Política

Seria a “nova direita” uma religião política?

A politização da cristandade (ou do que restou dela) faz com que Deus seja apenas um fiador do certo e do errado, e que através de uma práxis de militância e discussão, justifique-se a substituição de orações, atos contricionais, ascese, igrejas, cultos, missas e atos de caridade, com fóruns de discussão filosófica, política, geopolítica e econômica, o resultado é a conversão do parlamento num novo templo, dos deputados e senadores num novo clero, e da presidência da república num papado do Estado-nação soberano.

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Eric Voegelin, Arnold J. Toynbee, Orlando Fedeli, Christopher A. Ferrara, são só alguns autores que li que trabalham bem com o conceito de gnosticismo para explicar fenômenos da política moderna. Recentemente, discutindo com alguns amigos, me dei conta de que os cristãos (em sentido lato) estão perdendo a noção de que o cristianismo não é uma ideologia política, e sim um conjunto de verdades fundamentais sobre Deus, o mundo e o propósito de todo o ser.

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Não quero dizer, com isso, que o cristianismo não possa ter participação política. Ao contrário, acho que deve, mas não se pode perder de vista o horizonte que separa verdade e ideologia. Quando vejo assertivas de que “temos que unir forças com os liberais, com os espíritas, com os evangélicos, etc” contra o comunismo, o gayzismo, ou o que quer que seja, percebo que o sentido mais profundo da religião se diluiu num mar de politicismos. É claro que não tem como enunciar um leque de verdades absolutas em termos de moral e fé sem querer que elas meçam e sejam medidas pela realidade.

A politização da cristandade (ou do que restou dela) faz com que Deus seja apenas um fiador do certo e do errado, e que através de uma práxis de militância e discussão, justifique-se a substituição de orações, atos contricionais, ascese, igrejas, cultos, missas e atos de caridade, com fóruns de discussão filosófica, política, geopolítica e econômica, o resultado é a conversão do parlamento num novo templo, dos deputados e senadores num novo clero, e da presidência da república num papado do Estado-nação soberano.

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Em nome da luta contra o “comunismo, globalismo, islamismo, etc.”, ignoram-se heresias, ignora-se o anticristianismo do inimigo do nosso inimigo que não necessariamente é nosso amigo, como é o caso do liberalismo. Ou seja, em nome da “unidade da direita”, da “unidade dos conservadores”, evangélicos e judeus, satanistas e espíritas, maçons e católicos, liberais e sociais democratas, andam de braços dados, no melhor estilo de Julio Sosa, “todo es igual, nada es mejor“. O conservadorismo, assim, converte-se numa nova religião, que substitui as antigas ou que, no mínimo, se superpõe a elas. “O mundo jaz no maligno”, já dizia Jesus Cristo. Se formos esperar que não hajam mais ameaças para discutirmos teologia, então, a cristandade (ou o que sobrou dela), morrerá aos pés da nova religião política, a nova direita, ou, o tal de liberal-conservadorismo.

Christopher Ferrara em seu livro “The Church and the libertarian“, fez questão de afirmar essa realidade, numa série de irrefutáveis ataques à Escola Austríaca de economia, fez questão de mostrar a mais completa incompatilidade entre a doutrina da Igreja (não apenas em questões sociais, mas de fé também) com austro-libertarianismo. Ferrara apenas vem brilhantemente concluir um belíssimo trabalho que já havia sido feito nem uma, nem duas vezes, mas várias vezes pelos mais variados autores ao longo da história, como Chateaubriand, Dom Félix Sardá y Salvagny, Perillo Gomes, Jackson de Figueiredo, Miguel Ayuso e por todos os sumos pontífices, pré e pós conciliares.

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Na página 115 de seu livro, ainda não traduzido para o português, Ferrara transcreve uma citação de Thomas Woods Jr falando sobre o conceito da mão invisível de Adam Smith.

Durante o chamado iluminismo, pensadores impressionados pela regularidade dos fenômenos da natureza e pela beleza da ordem que sir Isaac Newton havia descrito no mundo físico, decidiram olhar para o mundo social para tentar observar se havia leis similares nos relacionamentos humanos.
Os pensadores iluministas viam as leis da natureza como decretos da “Providência”, e quando estes pensadores descobriram a mesma regularidade na ação humana, na esfera econômica, eles interpretaram isso como sinais da sabedoria divina cuidando da natureza do homem. Observe o funcionamento do mercado e verá o dedo de Deus por detrás dele. (Tradução Livre)

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Ora, quando Woods, que é um caso clássico de adepto da heresia austríaca, decide atribuir à “mão invisível”, que é produzida pela racional e inteligível lei da oferta e da demanda, o dedo sobrenatural da “Providência”, ele claramente está imanentizando Deus, de maneira similar a que fizeram Hegel e Marx. Para Hegel, Deus nada mais era que o resultado da ação do espírito humano na história, ou como alguns hegelianos dizem, “Deus é a história”. O resultado dessa armadilha da religião política, é que no fim das contas, ao invés de prestar nossa adoração a Deus, acabamos nos iludindo ao achar que o adoramos, quando na verdade nos convertemos em partícipes do culto imperial, no altar do Estado soberano, o deus mortal de Thomas Hobbes, o soberano de Jean Bodin. No caso específico de Novak, Sirico, Rockwell e Woods, tornaram-se partícipes do culto tribal da soberania da propriedade, reduzindo o homem a um mero esquizofrênico de moral dupla, cuja função no mundo (ou sua ação humana) é maximizar seu bem-estar através da melhor relação custo-benefício.

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É preciso que sejamos cristãos, muito mais do que sermos conservadores, e se for para se conservar algo, que se conserve a ortodoxia! O que não dá para aceitar nem em hipótese, é converter-se em uma teologia da libertação direitista.

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(Fonte da imagem: Pink News)

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  • Pedro Rocha

    Assim como o liberalismo é um libertarianismo incoerente, o conservadorismo é um tradicionalismo (no sentido político) incoerente, dada a sua tentativa de ser um “protestantismo não-confessional” em busca da unidade, algo que muito s protestantes almejam mas não conseguem por conta da premissa falsa do “sola Scriptura” e do livre exame.

    Dentro do contexto histórico e político da Europa pós-Renascimento, onde nossa civilização Ocidental começou a se desvanecer de forma sistemática, fica nítido que o protestantismo e seu derivado conservadorismo não podem ser encarados como “movimentos “de direita”, entendendo-se a “direita” como a defesa da cultura ocidental Cristã. O conservadorismo inglês não deixa de ser um movimento assim, mas é deficiente por conta de sua base protestante.

    Com base no exposto, a verdadeira “direita” é o tradicionalismo, que defende a Fé o Moral Cristã genuína, que é o Catolicismo e o Estado confessional católico, sem se prender a um sistema político específico.

    Entrementes, o tradicionalismo praticamente desapareceu como força política após a morte de Francisco Franco e seu admirador Augusto Pinochet, que modernizou o franquismo com a adoção da liberdade econômica.

  • André L.

    O conservador usa fatos ou experiências passadas e que foram comprovados e deram certo.
    Já o liberal vale tudo, experiências no meio social sem responsabilidade, sem a mínima preocupação com o futuro, planejam algo que pode ou não da certo.
    Quem escreveu esse texto nunca estudou teologia e muito menos o que é ser um conservador.