EUA

Trump, direita, esquerda e a má fé de Raquel Landim

A salada conceitual da jornalista Raquel Landim poderia muito bem ser uma questão de burrice. Mas não, trata-se de má fé mesmo.

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Parece que os formadores de opinião da imprensa tradicional brasileira não aprenderam absolutamente nada com a fatídica experiência de 2016 (como falei no meu último artigo do ano passado), e insistem em “chavonizar” o debate público em assuntos nos quais têm o dom de palpitar muito e falhar na mesma proporção. Os primeiros dias de Donald Trump na presidência dos EUA têm sido uma demonstração nítida dessa persistência no erro.

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Um exemplo disso está no artigo de Raquel Landim, publicado hoje na Folha de S. Paulo. Com o título ‘Por que a direita brasileira defende Donald Trump?’, a jornalista faz uma verdadeira salada de conceitos ideológicos, que mais confunde que ajuda o leitor. Mas esse não é o principal problema. O problema é que, como vocês irão perceber em alguns trechos que irei destacar do texto, a Sra. Landim faz isso de caso pensado.

Em um fragmento, Landim diz que:

“Os conceitos de direita e esquerda estão cada vez mais fluidos, mas defender uma agenda de direita na economia é apoiar o liberalismo. Significa ser a favor da meritocracia e do livre mercado e ser contra o protecionismo e o intervencionismo.”

A explicação é até razoável, mas tem apenas um problema (muito bem apontado, por sinal, neste artigo de Arthur Rizzi): direita e esquerda não se pautam pela economia. Ou, ao menos, não necessariamente. Direita e esquerda se diferenciam, sobretudo por questões sociais, culturais e políticas. Do contrário, chegaríamos a conclusões que soariam bizarras até mesmo para aqueles que concordam com a jornalista. O trabalhista Tony Blair, neste sentido, seria mais “direitista” que o conservador Winston Churchill. Ou o democrata Bill Clinton em relação a George W. Bush.

“Os defensores de Trump hoje foram críticos ardentes da ex-presidente Dilma Rousseff pelo desastre que sua administração provocou na economia brasileira, ao tentar controlar preços, subsidiar setores e reduzir o lucro das empresas.

Nas suas primeiras semanas no cargo, a agenda de Trump é muito parecida com a de Dilma. Para cumprir suas promessas populistas, o mandatário americano vem ameaçando as empresas. […]

As promessas de Trump incluem ainda uma forte redução de carga tributária, o que realmente é uma agenda liberal, mas também falam em gastos bilionários em infraestrutura para aquecer o mercado, uma medida keynesiana.”

Para a agenda de Trump ser ao menos “parecida” com a Dilma, as propostas do presidente americano deveriam passar, entre outras coisas, pelos três itens citados pela própria jornalista. Vejamos…Ele possui alguma proposta de controle de preços? Não. Ele possui propostas de subsídio a setores? Talvez, mas, até agora, não. Ele objetiva reduzir os lucros das empresas? Não sei, mas, até agora, nada aponta nessa direção. Onde que isso é parecido, ou, mais ainda, “muito parecido”? E veja bem, não, não nego que algumas das medidas de Trump são protecionistas.

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E como a Sra. Landim admite, além das medidas keynesianas (nem todas elas, por si mesmas, são ruins), também há medidas liberais. Além da forte redução da carga tributária, há também a ideia de eliminar duas regulamentações a cada nova criada. Algo “muito parecido” com Dilma? Oh really?

Mas o pior vem logo mais:

“Do ponto de vista estritamente econômico, alguém que era contra Dilma não pode ser a favor de Trump. Meu palpite é que o americano esteja encantando um público conservador no Brasil, não pela condução da economia, mas por sua política de imigração que desrespeita os direitos humanos. Nesse caso, isso não é ser de direita, é ser racista.

Por um momento, vamos supor que a política de imigração de Trump realmente “desrespeite os direitos humanos” – como se isso, por si só, fosse ruim. Mas racista? Até onde sei, o termo “racismo” se aplica ao preconceito ou discriminação contra um indivíduo ou grupo de indivíduos em função de sua etnia. E nem mesmo a recente ordem executiva do presidente norte-americano se enquadra nessa descrição.

Eu queria acreditar, por um momento que a Sra. Landim fosse burra. Apesar de trágico, seria um mal menor. No entanto, depois dessa, tendo a acreditar que ela é uma desonesta intelectual. Depois não adianta reclamar dos comentários.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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