Internacional

Entrevista: Médico romeno conta como era viver num país socialista

LinkedInTumblrRedditWhatsAppEmailGoogle GmailYahoo MailWordPress
Um homem está pulando num pé só pela Praça do Palácio em Bucareste.
– Você perdeu um sapato? – grita alguém.
– Não! – diz o homem – Eu encontrei um!
(KOTKIN; GROSS, 2013, p.117)²
Dr. Mihai (Fonte: divulgação/facebook)
Dr. Mihai (Fonte: divulgação/facebook)
Essa com certeza é uma das postagens que entrarão para a história deste blog, é muito importante que nós, indivíduos e cidadãos brasileiros, nos conscientizemos do que foi e é o socialismo/comunismo. Apesar de muitos livros serem lançados a respeito, a linguagem quase sempre acadêmica estabelece uma distância enorme entre o leitor e o fato. E para mim – assim como acredito que será para você, caro leitor – ler isto a partir de uma testemunha ocular do fenômeno em questão, será muito mais chocante que qualquer outra coisa. É um outro mundo. A literatura acadêmica estabelece quase sempre um olhar global e geral na tentativa de sistematizar o fenômeno político e histórico mais assassino do século XX, contudo, esse viés essencialista acaba tirando justamente o aspecto existencial que reside no fato, e esse aspecto só se pode aceder através do relato individual da testemunha. Com isso, uma simples entrevista te põe no lugar do “cidadão”, se é que se pode chamar assim alguém que não tem direito nenhum, ao não ser o de sobreviver calado. Uma simples entrevista mostra ao leitor o drama que é estar um dia, num lugar onde não há confiança, onde só há medo e incertezas, que ao meu ver, é o pior do comunismo… Embora claro, não negue que a escassez material seja igualmente grave e destrutiva.

Publicidade

Gostaria de agradecer ao senhor Mihai Sorin Dorobanțu, que veio da distante Romênia e que hoje vive no Brasil e se disponibilizou gentilmente, a compartilhar conosco, um pouco de sua história. E por falar em história, deixo vocês com ela:

MP – Apesar das muitas críticas que são feitas ao comunismo, sempre vemos a desculpa da esquerda que nele não havia pessoas passando fome, ou morando nas ruas como mendigos, apesar de reconhecerem algumas violações de direitos humanos. Isso é verdade? Ou essa visão do comunismo apenas como um regime totalitário onde a “igualdade” e o “bem-estar social” só podem ser mantidos pela força é falsa?

“O fato da esquerda defender com fanatismo as próprias ideias patológicas, mesmo mentindo, não é nada incomum. Na verdade, este é o estilo deles de se manterem no poder, e não somente mentindo, mas também tentando fazer com que as pessoas acreditem nas suas próprias alucinações. Para que vocês imaginem a escassez de mercadorias: Cada membro de uma família tinha direito (se estivesse disponível) a 04 (quatro) ovos de galinha por mês, 150 ml de óleo de girassol, 250 mg de salame (o clássico salame com soja), 250 g de farinha de trigo, 250 g de farinha de milho e a 200 g de açúcar. Ainda hoje consigo ver nas minhas mãos a cartela alimentar de papelão reciclado que marcava o nome do chefe da família, o numero de membros da família, e uma tabela com os meses do ano no cabeçalho em horizontal, bem como os respectivos alimentos na coluna vertical que é onde o vendedor marcava as coisas que você pegava com ele. Assim como hoje o garçom marca no restaurante quantas cervejas ou refrigerantes você tomou, era feito lá também. Em paralelo, as lojas tinham uma segunda tabela de controle, pois era comum que algumas pessoas pagassem suborno para levar mais alimentos. Não se podia comprar esses produtos em outros bairros, somente na padaria do seu bairro.

Veja também:  Suíça inaugura o túnel de São Gotardo, o maior do mundo

Para saber como era o sabor do leite, do iogurte ou mesmo da manteiga, era necessário levantar de madrugada, pelo menos ás três horas da manhã e ficar numa fila enorme. A espera durava até 5 horas quando chegava o caminhão (e isso com sorte). Algumas vezes o povo esperava à toa de 3 a 4 horas num frio de -10°C e não chegava nada. Já ocorreu de vir produtos trocados, e as pessoas os compravam e traziam mesmo não sendo exatamente o que elas queriam. (“fazer o que, esperei aqui e vou embora de mãos vazias?”).

Mas, na verdade, não havia mais nada nas lojas – nas de ferramentas, não tinham nem “pregos para pregar”; já não se achava praticamente nada, exceto alguns tecidos sujos e horrorosos que nem as ratazanas queriam. Não existiam mais brinquedos, não se achava mais cuecas, calcinhas, meias, sapatos.

Realmente, mendigos na rua não existiam, porque na verdade todo povo vivia em condição de mendicância. Não havia calefação e sempre interrompiam a energia elétrica durante um período de 4 horas por dia, sempre das 18:00-22:00. O único canal TV transmitia das 20:00 ás 22:30. Não haviam “homeless” porque depois 22:00 os bares fechavam e quem estava na rua e quando era achado pela Policia (se chamava Milícia naquela época) era autuado e se não conseguisse se identificar, era levado até a delegacia onde toda a noite lavava as privadas e fazia as tarefas de empregado. Os departamentos de polícia viviam lotados de mendigos.

Publicidade

MP- Como era o dia-a-dia de um cidadão sobre um governo tirânico? As pessoas viviam com medo?

Veja também:  Por que Donald Trump? Donald Trump por quê?

Quem vive num regime totalitário se acostuma com o medo, se adapta ao perigo assim como uma espécie ameaçada que que luta pra sobreviver. Tínhamos vários tipos de medos: medo da Securitate (Polícia Politica, tipo um KGB), medo de ir na igreja acender uma vela e ser dedurado por um amigo informador, medo de dizer uma piada que poderia ser interpretada como “denegrir o poder proletário” (com direito a ganhar uma viagem, geralmente somente de ida para a Sibéria), medo de ser transferido disciplinarmente com o emprego para algum buraco no mapa da Romênia só porque o chefe não vai com sua cara, medo de alguém fuçar o seu passado e descobrir que algum parente seu simpatizou com outro tipo de política que não o comunismo… Enfim.

MP- O historiador Nigel Cawthorne diz em sua obra “Os crimes de Stalin” que: “O socialismo no leste europeu, mostrou o que de pior havia no ser humano; […] desumanizando mais que os indivíduos, mas também corrompendo a sociedade inteira de maneira irrecuperável.” O comunismo realmente corrompeu a sociedade como um todo, desde o politburo até o cidadão mais pacato?

Às vezes por causa do medo, outras vezes por causa do caráter leviano de algumas pessoas. Enfim, as pessoas mostraram sim, durante o comunismo, a parte mais assombrada da alma. Como cidadão, não se podia confiar em ninguém – qualquer pessoa poderia ser um informador da Securitate, qualquer um poderia fazer um relatório sobre você simplesmente por causa de inveja ou rancor. Os benefícios para os informantes do sistema eram do tipo: permissão para viajar fora do pais, uma quantia extra de dinheiro no seu salário, posições hierárquicas privilegiadas, ou pelo contrário, se você por acaso tivesse algum parente preso ou prestes a ser deportado, poderia usar como moeda de troca com o regime pra soltá-lo. A dura verdade é que essas pessoas não podiam confiar integralmente nem em amigos, nem em familiares, se você desse azar, a viagem para Sibéria era garantida.

MP – Como era a presença da Securitate na “sociedade civil”? Ela era quase onipresente como se diz?

A Securitate estava infiltrada em toda a pirâmide do poder. Se você tivesse uma posição hierárquica privilegiada numa empresa (contador, chefe dos serviços, diretor) era cem porcento certo de que você estaria na lista de espionados da policia política. Qualquer palavra era pesada, interpretada, qualificada, sempre se solicitavam relatórios de atividade politica para todos os chefes de departamento, com a finalidade de assinalar a presença do que eles chamavam de “elementos desestabilizadores”. Quem entrava na mira de repente era “atropelado” por um carro cuja placa ninguém viu, morria de “infarto” com 30 anos, mesmo sendo saudável como um cavalo, ou ainda se “suicidava” jogando-se, geralmente do ultimo andar do prédio.

Veja também:  Justiça venezuelana ignora Legislativo e valida decreto emergencial de Maduro

MP – É verdade que pessoas comuns como parentes e vizinhos poderiam a qualquer momento serem utilizados como “espiões” do estado?

Assim como falei, às vezes nem precisava “utiliza-los.” Eu tinha um amigo, vizinho de infância que tinha um parente do outro lado da Cortina de Ferro. Para poder visitar esse parente, o cara escreveu livros inteiros sobre a atividade dos vizinhos, acho que nem o facebook hoje não colheu tanta informação. Outros escreviam para se vingar, enquanto muitos faziam isso somente por inveja, ou para ganhar alguma vantagem. Pessoas de baixa qualidade.

MP – Como o comunismo é visto hoje pelos seus compatriotas?

Publicidade

Eu me pergunto sempre: “Quais são as pessoas que curtem a esquerda e, em espécie, o comunismo?” Geralmente os fracassados, aqueles que nunca iriam conseguir chegar onde sonhavam sem a ajuda de uma corrente politica que precisa de acólitos. Tem gente que trabalha, estuda e ganha uma fortuna no meu pais. Esses geralmente, nem querem saber de politica, na verdade não tem tempo para isso. Assim como tem gente que, não importa em que sistema eles viveriam, sempre vão se constituir no lixo da sociedade: alcoólatras sonhadores, preguiçosos, ladrões, bandidos. Toda essa a ultima categoria é o grosso do que se chama de “turma proletária*” mas não tem nada a ver com proletariado. É, na verdade, o esgoto da sociedade, a sujeira que fede de qualquer jeito à pobreza, ao medo e a covardia. Graças a Deus, hoje o Exercito Vermelho está longe do meu pais, então essa gentalha está fraca. Mas eles esperam, lá, na sombra, assim como esperaram nos anos 40 para se apoderar do pais. Quem acha que o comunismo não existe mais, se engana, ele está presente nos botecos, nas áreas de prostituição, nas drogas, na preguiça e nas esmolas da sociedade. Ele vai ressuscitar sem dúvidas, porque essa gosma tira seu poder principalmente da indiferença e da ignorância da sociedade.

_______________________________

* Nota do Site: Marx Chamava isto de “lumpemproletariado”

² KOTKIN, Stephen; GROSS, Jan T. Sociedade Incivil: 1989 e a derrocada do comunismo. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2013.

Publicidade

Veja também

Donald Trump em campanha (Fonte: Divulgação)

Como Trump venceu – e como a mídia perdeu isso

(O texto abaixo é de autoria de Joel B. Pollak, editor-sênior do portal conservador de …