Sociedade

O brasileiro de classe média é um pouco deplorável mesmo.

O fato é que, seja de esquerda ou de direita, o brasileiro classe média tende a achar que o progresso e o sucesso, a condição da mais alta dignidade é a prosperidade material. Seja pela via de esquerda, louvando Cuba e sonhando com Paris, Copenhague ou Estocolmo. Seja pela via de direita, louvando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha do alto de seu inglês do cursinho do Joel Santana.

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Nesses dias tão parados, típico do mês de dezembro nesse meu status de vida pequeno burguês, percebi chocadamente que sou um pouco daquilo que Lima Barreto retratou com sutilezas irônicas no “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Com esse título e essa introdução você já deve estar pensando em mim como uma Marilena Chauí saudosista da União das Repúblicas Feudais da Terra do Nunca. Mas não me julgue ainda, leia um pouco mais. O autor dos períodos iniciais da República, com gracejos que lhe são peculiares, fala-nos daquela classe média emergente nos subúrbios do Rio no início do século XX, que ele gozadamente apelidou de “aristocracia suburbana”, como se morar em São Januário ou no Méier fosse como ser um sir de algum burgo podre inglês.

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Bem, seja como for, aquele estilo de vida resume ainda hoje a mentalidade do brasileiro médio, seja de direita ou de esquerda. Na verdade, na verdade mesmo, o brasileiro de classe média “direitista” não passa de um esquerdista de sinal trocado. Lima Barreto ironiza a mentalidade corrente do brasileiro de classe média como sendo um tipinho imitador de modismos estrangeiros, auto-iludido, materialista e um pouco fútil, enquanto manifesta um enorme ressentimento quando forçado a lidar com a realidade de que é um simples brasileiro como a “plebe” a qual ridiculariza.

Compõe-se em geral de funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões.” – dizia Lima Barreto. Embora se possa acrescentar tantos outros grupos hoje em dia a tal patota de grã-finos das palafitas, o fato é que aquela mentalidade mesquinha continua existindo, estando na divisa do topo de recursos econômicos que estão mais próximos do bóia-fria que do Mark Zuckerberg, e no limiar de uma cultura apenas um pouco superior que a do pobretão que ele se enoja. – Há controvérsias! Há excepções! – alguém exclama. Sim, há. Eu estou aqui como um tipo desses.

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Mas no geral, a “mina das baladinhas”, a “guria que tira foto com garrafa de Heinekken”, o “cowboy das metrópoles que nunca viu um boi vivo na vida”, o “playboy de academia”, o “espertão de algum curso de exatas que se acha o bam-bam-bam porque sua remuneração é maior que a do maconheiro do curso de sociologia”, o “maconheiro do curso de sociologia que se acha superior ao playboy que faz engenharia civil porque ele se vendeu para o universal-abstrato-indefinido chamado burguesia/capital financeiro”, o religioso hipócrita e o neo-ateu toddynho com mania de perseguição, que usa a descrença em Deus pra atingir papai e mamãe, procurando racionalizar a descrença a posteriori, enfim. Esse vasto caleidoscópio ainda pensa e age de maneira essencialmente similar a da “aristocracia suburbana”, que agindo como nobreza inglesa, agitava os saraus da primeira república. E que, nas palavras de Lima Barreto…

[…] Isso é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se alguns de seus representantes vê um tipo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho da “aristocracia suburbana” está em ter, todo dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado – aí, julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha e da distinção.”  

O fato é que, seja de esquerda ou de direita, o brasileiro classe média tende a achar que o progresso, o sucesso e a condição da mais alta dignidade é a prosperidade material. Seja pela via de esquerda, louvando Cuba e sonhando com Paris, Copenhague ou Estocolmo. Seja pela via de direita, louvando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha do alto de seu inglês do cursinho do Joel Santana. Ambos se unem na crítica ao que aprece atraso, no MST ou na bancada evangélica. A classe média pode ser tipicamente representada ideologicamente em tipinhos como Leandro Karnal, Luiz Felipe Pondé ou Mario Sergio Cortella. Ou é o isentão meio Foucault com mania de superioridade, ou é o sofista empreendedor, ou ainda, o careca que curte evangélico porque eles sabem fazer dinheiro. É PSOL x MBL, PT e PSDB/DEM.

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Não é que o homem simples seja moralmente melhor ou mais puro. Não raramente ele é de modos rudes, glutão, grosso e intolerável para 20 minutos de conversa mais enriquecedora, portanto, se ele tem algum mérito sobre nossa classe intermediária, logo volta a sua posição natural de igual a todo mundo pelos seus outros defeitos.

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Mas ainda assim, o homem simples do campo, ou o trabalhador braçal dos meios urbanos, tem uma vantagem que lhe torna ímpar, ele é mais verdadeiro no que crê e mais genuíno naquilo que fala. Quando um “pobretão” sorria para o Lula, é porque ele genuinamente acreditava que aquele outro glutão e grosso imprestável, de algum modo um tanto mágico lhe havia melhorado as condições materiais de vida, respondendo-o com seu apreço legítimo sincero. Quando, porém, o homem de classe média sorria para o Lula, sabíamos que era ou puxassaquismo ou ideologismo abstratista rousseauniano de quem ama mais do que o próprio ser os pobres imaginários que habitam suas concepções filosóficas limitadíssimas. E isso é o que eu vejo de mais deplorável na nossa classe média.

Nenhum servente de pedreiro ou bóia-fria se oculta sob palavras que são contruídas apenas para simbolizar coisas que ele não é. Para um homem simples do povo, vale a máxima pau é pau, pedra é pedra. O homem pobre, do campo ou da cidade, se enoja quando vê um tipinho esnobe da classe média falar, de maneira desabridamente falsa: “Nós, que somos pobres né?“.

– Né?

O que uma pessoa parece é o que ela é. Não é que o pobre ame sua pobreza, ao contrário ele tem ciência de que não vai muito mais longe do que o que alcançou sem ser por um casual golpe de sorte. Não é porque ele só tem arroz com farofa para comer, que ele é um ressentido; é precisamente por ele só ter arroz com farofa, que ele se alegra, que ele sonha, que ele fantasia. É por isso que ele se fantasia nas festas, nos churrascos de laje, nas batucadas no boteco. Ele se ornamenta com os aspectos materiais da riqueza apenas para gozar um pouco consigo mesmo, rir de si mesmo é uma arte que o homem simples domina, diferente de nosso pequeno burguês, depressivo, emburrado, em crise existencial, entupindo-se com Kierkegaard ou com Nietszche.

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Nosso populus não se ilude mais que o necessário para uma noite, pois ele sabe das suas responsabilidades reais, com as pessoas que ama, com seus filhos, com sua esposa, ele sabe onde pisa, onde o calo dói e onde a piscina da vida dá pé. Nossa classe média ainda hoje crê lutar por um mundo melhor, à direita ou á esquerda, amando toda a humanidade, ou a liberdade, ou a igualdade, seguramente longe, é claro; bem protegida nas suas casas espaçosas ou em seus apartamentos de 9o metros quadrados.

Ser deslumbrado é coisa de gente da classe média. A verdadeira plebe não é a plebe econômica, e sim aquela que porque acha que tem uma renda mais ou menos, uma vida mais ou menos organizada, ou fez um intercâmbio no Canadá desses bem mais ou menos, ou porque teve uma educação mais ou menos humanista, é  de algum modo superior. Paradoxalmente, Marilena Chauí tinha razão, não pelas razões que imaginava ter, é claro. A classe média não é a base do fascismo, ela é a base do modismo. É mais fácil achar fascismo, reacionarismo, tradicionalismo e conservadorismo no povão, para o desgosto de ambos os lados do espectro.  Cansou? a solução é um misto de Carlos X de França e de Chesterton.

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  • L.A.

    Como assim? A classe média é que sustenta esse país! Sem a classe média o consumo cai, há desemprego, pobreza. A classe média gera emprego, riqueza, prosperidade, ela é afonte de vida. A classe média é mais racional que as pessoas mais pobres, basta ver que quão mais rico um país, mais secular, mais racional e mais tolerante ele é. Quanto mais pobre, mais sujeito a superstição, às crendices religiosas e mais intolerante ele é. Acabar com a pobreza e a miséria deveriam ser as pautas mais importantes, já que você é defensor da moralidade, me diga, isso é imoral?

    Estou acompanhando sempre seus textos negacionistas e nacionalistas. Esse papo de “alma do brasileiro, ou a essência do brasileiro”. Besteira! Balela! Não tem nada de valor aqui! Esse culto da mesquinharia e do insucesso é o que mantém o país para trás. Nossos valores são uma porcaria, a mentalidade popular nossa é a base do nosso atraso econômico e político. Nacionalismo? Mais? Nacionalismo é esquerdismo. Nazismo é o que? Nacionalismo. E nacionalismo é de esquerda. Não se esqueça que todo lixo nacionalista que já existiu no Brasil esteve com Getúlio atrasando esse país com esse mesmo discurso de “a favor dos pobres” ou essa absoluta superioridade moral dos pobres. Para quem se diz um verdadeiro conservador, você, a quem um dia já dei crédito, está a passos largos cada vez mais a esquerda. Quando a classe média anseia algo que vem de outro país, está apenas ambicionando o que é melhor, um espírito vencedor, empreendedor, de quem quer prosperidade e não pobreza, ela está certa!

    Se há uma fonte de cultura, vem de onde? Da classe média! Fique aí com seu feudalismo medieval reacionário idealizando uma pobreza que não seja violência e ignorância a vontade. Pobre quer é ser rico, e não manter-se na pobreza. Quem gosta de pobreza é intelectual.

  • Na moral, se o comentário abaixo não for um troll, ele é estranho pra caraio. Tão estranho que me fez pensar até na hipótese macabra de o Arthur Rizzi ter criado uma conta fake para emular um adversário!

    Viagens na maionese à minha parte, o perfil abaixo foi criado exatamente hoje, usa as iniciais do Luciano Ayan, tenta usar a mesma linguagem dele, porém eu sei que ele jamais elogiaria a “tolerância” dos países ricos e hoje ele já usa o rótulo “extrema-direita” contra os nacionalistas. Enfim, o cara de baixo é EXATAMENTE a pessoa que o texto critica!!!
    Mano, eu estou com muito medo dessa minha hipótese macabra!

    • Ah, e esqueci de dizer: o texto é foda, como sempre. E por isso mesmo, não me decepcione, Arthur, você é meu ídolo.

      • Rizzi, A.

        Na página do Minuto Produtivo tem um que usou o argumento tipicamente classe-média do “Diploma”. Algo que inclusive o Lima Barreto critic NO MESMO LIVRO QUE EU CITEI!

        • Eu vi aquilo. É de dar vergonha!

          • Não adianta bloquear cusão. Não tem argumento? não desce pro play!

          • Rizzi, A.

            Não te bloqueei.

          • Nem eu te bloqueei. Apenas me pergunto “que caralhos você é?”.