Política

Pós-verdade: a grande imprensa é a principal responsável por isso. Mas não a única

Do Brexit á vitória de Donald Trump, o termo "pós-verdade" tomou conta das redes e muito se discute sobre como lidar com isso. Mas pouco se questiona sobre o principal responsável por ela: a grande imprensa (embora esta não seja a única).

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Para melhor ou para pior, dependendo do ponto de vista, o ano de 2016 ficará marcado na memória de muitos e na história. Ao longo de 366 dias, contando já os derradeiros dias, tivemos fatos que representaram importantes rupturas no até então atual estado de coisas. Entre eles, dois são cruciais: a vitória do Brexit, em que os eleitores decidiram por retirar o Reino Unido da União Europeia, e a vitória de Donald Trump nos EUA.

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Em ambos os casos, apostava-se que tanto o primeiro como o último seriam derrotados, e quem apostou perdeu. Apostava-se – e ainda se aposta – que ambos os eventos trariam o apocalipse aos seus respectivos países, quiçá ao mundo. Ao que tudo indica, outra aposta derrotada, ou a caminho disso. E, como disse antes, são apenas os dois maiores exemplos de expectativas desfeitas.

Diante desse último ponto, uma expressão ganhou muita força na imprensa e nas redes sociais nos últimos meses. É a “pós-verdade”, ou post-truth, na respectiva tradução em inglês. Palavra do ano segundo a Universidade de Oxford, é um adjetivo que denota “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Não é de se negar que é preocupante quando os fatos são ignorados em prol de narrativas, mas a questão que fica é: trata-se de alguma novidade? E não seria a grande imprensa a alardear este termo uma das responsáveis?

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Para ambas as perguntas, adianto as respostas. Para a primeira, a resposta é não. Já há algum tempo, os “fatos objetivos” são deixados de lado. Já para a segunda, a resposta é sim. Mais ainda: a grande imprensa é, muito provavelmente, a principal responsável por chegarmos à tal “pós-verdade”. E acrescento que não é a única. O meio acadêmico, por sua vez, foi um dos sócios disso.

E, para cada uma das respostas, faço questão de explicar meu ponto de vista. Já há algum tempo – uns cinco anos, na melhor das hipóteses, ou mesmo dez, na pior delas – boa parte da grande imprensa já tem usado e abusado da confiança de seus leitores em prol de determinadas narrativas, ainda que estas estejam descaradamente em desacordo com os fatos objetivos. Apresentarei alguns breves exemplos:

  • Quando a imprensa noticia que protestos promovidos por certos grupos (MPL, movimentos do “Não Vai Ter Copa”, movimentos anti-impeachment e partidários do “Fora Temer”, por exemplo) que eram pacíficos terminaram em quebra-quebra e confronto com a polícia como se fosse um resultado inesperado promovido por uma “minoria violenta”, mesmo quando recorrentemente acaba sendo este o resultado final e mesmo quando se há evidências de que o objetivo desde o início era o terrorismo, isso se trata de preocupação com os fatos objetivos?
  • Quando a imprensa trata como párias (ver um exemplo aqui) os eleitores do Brexit, preveem um verdadeiro apocalipse caso este vença nas urnas e isso não ocorre, trata-se de preocupação com os fatos objetivos?
  • Quando a imprensa opta por fazer torcida organizada em prol de um candidato nas eleições americanas (aqui tem um exemplo mais trágico disso), tratando os eleitores de seu concorrente da mesma forma que os eleitores do Brexit, prevê o mesmo apocalipse caso este vença e erra absolutamente tudo, isso se trata de preocupação com os fatos objetivos?
  • E quando a imprensa trata como um “estadista” um presidente cuja atuação foi – na melhor das hipóteses – medíocre e trata sua política antiarmas como um tema relevante e desejável pela população daquele país (mesmo com pesquisas apontando o contrário), isso se trata de preocupação com os fatos objetivos?
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Bem, como eu disse, são só alguns exemplos de vários que ocorreram ao longo dos últimos anos e, sobretudo, ao longo deste ano. Mas são evidências de que, se estamos na “pós-verdade”, não só estamos nela há algum tempo como a grande imprensa que tanto lamenta por isso é a principal responsável, por mandar às favas os fatos objetivos em prol de narrativas baseadas em apelos à emoção e a determinadas crenças.

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Mas, como disse antes, por mais que seja a principal responsável por parir a “pós-verdade”, ela não é a única. Uma parcela considerável do establishment acadêmico, por ação ou omissão, também tem as suas impressões digitais.

Como disse em um artigo meu, publicado ainda em fevereiro deste ano neste site (também recomendo um outro artigo, publicado no mesmo período no Observador), boa parte do que se produz nas salas de aula das universidades deixou de ser a observação, identificação e elucidação dos fatos objetivos para alimentar um conjunto de crenças em que, entre estas e os “fatos objetivos”, azar destes últimos. De quebra, acaba servindo de fonte para a imprensa no sentido de dar mais vazão à desinformação.

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No entanto, há uma frase que, mesmo clichê, continua válida: não dá para enganar a todo mundo o tempo todo. E, cedo ou tarde, o público vai dar sinais de que está cansado disso. E é o que aconteceu e continua acontecendo.

Tendo em vista a lei de oferta e procura e o enfraquecimento da mainstream media, muitos aproveitaram este momento para desenvolver canais alternativos, com o intuito de cobrir esse vácuo. E é claro que, nesse meio, também surgem aqueles que recorrem à mentira e à desinformação como meio de divulgar seus ideais.

De fato, as fake news são preocupantes, e as consequências disso podem, em alguns casos, serem desastrosas. No entanto, os meios tradicionais de comunicação não possuem moral nenhuma para choramingarem quanto a isso. Junto com boa parte do establishment acadêmico, são sócios no desastre. E, pelo esforço que fazem (ou deixam de fazer), merecem caminhar para a irrelevância.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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