Economia

Conveniências e arrogâncias

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(Fonte da imagem: Divulgação)
O terceiro trimestre de 2015 chega ao seu final e, como os anteriores, tem se mostrado espetacularmente ruim para a esquerda governista, sobretudo ao PT. De revés em revés, a realidade se mostra de uma forma dura a aqueles que, até então, negavam-na com todas as forças, seja por questão de conveniência, seja por questão de arrogância pura e simples. É claro que alguns ainda insistem em ambas as coisas para não aceitar os fatos como eles são. E é este último caso que pretendo falar neste artigo.
Um exemplo disso foi a repercussão governista da matéria – que já adianto, foi muito mal lida e mal interpretada – do Wall Street Journal sobre a tara de Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, em pintar construir ciclovias ao longo da maior metrópole do país. O trecho que levou a esquerda governista (e por que não dizer parte da não governista) ao delírio fica logo ao início da reportagem:

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“If São Paulo’s highly unpopular mayor, Fernando Haddad, were the boss of San Francisco, Berlin or some other forward-looking metropolis, he might be regarded as an urban visionary.”

Em tradução livre [acréscimos meus entre colchetes], seria:

“Se o altamente impopular prefeito de São Paulo Fernando Haddad fosse o chefe [da prefeitura] de São Francisco, Berlim ou qualquer outra metrópole que olha para o futuro [ou inovadora], ele seria considerado um visionário urbano.”

Evidentemente, muitos focaram apenas no lado “visionário urbano”, tratando-o como um mero incompreendido pela “elite branca coxinha fascista carrocrata paulistana”, não como um arrogante que resolveu fazer uma cidade inteira como “cobaia” para um experimento cujo resultado é, por ora, duvidoso. Primeiramente, o mesmo trecho da matéria do WSJ deixa bem claro: “se […] fosse o chefe de São Francisco, Berlim […]”. Afinal, ele não é prefeito de São Francisco, Berlim ou qualquer outra cidade “que olha para o futuro” ou seja considerada como “inovadora” (sabe-se lá em que sentido), e sim prefeito de São Paulo, cidade que, goste os editores da reportagem ou não, não é “inovadora” como eles gostariam que fosse.

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Disso, se extrai uma lição básica, baseada num mínimo de bom senso e obrigatória a qualquer pessoa que tenha noções de engenharia organizacional: qualquer gestor, público ou privado, deve, a priori, moldar sua maneira de gestão à cultura organizacional do local. Não se administra uma Arcelor Mittal, Vale, Petrobras ou Samarco da mesma forma que se administra uma Google, Apple ou Microsoft, ou vice-versa. Mas é claro que a “galera do bem” – que comemora apenas os altos índices de aprovação à medida mas ignora os baixos índices de utilização das novas maravilhas urbanas – acha que é a cidade que precisa de se sujeitar ao bel-prazer de seu prefeito. Ora bolas, como afirmei antes, nem em empresas privadas as coisas funcionam assim. Muito menos na administração pública, onde os habitantes, de certa forma, são colaboradores e clientes simultaneamente. Achar que é o contrário é tão somente uma demonstração de arrogância, por sinal algo que não é necessariamente inédito em nossa esquerda (farei uma pausa para entrar em outro tópico, retomo isso mais à frente).

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(Fonte da imagem: Implicante)

Outro aspecto não menos interessante desse frisson criado pela matéria do WSJ é a habilidade dos governistas em tratar os veículos de imprensa como confiáveis ou não confiáveis de acordo com a conveniência do momento. Até porque há três anos, o tema quente de discussão era sobre o suposto envolvimento da revista Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, tese essa devidamente refutada em um artigo de Flavio Morgenstern para o portal Implicante. Na imagem acima, vimos que Roberto Civita, o então presidente do Grupo Abril, era comparado a Rupert Murdoch, presidente do conglomerado de mídia News Corporation, acusado de envolvimento no escândalo de grampos telefônicos do tabloide britânico News of the World. Agora, os governistas resolvem comemorar feito hienas com uma reportagem publicada num jornal que pertence ao conglomerado de mídia de…Murdoch?! Como o mundo dá voltas, não? O próximo passo, talvez, seja torcer por um “elogio” ao PT vindo da Fox News. Vai saber. Cada um escolhe o Murdoch que lhe é conveniente…O que não é bem uma novidade se pensarmos que governistas comemoraram o fato de que Aécio foi escolhido o pior senador do Brasil em um ranking da…Veja! Já deu para perceber que coerência não é o forte de nossos amiguinhos governistas, não?

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Voltando a falar de arrogância, Haddad, por mais prepotente que seja, não parece ser um autodidata nesse quesito. Afinal, por alguns anos, teve a oportunidade de aprender com a prepotente-mor (ou seria prepotenta-mor) Dilma Rousseff em negar aquilo que parecia óbvio (no caso da economia já fiz um comentário sobre isso há pouco mais de um mês), até mesmo quando esse óbvio já era admitido por figuras “mais governistas que o governo” como Guido Mantega, por exemplo. Enfim, são os exemplos mais gritantes do que uma combinação de conveniência e arrogância pode levar uma cidade ou mesmo um país inteiro ao caos. E, por que não, são duas características recorrentemente fortes em nossa esquerda, governista ou não.

(Fonte da imagem: Instituto Liberal de São Paulo)
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(Fonte da imagem: Chicago Tribune)

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