EUA

Por que Donald Trump? Donald Trump por quê?

Tanto à esquerda como, em parte, à direita, a ojeriza à figura de Donald Trump é muito grande. Mas, afinal, por que ele foi o escolhido? E mais: por que devemos torcer por ele?

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Daqui a poucos dias, os EUA caminham para mais uma eleição presidencial. Minto. Não se trata de “mais uma eleição presidencial”, mas sim um dia decisivo não só para a maior potência do planeta, mas para a civilização ocidental como a conhecemos. Um dia que saberemos se os rumos desta civilização continuarão no rumo em que está – e nada me leva a crer que isso seja melhor – ou se haverá, ao menos, uma chance de estes mudarem para uma direção minimamente razoável, opções estas representadas pela democrata Hillary Clinton e pelo republicano Donald Trump.

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E é sobre Trump que falarei neste artigo. Um completo outsider, o magnata e ex-apresentador do programa The Apprentice causou uma verdadeira onda de choque no cenário político norte-americano. Suas declarações, às vezes sem medida quanto as palavras, fizeram dele uma figura odiada não só à esquerda, como também a alguns setores da direita, postura essa confirmada pela edição da National Review dos ‘conservadores contra Trump’, ou pela postura de algumas figuras do meio conservador, como Glenn Beck. Isso sem falar no ‘nojinho’ que alguns medalhões do Partido Republicano têm dele.

Mas afinal, mesmo com toda essa ojeriza que grassou ambos os lados do espectro político, duas perguntas ficam no ar: por que Donald Trump foi o escolhido? E, o mais importante: por que torcer por ele na próxima terça-feira? São essas as perguntas que tentarei responder neste artigo.

Por que Donald Trump?

Se pudéssemos resumir a escolha dos republicanos por Donald Trump como candidato à Casa Branca este ano em apenas uma palavra, esta seria “cansaço”. Seja pela disputa das prévias – além do magnata, o Grand Old Party teve outros dezesseis pré-candidatos, seja pelo desenrolar da mesma. Por se tratar de uma longa história, é necessário que voltemos ao tempo. Mais precisamente, ao ano de 2015.

Logo na primavera (do Hemisfério Norte) daquele ano, vários políticos e personalidades anunciaram suas pré-candidaturas: primeiro, o senador Ted Cruz, depois Rand Paul, em seguida Marco Rubio, Ben Carson (um outsider), Carly Fiorina (outra outsider), Mike Huckabee, Jeb Bush (o queridinho do establishment)…Até que, em junho, foi a vez de Trump anunciar que também estaria brigando pela vaga.

E o cenário eleitoral, que até então parecia encaminhar-se para uma disputa entre Cruz, Rubio e Bush, este último o desejo incontrolável do establishment para ser o concorrente de Hillary Clinton em 2016, mudaria completamente. Trump, rapidamente, ganharia a preferência de uma grande parcela dos eleitores republicanos, e se posicionaria na frente de todos os demais candidatos. Seu agressivo discurso, com uma coleção de frases até mesmo destemperadas, acenderam a fúria da esquerda e dos “isentões”, seja nos EUA ou no restante do mundo, e constrangia os medalhões do partido, que faziam questão de manter distância do bilionário.

Não obstante, Trump crescia e se fortalecia cada vez mais nas pesquisas. E mesmo os debates internos não pareciam mudar essa tendência. À medida que alguns pré-candidatos já jogavam a toalha e que as prévias avançavam, Trump consolidava sua posição (a propósito, Jeb Bush foi um dos primeiros a largar a briga quando as primeiras votações começaram). Até que, em maio, só restaram três: Trump, Ted Cruz e John Kasich. Naquele momento, apenas o magnata tinha chances reais de conseguir a nomeação por maioria de delegados, só sobrando aos dois restantes tentarem forçar uma “convenção dividida” em julho, o que permitiria aos delegados do partido até mesmo escolherem um candidato que sequer disputou as prévias. Mas estes também acabariam entregando os pontos, e Trump seria, finalmente o escolhido. Contra todas as expectativas. Contra a sensação geral de ojeriza no Partido Republicano, seja por parte do establishment, seja, até mesmo por parte do Tea Party (este último apoiava, entusiasticamente, Ted Cruz).

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Mas creio que alguns devem estar se perguntando por que utilizei a expressão “cansaço” para denominar a escolha de Trump em uma única palavra. Além da supercompetição que se tornou a campanha antes das prévias, essa expressão resumiu e resume, perfeitamente, o sentimento de boa parte do eleitorado: cansaço tanto em relação ao establishment como em relação ao Tea Party. O primeiro demonstrou ser inepto ao tentar barrar a agenda esquerdista de Barack Obama e dos democratas, mesmo conseguindo a maioria na Câmara e no Senado após as eleições legislativas de 2014. Já o segundo, por mais combativo que fosse em relação ao primeiro, parecia se preocupar mais em resumir a vida real do povo americano a um mero tabuleiro de Banco Imobiliário, sendo que nos aspectos morais, quando muito, resumia-se a um conservadorismo absenteísta, nas palavras de meu colega Arthur Rizzi. Como nem o establishment e nem o Tea Party foram vistos como alternativas satisfatórias, restou procurar um candidato que cobrisse as lacunas deixadas pelos demais. E Trump acabou sendo o escolhido.

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É importante destacar que, seja aqui no Brasil, lá nos EUA, ou na maioria das democracias ocidentais, o voto não se trata de uma decisão estritamente racional, mas sim de uma decisão também emocional. E Trump, de certa forma, falou aos corações de uma parcela significativa do eleitorado republicano, algo que todos os demais falharam. E isso acabará pesando igualmente na próxima terça-feira. Mas, afinal, por que torcer pelo magnata?

Donald Trump por quê?

Finda a explicação sobre os motivos de Trump ter sido praticamente empurrado goela abaixo pelos eleitores republicanos, resta ao leitor saber os motivos de minha torcida pelo bilionário. Antes de tudo, é bom deixar claro que nem sempre – na verdade, até bem pouco tempo – eu nem de longe gostaria de ver Trump como o escolhido dos pré-candidatos republicanos à presidência dos EUA. E, honestamente, ele seria um candidato imbatível se controlasse um pouco mais a língua. Confesso, também, que imagino o quão mais bem encaminhada essa disputa estaria se, por exemplo, o Ted Cruz fosse candidato.

No entanto, voltando à nada doce vida real, buscarei apresentar algumas razões para minha torcida pelo magnata. Sobretudo, o que ele não representa. Ter clareza moral quando as opções não são as melhores também é útil para, ao menos, rejeitar a pior delas.

(Fonte da imagem: VEJA)
(Fonte da imagem: VEJA)

Primeiramente, Donald Trump não é Hillary Clinton. Parece ser um argumento bobo e sua versão inversa poderia ser igualmente válida (ain, Clinton não é Trump, hur dur), mas lembremos que o clã dos Clinton – neste caso, me refiro tanto a ela como a seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, já está no cenário político norte-americano desde o final dos anos 70. Quanto à atual candidata do Partido Democrata, ela já ocupou cargos políticos entre 2001 e 2009, quando senadora por Nova York, e entre 2009 e 2013, quando secretária de Estado (em breve tocarei em sua atuação neste cargo).

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Em tese, alguns poderiam argumentar que isso se trata de mais experiência, portanto, ela estaria melhor preparada para ser presidente. Bem…Se pensarmos principalmente em sua atuação enquanto secretária de Estado no governo de Barack Obama, isso nem se longe ajudaria a avaliá-la de forma mais favorável (muito pelo contrário). De qualquer forma, se você não quer ver reforçada a ideia de que os EUA viraram uma oligarquia (ver aqui), algo afirmado até pelo ex-presidente e democrata Jimmy Carter (ver aqui), melhor que Hillary não ganhe. E como a opção mais viável para derrotá-la é Trump, que seja ele o próximo a ir para a Casa Branca.

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Líbia, um dos frutos da política externa de Hillary Clinton. (Fonte da imagem: AFP/Getty Images)
Líbia, um dos frutos da política externa de Hillary Clinton. (Fonte da imagem: AFP/Getty Images)

Segundo, ele não é co-autor de uma das piores políticas externas em décadas para os EUA. Se o mundo, sobretudo o Ocidente, se tornou um lugar muito menos seguro e mais instável nos últimos anos, agradeça, em parte à Hillary Clinton. O desenrolar da Primavera Árabe, cujas consequências foram a escalada do terrorismo islâmico (cuja maior expressão é o ISIS) e países dilacerados econômica e politicamente por guerras civis no Oriente Médio e norte da África, caso de Síria e Líbia. Também ponhamos na conta da Sra. Clinton a crise de “refugiados” que passou a ocorrer na Europa, cuja condução por parte da União Europeia – liderada de facto por Angela Merkel – tem se mostrado tão desastrosa quanto.

Tendo em vista a questão do norte da África e do Oriente Médio, a política externa americana para essa região consistiu em “exportar democracia”, dando apoio financeiro e militar para a derrubada de regimes ditatoriais, pouco importando se estes, ao menos por razões pragmáticas, eram as únicas alternativas para que o pouco de estabilidade existente por aquelas paragens não se reduzisse a nada. Não querendo defender aqui Muammar Gaddafi, Bashar Al-Assad ou Hosni Mubarak, por exemplo, até porque foram ditadores e, em não poucas ocasiões, agia perversamente contra quem se colocava em seu caminho. Mas alguém acredita que o cenário imediatamente após isso foi, é, será ou seria melhor?

A Síria está há cinco anos em guerra civil, e boa parcela do território é controlada pelo ISIS, que elimina todos aqueles que não se convertem ao Islã (os cristãos, que não eram perseguidos por Al-Assad, passaram a ser nessas áreas). A Líbia virou uma terra de ninguém, disputada por diversas facções tribais e sem um governo reconhecido, sem falar que também possui áreas sob o domínio do ISIS, que pratica naquele país as mesmas atrocidades praticadas na Síria. O Egito, por sua vez, quase seguiu ao mesmo caminho com a eleição de Mohamed Morsi, ligado à Irmandade Muçulmana, um partido público cujo braço armado é ligado à Al-Qaeda. Por sorte (sim, sorte), ocorreu um golpe militar que impediu o pior àquele país.

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Além disso, além de falhar no papel já questionável de “polícia do planeta”, a política externa americana, com as digitais de Hillary Clinton, passou de um papel de confiança para um irritante papel de tutela de assuntos que eram internos em relação a seus aliados. O escândalo de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA, em inglês), que enfureceu (algo raro de acontecer) políticos como a Angela Merkel, é um belo exemplo disso. Temos, ainda, as pressões sobre o governo de Benjamin Netanyahu para uma postura menos agressiva na questão envolvendo israelenses e palestinos, mesmo em circunstâncias infactíveis para isso.

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E não sendo o bastante, além de tudo isso, com Clinton como secretária de Estado, as relações entre EUA e Rússia, que, se não amigáveis eram, ao menos, tranquilas, voltaram a crescer a um nível de tensão já comparável ao da Guerra Fria. Tentativas de interferir diretamente no governo de Vladimir Putin, bem como em sua esfera de influência, fizeram com que os dois países voltassem a trocar farpas, e nada indica que, com ela presidente, isso cessará. Muito pelo contrário (e você, leitor, sabe muito bem onde que quero chegar com isso…). Se quer que isso não continue, é mais motivo para torcer por uma chance a Donald Trump.

Com Hillary Clinton, isso só vai aumentar. (Fonte da imagem: Ben Garrison)
Com Hillary Clinton, isso só vai aumentar. (Fonte da imagem: Ben Garrison)

Terceiro, por fim, tem que ver com a influência sócio-político-cultural que os EUA têm para o restante do mundo: Hillary Clinton é a potencialização de tudo o que estamos vendo hoje no OcidenteE pergunto: você está, no geral, satisfeito com isso? Está satisfeito com o avanço da agenda e discurso politicamente corretos sob o governo Obama, algo que se observa de maneira assustadora no meio acadêmico? Acredita que o discurso desarmamentista, propalado por Obama e que certamente continuará a sê-lo por Clinton, teria essa ressonância (inclusive aqui no Brasil) se, no lugar, estivesse alguém disposto a sepultá-lo no país cuja Constituição garante o direito ao porte de armas (e há dados e fatos que evidenciam o embuste daqueles que querem o gun control)? Pensa que o discurso de igualar moralmente as ações policiais, que possuem o uso legítimo de força, as insufladas por grupos prototerroristas como o Black Lives Matter, teria seguidores em outros países se isso não tivesse a leniência dos democratas, hoje no poder? Imagina alguém, que chamou um quarto dos eleitores de seu país, de “deploráveis“, capaz de unir um país hoje fraturado socialmente? Se a resposta for “não” à maioria dessas perguntas, você tem mais um motivo para torcer por Donald Trump.

É claro que existem outros motivos para torcer por Trump, como, por exemplo, o fato de que ele não expôs segredos de Estado ao utilizar um servidor privado de e-mail em suas conversas do Departamento de Estado. Mas, caso não esteja satisfeito, existe este artigo do Breitbart, traduzido pelo meu colega Vitor Montenegro, sobre os diversos escândalos em que Hillary Clinton está metida.

Enfim, que na próxima terça-feira a América possa voltar a ser grande de novo. Um grande abraço e até a próxima.

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