Política

A certidão de nascimento da tirania

O liberalismo é menos grave que o libertarianismo, o qual é apenas uma radicalização de suas premissas, é facto! O comunismo enquanto pecado é pior que o liberalismo, também é verdade. Contudo, esses pecadinhos são justamente os mais danados.

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Estava por esses dias “folheando” em pdf a obra de Benjamin Wiker, “10 livros que estragaram o mundo” e é uma obra interessante mais pelos autores que faltaram do que pelos que estão presentes. Maquiavel – que Wiker citou – foi quem inaugurou o pensamento tirânico, mas foi uma pedrada leve, uma pedrada-síntese com a ideia pronta que ele anteviu antes de todos os demais. Por isso Maquiavel é bem mais genial do que parece, pois já no século XV deu a fórmula pronta do que seria a modernidade. Mas sigamos nosso caminho da tragédia, A Maquiavel sucede Hobbes que teve a “brilhante” ideia de justificar o poder do rei fora do jus divinum. O contratualismo é uma daquelas virtudes cristãs que caducaram e feio, como dizia um certo Gilbert. Wiker também o citou, mas alguns autores muito piores e mais decisivos foram subtamente sonegados.

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A saga das infelicidades tem seu momentum com Jean Bodin, não sei se ele fez de “sacanagem” o que fez (é provável que sim), mas o fato que ao misturar o poder absoluto do monarca com o conceito de soberania (de onde nasce a expressão soberano para se referir ao rei), ele deu ao Estado a essência de seu poder gigante, que se manifesta implacavelmente na modernidade, mas mais enfaticamente hoje na revolução marcuseana como diria o mui nobre professor Carlos Nougué. Quem revela esse incômodo problema em linguagem compreensível ao homem contemporâneo é ninguém mais, ninguém menos do que Jacques Maritain em “O homem e o Estado“.

O conceito de soberania refere-se, tristemente, a um tipo específico de faculdade ou capacidade ilimitada dentro de um dado território. Em outras palavras, um poder tão imenso e elevado que a nenhum outro se submete. Quando pelo quarto final do século XIV, Portugal converteu-se precocemente em monarquia absoluta, ela não era danosa como as hobbesianas e ilustradas, mas submissa ao poder do sumo pontífice e da Santa Igreja. Por que? Pois o monarca era absoluto, não soberano. O rei se curvava ao Papa, e curvando-se ao sucessor de São Pedro, curvava-se ante a lei natural e a lei divina. Dessa forma, Deus era – justa e dignamente – soberano sobre a Terra, e essa soberania era manifesta através do poder do Papa sobre a cristandade.

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Quando Bodin inaugura a era dos “soberanos terráqueos”, ele dá aos governantes “soberanos” a essência do que viria a ser chamado, já enquanto estado-nação, de “estados soberanos”. Bodin criou esse problema, e Bossuet (por quem nutro certa admiração, apesar de limitada), também não sei se conscientemente (este creio que não), deixou passar ou, de certo modo, aderiu a esse pensamento. O galicanismo viria a ser o pincipal problema teológico de Bossuet, embora seu erro de subtrair o poder de Roma sobre a França, fosse menos danoso do que a tragédia hobbesiana. A diferença entre Bossuet e Hobbes, é que o primeiro mantem o jus divinum, o segundo sonega o direito divino e inaugura o “contrato social”.

Em suma, quando Hobbes chama o Estado de “deus mortal” ele não está sendo exagerado ou poético, ao contrário, está sendo rigorosamente preciso em sua lógica, pois como diz um certo Gilbert: “O problema não é deixar de crer em Deus, o problema é que quando se deixa de crer em Deus se passa a acreditar em qualquer coisa”. E uma dessas coisas foi o Estado. Se o Papa não representa mais a soberania de Deus no mundo, se a lei natural e a lei divina se reduzem a mera defesa da propriedade, e o Estado torna-se assim, soberano, ora, torna-se então o próprio Estado, Deus. E enquanto a apoteose do Estado é garantida pelas malucas ideias dos sabichões seculares, garante-se ao mesmo a faculdade divina de definir em sua essência o que é virtude e o que é vício, o que é moral e imoral. Curiosamente, Wiker ignorou Bodin, que é o cara com o martelo na mão diante de um cadáver morto a marteladas. Uma vez que não há uma supra-lei que justifique o direito positivo, há apenas a vontade do rei, ou pior… A vontade geral.

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Chegamos então a mais um citado por Wiker, Rousseau. Rousseau simplesmente sintetizou n’O contrato social toda a esculhambação feita por trapalhões e picaretas, quando ele ressuscita os conceitos de soberania do Estado, soberania popular e soberania do indivíduo; Rousseau é o “doador de memórias” de toda essa presepada, é ele quem abre a caixa de Pandora das desgracenças, pois ele simplesmente define como sendo a vontade Geral tudo aquilo que fortelece a soberania do Estado, e essa soberania se dá pela soberania popular num democratismo direito e radical. Ou seja, o “rousseaunianismo” é um grande petitio principii, afinal quem justifica a soberania do Estado é a soberania popular, e o que justifica a soberania popular é a soberania do Estado. Tudo que o “povo” faz é lindo, e tudo que o Estado faz é lindo, porque foi o “povo” que fez. Rousseau e Hobbes apenas deram as características substanciais daquilo que um outro cara, mais tapado e genial, sintetizou num nome: razão.

Olavo está certo neste artigo, quando acena com Hegel – a quem Wiker não citou – pois a razão que Hegel mostra não é mais a razão do animal racional, não é a razão científica, é a razão das razões, a razão que ocupou o espaço da insondável razão divina, da sua lei eterna, é a razão superior, manifesta pela volunteé generale, que é a única capaz de decidir em última instância qual é a verdade. É essa Razão (com R maiúsculo) que ferra com tudo, pois ela deveria ser um monopólio da onisciente mente divina, mas foi entregue ao “soberano”, e hoje é o Estado que define o que é verdadeiro ou falso, certo ou errado, moral e imoral, é um demiurgo. E quando o liberal e o liberal-conservador demoniza o Estado, nada mais faz do que caracterizá-lo como o demiurgo que oculta e nos impede de chegar ao Deus absoconditus, que convenientemente, se idenfica com a liberdade do indivíduo entendida apenas como uma ausência de coerção. No libertarianismo essa “gnose” (para parafrasear dois genios, a saber Eric Voegelin e Orlando Fedeli) chega ao seu ápice, em que tudo é lícito desde que a soberana e divina vontade do indivíduo triunfe.  Essa é – provavelmente – a razão pela qual Wiker (um liberal-conservative) esqueceu Bodin e Hegel, seria um tiro no pé nomeá-los.

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O liberalismo conservador, que nada mais é que um approach moralista com o liberalismo clássico, que ao tentar unir Deus e o liberalismo dá com os burros n’água, já que ambos são completamente incompatíveis, como mostram Christopher Ferrara, John C. Médaille, Dom Félix Sardá y Salvagny e Perillo Gomes, não só não resolve o problema como mantém o caminho aberto para que os progressistas sigam sua sanha destruidora. Um certo Gilbert já havia falado que a função dos progressistas era destruir coisas e a dos conservadores de impedi-las de serem consertadas. O libertarianismo, assim como o comunismo, são erros grandes, dizem católicos liberais, como Pe. Sirico, como Thomas Woods, como Benjamin Wiker.

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O liberalismo é menos grave que o libertarianismo, o qual é apenas uma radicalização de suas premissas, é facto! O comunismo enquanto pecado é pior que o liberalismo, também é verdade. Contudo, esses pecadinhos são justamente os mais danados. O curioso sobre essas pedras chamadas pecados é que as pedras menores, são menores mesmo! Não se constituem em fardos tão pesados quanto as grandes pedras, são menos graves, mas as grandes são também mais fáceis de perceber no caminho e de se desviar delas, são melhores vistas a olho nu. As pequenas se escondem no sapato, nas meias, e dá para disfarçá-las tolerando o incômodo, por isso, são mais difíceis de perceber, e ás vezes elas se enterram tão fundo na pele e na carne, que se tornam difíceis de remover. Não custa lembrar, que as avalanches que tudo destroem nos Alpes e nos Andes não começam gigantes, mas com pequenos cristais de gelo.

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(Fonte da imagem: Pink News)

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  • Pedro Rocha

    “O liberalismo é menos grave que o libertarianismo, o qual é apenas uma radicalização de suas premissas, é facto!”
    O libertarianismo faz lógica correta com suas premissas (falsas), enquanto o liberalismo é um “libertarianismo com ressalvas”, pois ironica e absurdamente defende freios estatais à liberdade como códigos civis e penais. Uma vez perguntei a um liberal se ele era a favor de liberar a pedofilia e ele não me respondeu. Depois, perguntei o mesmo a um libertário e ele me xingou de várias coisas mas não me respondeu…
    Resumidamente, o liberalismo é um libertarianismo incoerente com alguns freios conservadores.

    • Em certo sentido, sim. Se tomarmos hoje como exemplo. Mas em relação ao século XV e XVI, não dá pra pensar assim, seria anacrônico. Algo tão espúrio como o libertarianismo não existia àquela altura e era impensável. Os mais liberais do século XVII ficariam horrorizados com o libertarianismo