Política

A importância de Paulo Francis

Como o jornalista deixou lições a jovens cientistas políticos e ao Brasil.

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Foi com Paulo Francis, em meados do ano de 2006, que pude enxergar a política de uma forma distinta e esclarecedora. Ainda adolescente, me envolvi com movimentos de esquerda, que incluíram filiação a partido político. Bastou uma desilusão para Francis, à época morto já haviam dez anos, me fazer enxergar que eu estava errado, com ideias erradas, na direção errada.

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Ainda ator de teatro, quando fez uma excursão pelo nordeste com o diretor Paschoal Carlos Magno, viu a miséria de perto e se debandou para a esquerda, lutando contra as injustiças sociais. Criticou radicalmente liberais e conservadores, até se mudar para os Estados Unidos e começar a despertar de um sonho falido. A reviravolta ideológica causou furor na imprensa e até hoje é motivo de análises e polêmicas, de como Francis se deslocou do trotskismo para o conservadorismo liberal. O ponto alto foi a retratação de Francis à Roberto Campos, reconhecendo as qualidades e competências do economista e ex-ministro.

O que sobrou a Francis falta à boa parte de nossa intelectualidade, que quando jovem levantou bandeiras que com a maturidade deveriam largar, quando o discernimento começa a agir. Mas ainda somos obrigados a ver jornalistas calvos com dezenas de anos de carreira, que no fundo, ainda sonham com a revolução que vai deixar toda a sociedade igual, sem pobreza, aquela maravilha, como um enorme falanstério.

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Se Francis é criticado por ter errado tanto, foi dele a primeira denúncia pública de corrupção na Petrobrás, em 1996, ainda no governo FHC. Ter dito o que disse custou caro ao jornalista, que encarou um processo milionário movido pelos diretores da estatal em Nova York, o empurrão final para sua morte, segundo os amigos. E pelo visto, a corrupção não só existia como foi aprimorada ao longo dos anos.

Em entrevista para o programa Roda Viva em 1994, disse que Lula não teria jamais competência para dirigir um país, que não confiava no ex-metalúrgico nem como torneiro mecânico, já que perdeu um dedo. Foi interpelado pelos convidados, abertamente simpáticos ao petista. Uma das jornalistas chegou a dizer que Lula era cercado de muita gente boa. O resultado de tudo, que Francis teve a sorte de perder, todos sabemos.

A obra de Paulo Francis é quase toda composta por artigos, selecionados entre os milhares deixados por ele nas páginas de jornais brasileiros. Um dos criadores do Pasquim, foi preso pela ditadura, interrogado e solto. Escreveu sobre o período militar na importante obra “Trinta anos esta noite”, onde relata de posição privilegiada os bastidores da tomada de poder pelos militares em 1964.

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Foi na autobiografia “O Afeto que se encerra” que o jornalista dava os primeiros indícios de sua virada ideológica. Tentou, sem muito sucesso, se inserir na literatura, universo que amava assim como o teatro. Não empolgou, mas deixou quatro obras interessantes, uma espécie de ficção histórica, pois não conseguia se desligar do que vivia e incluía muitos detalhes de seu cotidiano nas obras.

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Na década de 1990, considerado o mais influente jornalista do país, trocou de time, em operação digna de uma ida de Messi ao Real Madrid. Deixou a Folha de S. Paulo, sua casa desde a década de 1970 para contribuir com o Estado de S. Paulo. Um embate público e pouco elegante com o ombudsman da Folha foi um dos motivos de sua saída.

Francis também participava do programa Manhattan Connection, à época transmitido pelo canal GNT. Faleceu em fevereiro de 1997.

Em 2017, já contarão vinte anos de sua morte. O jornalista Nelson de Sá, da Folha, que trabalhou com Francis em Nova York, está lançando a segunda coletânea de artigos. A primeira veio em 2012, chamada de “Diário da Corte”, que era o nome de sua coluna. Agora em novembro de 2016, talvez como um início da lembrança dos vinte anos de sua ausência, lançou “A segunda mais antiga  profissão do mundo”, onde aborda principalmente as impressões de Francis sobre a mídia e o jornalismo.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

Ao menos uma lição Paulo Francis poderia ensinar ao nosso jornalismo, tão ligado ao establishment e ao governo estabelecido, que é a máxima de sempre estar contra o governo, em eterna vigilância.

E, quanto a mim, serei sempre grato à Paulo Francis por ter me retirado da lama das ideias políticas.

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(Fonte da imagem: Pink News)

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