Política

A greve da PM no Espírito Santo: um guia do que NÃO fazer em estratégia política

Paulo Hartung pode ter ganho uma mancha em sua carreira política, mas o amadorismo de estratégia do "movimento das esposas" acabou salvando-o do pior.

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Antes de tecer meus comentários neste artigo, é importante deixar claro dois pontos antes de alguém me criticar sem fundamento: em primeiro lugar, não nutro simpatia por Paulo Hartung ou por seu governo, ou, ao menos, não mais. Sim, votei nele em 2014 por considerá-lo um melhor candidato em relação a seu antecessor, Renato Casagrande, e por ter feito uma boa gestão entre 2003 e 2010, tirando o Espírito Santo de uma situação deplorável, sob domínio de uma corrupção generalizada e do crime organizado. Na medida do possível, até então, seu governo era relativamente bom, sobretudo se comparado aos nossos vizinhos do Sudeste, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde os salários dos servidores públicos atrasam e são parcelados.

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Em segundo lugar, sempre nutri – e ainda nutro, ou melhor, nutria – simpatia pela Polícia Militar e pelo seu trabalho. Quem me conhece, seja pessoalmente ou no Facebook, sabe muito bem que sempre fiz uma defesa (estridente, admito) de diversas ações policiais, mesmo as mais controversas, e não nego que defendo uma linha dura em matéria de segurança pública, com propostas que recebem críticas até mesmo à direita do espectro político. Além disso, tenho vários amigos e mesmo parentes que são PMs e, pelo que sei, fazem um trabalho admirável.

Ditos esses dois pontos, vamos ao que interessa: desde o dia 03 (sábado), esposas de policiais militares bloquearam as saídas dos batalhões, em protesto contra a não reposição salarial, bem como as precárias condições de trabalho destes. Sem viaturas circulando nem agentes nas ruas, o ES testemunhou uma escalada brutal de violência, com assassinatos (mais de 140 até agora), roubos, arrastões e saques a centenas de lojas (prejuízo acumulado em torno de R$ 300 milhões, incluso as vendas não feitas). Apenas no dia 05 (segunda-feira), tropas das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança começaram a chegar ao estado, de forma a garantir um mínimo de tranquilidade aos capixabas.

Enquanto os capixabas viviam seu momento de “prisão domiciliar”, governo e manifestantes realizaram reuniões ao longo da semana (segunda-feira, quarta-feira e quinta-feira), no entanto, não houve acordo. Na última sexta-feira, quando o efetivo das FFAA e FN já estava entre 2 mil e 3 mil, houve um “acordo” (irei explicá-lo mais tarde) entre os representantes do governo e as associações dos militares (que não representavam o movimento de protesto), que condicionava a ausência de punições administrativas à saída dos PMs aquartelados até às 07h de sábado.

No entanto, o movimento continuou após o prazo, e o comando geral da PM tomou uma medida drástica, convocando os agentes – alguns destes de folga e outros que deixaram o aquartelamento – a se apresentarem na rua. Houve ainda o resgate de policiais com o auxílio de helicópteros da própria corporação e das FFAA.

No momento em que escrevo, as esposas dos policiais ainda estão obstruindo as saídas dos batalhões. No entanto, diante das últimas manobras orquestradas pela equipe do governo Paulo Hartung, em conjunto com o Ministério da Defesa (as quais explicarei mais tarde), este está moral e politicamente enfraquecido, e seu fracasso será apenas questão de tempo. Fracasso esse cujas razões explicarei mais adiante.

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Um governo amador, um movimento mais amador ainda

Como disse logo no início deste artigo, não nutro simpatia por Paulo Hartung ou seu governo e, neste caso, a conduta de sua gestão é passível de muitas – e duras – críticas. Ele subestimou o clima de insatisfação (já instalado há algum tempo) que deu origem aos protestos, não teve nenhum plano de contingência para a situação e usou o pretexto da ilegalidade do movimento (militares são proibidos de fazer greve) para se esquivar das negociações e sua administração levou dois dias para acionar as tropas federais.

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Não sendo isso o bastante, levou-se o mesmo tempo para transmitir o cargo ao vice, César Colnago, o que deixou o ES simplesmente sem governador neste meio-tempo. Para um político que está em seu terceiro mandato, e antes disso, foi deputado estadual, deputado federal, prefeito de Vitória e senador, a condução dessa crise foi de um amadorismo ímpar. Amadorismo esse que deixará uma mancha permanente em sua carreira política e, por sua vez, pode inviabilizar um voo ao Planalto em 2018. Terá de se contentar em disputar o Senado, que possui duas vagas e não é necessário obter 50% mais um dos votos. Convenhamos, não é algo de todo ruim (para ele, claro), posto que garantirá oito anos em Brasília, tempo suficiente para o povo se esquecer dos dias de terror desta última semana.

No entanto, culpá-lo, assim como culpar a para lá de tendenciosa cobertura da Rede Gazeta (que, logo no início da paralisação, fez uma matéria um tanto desonesta sobre a questão da previdência dos militares) pelo cada vez mais baixo apoio popular é uma tese simplista, cansativa e unilateral. Se o governo adotou, no início, uma postura amadora, o “movimento das esposas”, como se denomina a obstrução das saídas dos batalhões, demonstrou o mesmo tanto – ou mesmo mais – amadorismo e ingenuidade política. Amadorismo e ingenuidade tais que, ao mesmo tempo que pode ter salvo Paulo Hartung do pior, pode ter ajudado a levar o movimento a um lento e doloroso suicídio, além de fazer, em poucos dias, uma verdadeira terra arrasada com a imagem de uma corporação de 182 anos. Não sendo isso o suficiente, tendem a não conseguir a causa pleiteada (a reposição salarial) e nem mesmo a anistia aos policiais aquartelados.

O movimento não deu nem um ou dois, mas vários tiros nos próprios pés, tiros esses muito bem aproveitados pelo governo de Paulo Hartung e pela imprensa no desenrolar a situação, ajudando a colocar boa parte da opinião pública contra os PMs. Vou elencar alguns deles, todos em circulação nas redes sociais:

  1. Um vídeo, divulgado no domingo, mostrando um ambiente festivo de churrasco em frente a um dos batalhões obstruídos, já quanto o ‘faroeste’ comia solto no estado;
  2. Uma encenação, divulgada na segunda-feira, em que, durante um procedimento de ordem unida, o comandante do pelotão pede às esposas dos policiais aquartelados para liberar a entrada do batalhão. Elas recusaram, e eles continuaram lá;
  3. Durante uma manifestação de moradores em frente a um batalhão da PM em Guarapari, policiais de folga fizeram um cordão de isolamento de forma a impedir a remoção das esposas dos aquartelados da entrada do mesmo (protesto espontâneo? Sério?);
  4. Na quarta-feira, após mais uma rodada fracassada de negociações entre manifestantes e o governo, um vídeo, gravado pelas mesmas, mostra uma delas bradando histericamente “100% (sic) de aumento e 100% de anistia” e que, se isso não fosse concedido, “não teria carnaval”. Posteriormente, foi explicado que esses 100% de aumento tinham que ver com a reposição salarial, mas o estrago já havia sido feito.
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Um quinto tiro no pé, talvez o pior de todos, era que, ao menor sinal de crítica ao movimento por uma parcela crescente da população, tanto policiais como simpatizantes do movimento preferiram por atacá-la, em vez de angariar a simpatia da mesma. O detalhe é que parte dos contrários ao protesto (ou, mais precisamente, ao seu modus operandi) eram de pessoas – eu inclusive – que tendiam a apoiar a PM e suas ações para minimizar a criminalidade. E pior que atacar aqueles que poderiam dar apoio é trair suas respectivas confianças.

No (pavoroso) conjunto da obra, tais ações mostraram – ou, se não, deram a entender – o pouco caso do movimento com a segurança de milhões de capixabas e um grau de intransigência, na melhor das hipóteses, igual ao do governo PH, preferindo apelar para um “quanto pior, melhor” de forma a forçar uma negociação. E, geralmente, quando pensamos em “negociação”, a ideia é que se chegue a um meio-termo entre as partes envolvidas, com cada lado tentando puxar para mais perto do seu. E, de nenhuma forma, o movimento demonstrou alguma vantagem nesse sentido.

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O mais triste disso tudo é que o conceito de estratégia foi justamente criado pelos militares, na Antiguidade Clássica. E foi justamente neste conceito que o movimento falhou miseravelmente. Uma leitura de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, ou de O Príncipe, de Maquiavel, teriam-nas poupado de um desfecho vergonhoso. Ou mesmo assistir alguns episódios da temporada de House of Cards, mais precisamente aqueles em que Frank Underwood, então corregedor da maioria democrata, manobra para debelar uma greve de professores e implementar a reforma no sistema educacional.

As questões políticas

É um tanto óbvio dizer que a greve dos PMs aqui no ES, bem como seus desdobramentos, terão consequências políticas muito claras. Como disse anteriormente, Paulo Hartung manchou sua carreira política, e isso lhe será suficiente para abortar seu sonho de tentar a presidência da República em 2018. O discurso de ser um dos poucos estados a ter uma condução relativamente tranquila das contas públicas não lhe será suficiente. Resta a ele, então, disputar o Senado, que são duas vagas e não precisa de maioria absoluta para se eleger.

No entanto, as manobras mais recentes do atual governador, junto com os erros crassos do próprio movimento, não só pode ter evitado sua morte política, como pode tê-lo ajudado a fidelizar apoio político de uma parcela da população, boa parte formada por uma parcela de pessoas das classes A e B, mais escolarizadas e simpáticas ao discurso de austeridade. E o mais importante: conseguirá o apoio deste público não apesar de não ter cedido um milímetro aos grevistas, mas sim por causa disso.

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Outro efeito político dessa crise, ainda em relação a 2018, tem que ver com a disputa para o governo do Estado. Ricardo Ferraço, pupilo político de Hartung, terá que se esforçar para desvincular sua imagem de seu mentor, e terá um páreo duríssimo pela frente. Até porque seu futuro adversário será, muito provavelmente, o ex-governador Renato Casagrande, que explorará a situação ao máximo para retornar ao Palácio Anchieta, bem como a ideia de que possui melhor “jogo de cintura” para lidar com os servidores públicos (incluso os da PM). Hoje, apostaria numa vitória dele (apesar de que não teria o meu voto) por larga margem, ainda no primeiro turno.

Para a PM, o pós-greve deverá ser um momento de grande reestruturação na corporação. Quantitativamente, precisará se preparar para operar a segurança pública com um efetivo menor, dadas as futuras expulsões que virão. Mas seu maior desafio será no aspecto qualitativo: recuperar a confiança e sua reputação perante à sociedade, bastante arranhada pelo recente estado de coisas. Só resta saber se Hartung procurará fazê-la em tempo de apresentar algo ainda em seu governo ou se isso ficará ao próximo (talvez Casagrande). Se for o primeiro, melhorará sua imagem e conseguirá mais votos para o Senado, além de ajudar Ferraço a se posicionar bem nas eleições estaduais. Caso contrário, o sucessor terá a faca e o queijo na mão para isso.

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Encerrando

Ainda falando sobre a imagem da PM – e sobre o apoio ou não ao movimento -, existem outros dois pontos muito importantes. O primeiro deles, que se trata do arranhão em sua reputação, não se trata mais de uma percepção restrita a um grupo ou um punhado de grupos. Se antes a corporação era costumeiramente mal vista pelas esquerdas (por associar a imagem desta com a do regime militar) e por alguns setores liberais/libertários (por ser o “braço opressivo do Estado”), agora ela tornou-se pouco bem vista até mesmo em setores mais conservadores, que defendiam com mais afinco a instituição por ser a última – na verdade, única – linha de defesa da lei e da ordem. Diria até que o “movimento das esposas” finalmente conseguiu, e em dez dias, algo que nem o establishment acadêmico (esmagadoramente esquerdista) nem a imprensa, com anos de esforço em demonizar a polícia, conseguiram.

Quanto ao apoio à greve, ele tende a se concentrar em dois grupos: um à esquerda, que, ainda que odeie a PM, apoia o movimento por ser uma vitrine a favor da desmilitarização desta (em agosto de 2014 eu escrevi um artigo a respeito, explicando a armadilha de tal proposta); e outro à direita, que acaba agindo com o mesmo modus operandi revolucionário da esquerda e, numa defesa cega da PM, acaba ajudando para a causa do primeiro grupo.

Enfim, poderia falar muitas outras coisas sobre o tema, postou que deu, dá e ainda dará muito pano para manga nos próximos dias, mas creio que tanto sobre a perniciosa causa da desmilitarização, o fracasso do desarmamento e a falência moral de uma sociedade que precise de força bruta policial para se manter nos trilhos, o artigo de meu colega Vitor Montenegro, assim como o vídeo do vlogueiro Leonardo Olivaria (vulgo Conde Loppeux), são suficientes.

Até a próxima.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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