Comportamento

Entre a educação e o banditismo, o vitimismo e o coitadismo

Dizer que o banditismo é resultado de insucessos na vida, sejam absolutos ou relativos, é ofensivo aos milhões de pobres em nosso país.

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Volta e meia, quando temos algum crime de grande repercussão, diversas pessoas, seja na imprensa ou nas redes, buscam porquês para que alguém escolha praticar algum ato ilícito. E um dos argumentos mais comuns é que aquele que trilha o caminho no crime é uma “vítima da sociedade”, alguém sem oportunidades na vida ou que as poucas existentes acabam não tendo sucesso, algo semelhante à expressão “It’s Yale, or jail”, citada por Thomas Sowell no livro Ação Afirmativa ao Redor do Mundo (cuja resenha vocês podem conferir aqui). O objetivo desse discurso é bem simples: inibir medidas que visem punir, de forma mais efetiva, quem busque trilhar o caminho do crime.

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Um exemplo disso está neste artigo, publicado pelo Sr. Aglisson Lopes no portal Gazeta Online, comentando sobre o caso de um garoto de 17 anos que foi morto em confronto com a PM no Bairro da Penha, um dos mais perigosos de Vitória, no estado onde moro. Após o fato, ocorrido ontem, moradores da região realizaram protesto e promoveram atos de terrorismo, incendiando ônibus, atacando carros de reportagem e lojas, deixando um verdadeiro rastro de pânico, caos e destruição. Foi necessário reforço policial para normalizar a situação, e, mesmo hoje (no momento que escrevo ainda é quarta-feira), algumas lojas permaneceram fechadas, ou abertas parcialmente.

Finda a breve descrição do ocorrido, vamos a alguns pontos do texto do Sr. Lopes, os quais comentarei neste espaço. No quarto parágrafo, ele diz o seguinte:

“A pergunta que talvez muitos de nós não faremos por conta da pressa do dia-a-dia é: quem será que ofereceu os melhores argumentos para que o jovem optasse por algum caminho? O crime ou a “vida de bem”?

A questão é: depende. Depende do que o jornalista em questão entenda como “melhor argumento” e se ele admite a premissa de que o melhor argumento, necessariamente, levará à melhor decisão. Se pensarmos estritamente pelo aspecto racional, o crime jamais oferecerá os melhores argumentos, pois mesmo que ofereça certas vantagens em curto prazo – isso quando oferece – os resultados em longo prazo geralmente são inglórios: cadeia ou cemitério.

No entanto, temos um aspecto igualmente importante na tomada de decisões, que é o emocional. Por certas vezes, ele pode subestimar os resultados em longo prazo (e mesmo os de curto, caso não haja sucesso no caminho do crime). E o autor, logo em seguida, dá a entender que tal aspecto foi importante:

“Talvez ele, Wedeson, ainda estivesse ali na encruzilhada, parado, tendo de tomar uma decisão. Um garoto de 17 anos convivendo entre a vida de menino estereotipado como pobre-negro-do morro e o assédio da criminalidade – muitas vezes com suas ofertas de status local e dinheiro fácil.

Tendo em vista isso, temos que nem sempre o melhor argumento, necessariamente, levará à melhor decisão. De qualquer forma, isso não muda o fato de que uma decisão ruim, quando tomada, continue sendo ruim.

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“Talvez ele não tenha tido tempo para tomar a decisão. Caiu ali mesmo, no meio do caminho, na cruz. A mãe conta que ele havia dado um abraço no irmão e saído para comprar pão. A polícia diz que ele entrou em confronto com um policial e foi baleado. Ele já havia se envolvido em confusões com a polícia, fato. Mas só as investigações poderão trazer algo mais concreto além do discurso comum da internet.

É importante frisar, no entanto, que as “confusões” que o jovem se envolveu com a polícia incluem flagrantes por tráfico de drogas. Aos 14 anos, ele foi pego com 49 buchas de maconha, 9 papelotes de cocaína e 2 pedras de crack, e em seguida, ainda com essa idade, foi pego com 120 buchas de maconha e 28 pedras de crack. Isso sem falar de duas conduções por desacato. Convenhamos, não se trata de alguém com uma ficha pequena, ainda mais para alguém que não havia chegado à maioridade penal. Na hipótese mais generosa, trata-se de um garoto em situação de risco.

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De fato, só as investigações elucidarão o caso e, caso se confirme a hipótese de foi uma execução policial e não uma morte decorrente de confronto, os policiais devem ser punidos. Mas, tendo em vista o seu histórico, pouca coisa me leva a crer na primeira hipótese. Fico no aguardo.

Até aí, o discurso do Sr. Lopes segue razoável. No entanto, ele começa a derrapar:

“Mas é bom saber: nas periferias existem multidões de Wedeson e suas encruzilhadas.

Não cabe a nós julgá-los, dizer que a escolha pelo caminho é deles somente. Tampouco que, ao escolher o lado errado, vão arcar com as consequências sozinhos.

Esse é o lado fácil do pensamento.”

Estava demorando para aparecer o velho discurso de não responsabilização das pessoas pelos seus atos, quer sejam bons, quer sejam ruins. Mesmo admitindo que as pessoas sejam influenciadas por outras para tomarem suas decisões, isso não muda o fato de que a palavra final é, de fato, deles e somente deles. Pelo que tudo indica, Wedeson já escolheu o mesmo lado várias vezes. E não foi o certo, pelo visto.

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Talvez – e lamentavelmente – o único acerto do Sr. Lopes é que a escolha de jovens na mesma situação dele, se errada levará com que eles, até que sejam detidos e punidos, farão com que outros dividam o peso das consequências. Desde as próprias famílias destes até as vidas e famílias de outras pessoas. Afinal, ninguém é uma ilha.

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Mas no morro não existe meritocracia. Não como conhecemos no mundo corporativo. O caminho é tortuoso. A vida é confusa. Escolher a escola, por exemplo, não quer dizer que serão bem-sucedidos.

Temos, neste trecho, uma pá de ideias que, da forma como estão dispostas, mais confundem que ajudam. Em primeiro lugar: o que seria meritocracia, neste caso? Seria o espantalho, criado à esquerda e à direita, de que basta se esforçar para conseguir algo? Ou seria o fato de este esforço produzir algum bom resultado à pessoa e, ainda que em minúscula escala, à sociedade? Entender este conceito de forma correta nos levaria a melhores respostas neste sentido.

Segundo, de fato, pelo fato de um morro ser um ambiente diferente do mundo corporativo, é evidente que as oportunidades variam e, por consequência, os resultados. O que continua não refutando a ideia de que a meritocracia não possa existir.

Terceiro: também concordo que escolher a escola, por si só, não garante uma vida de sucesso, apesar de que ajuda (na verdade, pode, talvez, ser a única chance nessas comunidades). Mas também não é – em menor grau, é claro – mesmo no mundo corporativo. Há muito tempo que um diploma não garante muita coisa. É necessário desenvolver uma série de competências e habilidades para manter-se firme no mercado de trabalho atual.

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Por fim, o quarto ponto, um corolário do anterior, é que deve-se explicar muito bem o que se entende por “bem-sucedido”. Se a ideia é sair “do lixo para o luxo” – o que chamo de sucesso absoluto – isso, nem sempre, é possível, muito embora tenhamos exemplos nesse sentido. No entanto, se a ideia é “ser melhor amanhã do que hoje e não melhor que depois de amanhã” – o que chamo de sucesso relativo – ser bem-sucedido torna-se uma tarefa um pouco menos difícil. Talvez o melhor a se fazer é focar na segunda ideia, mais realista e que evita “atalhos” em caso de fracassos temporais.

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“A pergunta é: como fortalecer o lado bom desse caminho a ser escolhido? Como convencer positivamente garotos que já crescem sabendo que, se nada der certo, vão virar bandidos?

Wedeson colocou essa ilustração em sua timeline talvez para mostrar aos outros que há uma dúvida e uma decisão a ser tomada. Mas a decisão não é só dele. Essa é a única conclusão que podemos chegar no momento.”

A questão é: como eles chegaram a essa conclusão de que, se nada der certo (nada mesmo?), irão, de forma invariável, virar bandidos? Será que não foram ensinados – e, neste caso, devemos sim questionar as famílias destes garotos – que existem outros valores que não somente os materiais, e que mesmo este estão subordinados a valores morais? E que, mesmo o insucesso nas batalhas da vida, de nenhuma forma, justifica trilhar o caminho do crime? Será que os intelectuais, incluso o jornalista que escreveu este texto, não retroalimentam a indulgência aos bandidos ao tratá-los como meras vítimas dos fracassos inevitáveis de nossa existência? Tratar o banditismo como fruto do fracasso me soa ofensivo a milhões que, mesmo fracassando – em termos absolutos ou relativos -, preferem seguir com uma vida limpa e honesta. E estes são uma esmagadora maioria.

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