Política

Impeachment: o fim de uma batalha. E o começo de outra muito maior

O impeachment de Dilma Rousseff pôs fim a pouco mais de 13 anos de PT no poder. No entanto, começa outra batalha, muito maior, mais longa e mais difícil.

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Ontem, mais um capítulo da história da “Nova República” chegou ao seu final: após praticamente 24 anos do impeachment de Fernando Collor, a presidente Dilma Rousseff, por 61 votos a 20 no Senado, perdeu o mandato, apesar de não ter perdido (lamentavelmente) os direitos políticos por oito anos, graças à decisão de Ricardo Lewandowski em aceitar o fatiamento do julgamento, abrindo precedente, por exemplo, para a salvação de Eduardo Cunha (cadê a galera do “fora Cunha”?). A queda de Dilma pôs fim a pouco mais de treze anos da “era PT”, sendo pouco mais de cinco de um governo que mal conseguia apagar incêndios no primeiro mandato e os deixou fora de controle no segundo.

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No entanto, o fim de uma batalha é, também o começo de outra. Maior, mais longa, mais difícil e em várias frentes, não só na política, mas também na imprensa e no ambiente acadêmico. São várias batalhas no sentido de ter o controle cultural e da narrativa do que, daqui a alguns anos, por exemplo, estará nos documentários e nos livros de história da próxima geração. E, aos meus colegas conservadores que, de alguma forma, ficaram frustrados com a pizza que livrou Dilma de perder os direitos políticos, não custa repetir, de outra forma, o que disse no início deste parágrafo: quem disse que seria fácil derrotar a esquerda?

Só para se ter uma ideia, a Polônia, após a queda do comunismo (ou seja, a forma mais bruta da esquerda) em 1989, precisou de mais de quinze anos para que a direita rompesse a hegemonia dos pós-comunistas e, depois disso, mais dez anos para romper a hegemonia dos liberais, fato esse claramente demonstrado pela eleição de Andrzej Duda para a presidência e de Beata Szydlo para premiê. Por sua vez, a Hungria, que passou por igual situação até aquele mesmo ano, precisou de mais de vinte anos para que os conservadores se consolidassem na política e na sociedade como um todo, fato esse demonstrado nas duas vitórias recentes de Viktor Orbán e na promulgação da nova Constituição naquele país. Por que alguém acreditaria que bastaria poucos anos para derrotar um esquerdismo numa forma não bruta (ainda), mas dissimulada em diversos segmentos sociais, tornando-se muito mais difícil de ser identificado e combatido? Não podemos colocar o carro a frente dos bois.

No entanto, não desanimemos: apenas o fato de o PT não possui mais o amplo controle da máquina pública no momento já é algo a ser comemorado. Ganhamos uma janela de tempo enquanto o sonho de um “socialismo radicalmente democrático” (algo semelhante ao quadrado redondo da “democracia até demais” venezuelana) não se concretizou. Ganhamos uma janela de tempo enquanto não foram aplicadas as teses do “caderno petista“, que prega abertamente, entre outras coisas, a cassação de Jair Bolsonaro, estatização da Rede Globo e de todas as emissoras que exibem programas religiosos, aparelhar o governo com milicianos de “movimentos sociais” como o MST e cassar os ministros do STF que condenaram os envolvidos no Mensalão. Ganhamos uma janela de tempo enquanto não temos mais no poder um partido que fala, abertamente, em aparelhar instituições responsáveis pela segurança e defesa do país, como a Polícia Federal e as Forças Armadas. Em miúdos: ganhamos uma oportunidade – rara, diria eu – de começarmos a atacar os diversos pilares que sustentaram – e ainda sustentam – a esquerda nos últimos anos, com a vantagem de que o potencial para contra-ataque, ao menos por ora, foi enfraquecido. Importante lembrar que, falando em outras palavras o que Octávio Henrique disse em seu artigo no blog Apoliticamente Incorreto, quem não ataca, inevitavelmente, será atacado.

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Dito isso, pretendo elencar alguns pontos dessa nova batalha, os quais seguem abaixo:

O primeiro deles, o mais elementar: precisamos mostrar, de maneira bem clara e inequívoca que o impeachment de Dilma Rousseff não foi golpe. Mais ainda, que, se houve golpe – ou mesmo golpes, como muito bem descrito no texto neste post do Ápyus – todos estes serviram para beneficiar e/ou dar sobrevida política à presidente. Seja o cancelamento da primeira comissão do impeachment na Câmara, a tutela quase absoluta do STF em relação ao rito do processo (ignorando o impeachment de Collor), criando mais uma etapa antes do afastamento da presidente, seja o próprio fatiamento do julgamento, que cassou o mandato sem tirar os direitos políticos. Mesmo Eduardo Cunha, visto como “algoz do golpe”, acabou agindo de forma que o processo de impeachment se restringisse às fraudes fiscais, sendo que o Petrolão foi retirado do processo. Aliás, foi o mesmo Cunha que, no início de 2015, não enxergava fundamento nisso. E é o mesmo Cunha que pode ser beneficiado com a manobra aceita por Lewandowski de desmembrar o julgamento final. A propósito, onde está a galera do “e o Cunha?” ou “fora Cunha!”? Estão satisfeitos agora? Ou a hipocrisia não deixa?

Além do mais, onde já se viu um “golpe” cujo procedimento é previsto na Constituição, possui um rito regulamentado pelo STF (supondo que este rito não tenha sido um golpe dentro do próprio processo de impachment), prevê ampla defesa por parte da acusada, bem como das diferentes partes envolvidas? Bons tempos em que presidentes depostos precisavam pedir exílio em outro país, ou acabavam se matando para não serem pegos e mortos pelos responsáveis pelos golpes…

O segundo ponto, no qual muitos esquerdistas e ditos “isentões” ainda insistem, é que o impeachment é um “golpe para abafar a Lava Jato”, com base nas gravações do diálogo entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Além do fato de ter ocorrido cinco fases da operação depois que Michel Temer assumiu a Presidência da República, o mesmo diálogo revelou que essa tentativa de abafar a Lava Jato incluia, entre outras coisas, blindar Dilma e Lula. Ou seja, mais uma vez, se houve ou há golpe, consiste em beneficiar todos os que estão direta ou indiretamente envolvidos nas investigações, inclusive os dois petistas. Golpe em que as próprias vítimas saem praticamente ilesas?

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Onde será que os esquerdistas não entenderam isso? Ou são canalhas mesmo? (Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Onde será que os esquerdistas não entenderam isso? Ou são canalhas mesmo? (Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)

O terceiro ponto, é que devemos mostrar, de forma bem clara e objetiva, que as “pedaladas fiscais” (ou melhor, fraudes fiscais) não foram apenas ilegais, mas também imorais, resultando na pior crise econômica da história do Plano Real – e, quiçá, a pior da história republicana – prejudicando milhões de brasileiros, seja pelo aumento galopante do desemprego, seja pela perda de renda dos trabalhadores, seja até mesmo pela perda de “direitos” que Dilma, levianamente, alegava proteger, acusando os demais – inclusive, agora, o Temer – de intencionar retirá-los.

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Trata-se de um ponto tão importante que irei dividi-lo em três considerações: a primeira, é que, ainda que “todos tenham pedalado” – argumento absolutamente esdrúxulo, pois teríamos o caos se um criminoso não fosse punido pelo seu delito porque outros fizeram o mesmo anteriormente e não foram punidos – o ato praticado por Dilma teve, pelo menos, dois agravantes, a saber: o volume “pedalado” foi muito maior que nos governos FHC e Lula, além de que a maior parte disso ocorreu em 2014, ano eleitoral, com um objetivo um tanto óbvio; e as pedaladas, junto com outros fatores, levaram o país a uma crise econômica praticamente sem precedentes, fazendo com que o país entrasse em uma ‘década perdida’, com um longo e violento período de recessão, inflação fora de controle, desemprego em alta, perda de renda para a classe trabalhadora e milhões de pessoas retrocedendo socialmente, deixando a intitulada “classe média”. Trata-se, portanto, de um erro – propositadamente, diga-se – excepcional, com consequências igual e catastroficamente excepcionais.

(Fonte da imagem: Mercado Popular)
(Fonte da imagem: Mercado Popular)
(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)

A segunda consideração é que, diferentemente do “nobre” discurso petista, que alega o fato de que as pedaladas fiscais serviram para pagar programas sociais – o que continua não justificando o erro, diga-se – a maioria esmagadora dos recursos “pedalados” (mais precisamente, 70%), foram utilizados para bancar grandes empresas (via BNDES) e o agronegócio (via Banco do Brasil). Em miúdos: dinheiro que, em última instância, é meu, é seu, é do trabalhador, é – inclusive – dos mais pobres (que pagam impostos), foi utilizado indevidamente pelo governo federal para bancar programas que, na maioria das vezes, bancava os mais ricos. Uma espécie de Bolsa-Família às avessas. Pergunto a você, leitor: acha justo isso, sobretudo se você realmente se importa que os pobres fiquem menos pobres?

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A terceira consideração, não diretamente a ver com a questão das pedaladas, mas não menos importante por conta das desculpas esquerdistas diante da crise econômica em que o nosso país vive: não, não tem absolutamente NADA a ver com a crise internacional. Aliás, que raios de crise internacional é essa em que, na América do Sul, apenas Argentina e a hors concours Venezuela estão ao lado do Brasil entre os países que estão contraindo economicamente? Que crise econômica é essa em que boa parte dos emergentes e mesmo as principais economias desenvolvidas, que ainda se recuperam do choque de 2008-09, seguem crescendo? A não ser que o mundo conhecido da esquerda se resuma à “potências” tão ou mais em queda livre que o Brasil, como Burundi, Sudão do Sul, Guiné Equatorial, Serra Leoa e Iêmen, a tese de “crise internacional” dispensa quaisquer comentários, de tão ridícula que é.

Finalizadas as três considerações sobre o terceiro ponto, vamos ao quarto e último ponto, uma vez que os três primeiros consiste na batalha da narrativa – a mais urgente neste momento -, mas que é tão ou mesmo mais importante em relação aos anteriores: a batalha cultural. Mesmo sofrendo uma derrota no meio político, o PT e a esquerda em geral ainda detém a hegemonia na imprensa – inclusa a “golpista” – e nos meios acadêmicos, apesar de que aos poucos este domínio vem sendo enfraquecido. Não pretendo delongar muito – até porque fui razoavelmente detalhista nos anteriores, mas apenas reforço que não podemos nem devemos relaxar no sentido de que precisamos estruturar grupos de estudo nas universidades, apoiar, inclusive financeiramente, os meios alternativos de mídia (realmente alternativos, e não uma dita “mídia independente” financiada pelo Soros), apoiar movimentos estudantis não ligados a partidos políticos e que visem, acima de tudo, as demandas dos alunos em vez de, como frequentemente acontece, transformar-se em trampolim para militantes profissionais, etc. O rol de medidas é tão extenso quando as frentes de batalha que precisaremos estar envolvidos. Mas, mais uma vez, faço a pergunta: quem disse que seria fácil? O importante é que é possível.

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Enfim, creio que este, por enquanto, deva ser nosso “mapa do caminho” para o cenário pós-impeachment. Em outro momento, com calma, falarei sobre o que espero do governo Michel Temer. Até a próxima.

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(Fonte da imagem: Pink News)

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