudantes. Em relação à “objeção” de que “deturparam Paulo Freire”/”Paulo Freire na verdade nunca foi aplicado no Brasil” [17] e outros argumentos chinfrins, recomendo que vejam o curso do Thomas Giuliano.

Publicidade

Alguns podem levantar a objeção de que o uso político da educação é muito anterior a Paulo Freire,  fato esse que tenho conhecimento. O uso da educação por parte de grupos políticos para moldar a sociedade segundo suas ambições é algo antigo [18]. No Brasil, já em Marquês de Pombal isso se fez presente, sendo consideravelmente intensificada nos governos de Getúlio Vargas [19]. No entanto, a coisa se tornou epidêmica com a “democratização” das idéias de Paulo Freire, vindo a ser pandêmica nos os governos FHC [20], Lula e Dilma, pois suas idéias viraram política de Estado. É impossível discutirmos sensata e razoavelmente sobre o Escola Sem Partido sem falarmos no Patrono da Educação Brasileira, pedagogo (de longe) mais influente e onipresente do país e principal artífice da ideia de que a escola é sim um partido. Ao falarmos de uma Escola Sem Partido, precisamos falar sobre Paulo Freire.

______________________________________

Notas:

[1] Não apenas o projeto de lei, mas a noção de uma Escola Sem Partido como um todo.
Vale ressaltar que este mesmo que vos fala não é um grande entusiasta do projeto, pois vê nele uma série de problemas, principalmente no que tange à abordagem  e às suas pretensões.
Escola Sem Censura, de Olavo de Carvalho é as críticas feitas por ele de forma geral sintetizam muito bem as minhas objeções.
[2] A quantidade é tão grande que não creio ser prudente colocar todos os links aqui.
[3] Nota da ANPUH- Associação Nacional de História
Página do facebook do Professores contra o Escola Sem Partido
Renato Janine Ribeiro, ex-Ministro da Educação contra o ESP[1]
Lançamento da Frente Nacional Contra o Escola Sem Partido, da FASUBRA(ao qual o SINTUFES é filiado)
ANDES contra o Escola Sem Partido. Na da declaração final do Encontro Nacional de Educação há uma nota contra o ESP.
[4] Sendo o mais notável deles o Pirulla, que fez 2 vídeos assustadoramente ruins a respeito do assunto, embora no geral tenha defendido a proposta.
Escola sem partido ou sem juízo? (#Pirula 149.2)
Escola sem partido: resposta aos comentários (#Pirula 149.3)
[5] O termo ‘descontruindo’ não é colocado aí por acaso. Freire é um adepto do chamado “socioconstrutivismo”. Daí o uso do termo “descontruindo”.
[6] Coloco aqui uma breve introdução sobre o que será tratado no livro: O vocabulário diabólico da Unesco (notas a Pascal Bernardin), de Rafael Falcón.
[7] Vale ressaltar aqui que, para ele, “revolução” é sempre aquilo que está atrelado à classe dos “oprimidos”, e “golpe”, tudo aquilo que não está atrelado a ela. Dentro dessa perspectiva Freireana, a Revolução Russa, a Cubana, a Chinesa e outras não foram golpes e sequer são/foram ditaduras.
[8] Sobre Fidel, ver Fidel, o tirano mais amado do mundo, A ilha do doutor Castro, Cuba é minha prisão e o Apêndice 8 d’O PT e os Papas.
[9] Tal sacrifício tem, dentro da pedagogia de Freire, um significado específico. Refiro-me à questão do “homem opressor” descendo(“martírio”) de sua condição para liderar as massas. No curso “Desconstruindo Paulo Freire” esse ponto é esmiuçado.
[10] Freire ensinou para os “camponeses” do MST. Quando ele fala em “camponeses”, devemos interpretar “maoisticamente” o termo. Cabe citar também aqui que Freire afirma que o MST era “ético e pedagógico”. Toda a sua pedagogia foi testada pessoalmente por ele em acampamentos do MST.
[11] Inclusive, Freire é e sempre foi muito querido nos meios ligados à Teologia da Libertação.  Sua imagem quase que franciscana e beatífica se deve muito a campanha de divulgação feita pela Igreja Católica quanto a sua pessoa e “realizações”.
[12] O que inclui negros, gays, homossexuais, mulheres e mais várias “minorias”.
[13] Indo, dessa forma, totalmente na contramão daquilo que a Igreja Católica defende, dos “Princípios Inegociáveis” de que fala Bento XVI. Ver Poder Global e Religião Universal, de Juan Claudio Sanahuja. O Papa Francisco também falou várias vezes sobre o assunto recentemente.
[14] Caso queiram saber um pouco mais sobre a Teologia da Libertação, recomendo que vejam o Apêndice 3 d’O PT e os Papas.
[15] Não me venham dizer que o Pirulla “refutou” a questão toda em seu vídeo ao afirmar que o livro foi rejeitado pelo MEC e outras baboseiras.
[16] Viva Paulo Freire!, de Olavo de Carvalho. O Brasil apenas caiu cada vez mais no rankins internacionais. Chegamos ao absurdo de ter um Ministro da Educação semi-analfabeto.
[17] A estrutura e o uso desse expedinte argumentativo e o “deturparam Marx/o socialismo” e “o socialismo nunca foi aplicado de fato” não é mera coincidência. É um modus operandi característico da Mentalidade Revolucionária. Ver principalmente o artigo O ovo do maluco, de Olavo de Carvalho. Caso alguém queira saber mais sobre a mentalidade revolucionária, recomendo:
A mentalidade revolucionária
Ainda a mentalidade revolucionária
A inversão revolucionária
A inversão revolucionária em ação
[18] A bibliografia sobre esse assunto é absurdamente extensa. Recomendo que começem pelo magistral artigo do Flávio Gordon no SensoIncomum, Pais e Filhos: a perspectiva Bazárov e a ação dos educadores políticos.
[19] O que também é explicado no livro do Garschagen e no Curso do Thomas Giuliano. Ainda não li o livro “A Poeira da Glória”, mas me disseram que o Martim Vasques da Cunha também aborda o assunto em seu livro.
[20] Aquele cara de neoliberal conservador homofóbico fascista de extrema-direita.
Publicidade

Veja também

(Fonte da imagem: Best Movies By Farr)

Audrey Hepburn e o feminismo: quando a atriz não segue a personagem

A revolução sexual, advinda pelo surgimento da pílula anticoncepcional e dos movimentos de libertação feminina, …