Os choradinhos sobre o tiroteio de Virgínia

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(Fonte da imagem: Divulgação/YouTube/Zero Hora)
Como dizia um sábio rei hebreu, existem certas coisas que não são novas debaixo do sol. Uma delas é a discussão sobre o armamento, como comentado neste blog no mês de junho. Após o assassinato da repórter Alison Parker e do cinegrafista Adam Ward durante uma transmissão ao vivo de uma afiliada da rede de televisão CBS no estado americano da Virgínia, bem como do suicídio de Vester Lee Flanagan, ex-funcionário da emissora responsável pela tragédia, a Casa Branca resolveu retomar a discussão sobre o controle de armas nos EUA. Outro tema, que voltou à tona com este caso, foi a questão da discriminação, uma vez que o atirador alegou ser vítima de preconceito por ser negro e homossexual.

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Antes de eu falar sobre a retomada da questão do controle de armas, é importante lembrar que não defendo, exatamente, uma legislação análoga à americana em solo brasileiro. O fato de eu apoiar o porte de armas de fogo condicionado à checagem de antecedentes criminais, teste psicotécnico e curso preparatório de tiro já me faria por lá um intervencionista ao extremo por lá, e um “defensor de faroestes” por aqui. É importante lembrar ainda que meu posicionamento sobre o assunto é inteiramente pragmático, e que, no futuro, viabilizaria uma legislação mais liberal (não no sentido americano do termo) a respeito.

Findo o parêntese, logo após a chocante atrocidade, boa parcela da imprensa, tanto nos EUA como no Brasil, resolveu focar na facilidade ao acesso às armas no país e, claro, dando a ideia de que, se o acesso a essas fosse proibido ou duramente regulado, menos situações como a do duplo assassinato de Virgínia ocorreriam.

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(Fonte da imagem: Business Insider)

A simples observação do mapa acima, como vocês podem ver, coloca este senso comum do mainstream midiático em xeque. A Virgínia (VA) não está nem de longe entre os dados que possuem armas de fogo, e, mesmo assim, possui taxas de assassinato superiores a de estados mais armados, como Colorado (CO), Wyoming (WY), Wisconsin (WI), Montana (MT) e Dakota do Norte (ND), por exemplo. Isso reforça uma ideia um tanto óbvia: para um assassino, pouco importa a ele se a arma que ele está utilizando para o crime é legal ou não. Aliás, a escolha da arma, como muito bem exemplificada no artigo de meu colega Gabriel Matosinhos ao citar o caso do aluno que matou um professor e feriu quatro pessoas com flechadas, é mais uma questão de senso de oportunidade do que de facilidade de acesso em si. A propósito, tutoriais para fabricação de armas de fogo caseiras têm aos montes na Internet. Basta pesquisar no pai dos burros, a.k.a. Google.

Alguns podem insistir ainda, alegando que mais restrições ao porte de armas ajudaria a reduzir os mass shootings (tiroteios em massa), bem como as mortes decorrentes destes incidentes. Também não é bem assim. Os dados do Crime Prevention Research Center, devidamente compilados e colocados em termos proporcionais, mostram que em países com menos armas de fogo por habitante (os EUA estão na liderança nesse quesito), ocorrem mais mass shootings e é mais provável que você acabe morrendo em um deles nesses países do que em solo americano. Portanto: não, menos armas não significam menos mortes, não significam menos tiroteios em massa, nem mesmo menos mortes por conta disso. Enfim, bullshit, seja dos desarmamentistas de lá, como Barack Obama e Hillary Clinton, seja dos desarmamentistas daqui, como alguns Villaças da vida.

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Bandeira confederada, que foi arriada após o massacre de Charleston. (Fonte da imagem: Newsweek)

Outra questão que, tal como o (des)armamento, rende muitos choradinhos toda vez que volta à tona, é a questão da discriminação, que, segundo o atirador, foi um dos motivos para levar a cabo a tragédia. O interessante de tudo isso é que se a tragédia de Charleston, somada aos casos de negros mortos em ações policiais, foi o suficiente para incendiar os EUA com a discussão sobre o racismo no país, inclusive com a discussão sobre exibir ou não a bandeira confederada nos estados do Sul (vide imagem acima), o duplo assassinato na Virgínia tem como fundo um silêncio ensurdecedor. Afinal, foi um negro que abriu fogo contra dois ex-colegas de emissora que eram brancos. Alguém teria ideia da repercussão que seria se fosse justo o oposto? Aliás, por aqui, houve quem achasse justificável a ação bárbara de Flanagan.

(Fonte da imagem: Divulgação/Socialista de iPhone/Facebook)

Supondo que ele de fato fosse vítima de racismo e homofobia, como ele disse logo após cometer o crime, isso nem de longe serve como justificativa para algo tão bárbaro, pelo simples fato de que se trata de uma reação desproporcional (como muito bem apresentado no artigo de meu colega Ian Maldonado sobre a lei anti-infanticídio rejeitada pelo PSOL). A propósito, estamos falando de algo realmente desproporcional, e não do histerismo criado em torno deste termo toda vez que a polícia precisa reagir com balas de borracha contra black blocs com coqueteis molotov (não sei se vocês sabem, mas o potencial de letalidade deste último é bem maior), ou em relação à reação das forças de defesa de Israel a foguetes disparados a esmo pelo Hamas. Isso sem contar o celeuma em torno do “compreensível” da jornalista Rachel Sheherazade. Ah, antes que me questionem: não estou fazendo disso um negacionismo do racismo e da homofobia, que existem tanto lá como cá, só considero que nós nos civilizamos o suficiente ao ponto de considerar inaceitável o ato bárbaro do assassino. Aliás, mesmo na lex talionis (ou Lei de Talião, outro termo infelizmente banalizado nas discussões sobre violência e criminalidade) isso seria inaceitável.

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Enfim, o único fato é que se o assassinato não tivesse sido cometido com uma arma de fogo, teria sido algo chocante mas igualmente rápido para cair no esquecimento. Como de fato acontecerá, posto que Flanagan não esteve na posição “certa”. Se é que me entendem.

Confira também:

CPRC – “Comparing murder rates and gun ownership across countries
Spotniks – “Há tempos a mídia vem mentindo para você sobre os tiroteios nos EUA. E esse é o motivo.

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(Fonte da imagem: Gazeta Online)

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