Internacional

A dança das cadeiras das eleições na Europa em 2017

Holanda, França, Alemanha e República Tcheca: o ano de 2017 promete cenários bem interessantes nas eleições destes países. Nada será o mesmo depois.

LinkedInTumblrRedditWhatsAppEmailGoogle GmailYahoo MailWordPress
Com a vitória do Brexit no Reino Unido e de Donald Trump nos EUA, o cenário eleitoral para as eleições de alguns países na Europa, ao longo de 2017, promete ser tão eletrizante quanto possível. Quatro países do Velho Continente irão às urnas ao longo deste ano, a saber: Holanda, em março; França, no final de abril (1º turno) e início de maio (2º); Alemanha, entre agosto e outubro (a data ainda está a decidir), e; República Tcheca, em outubro. Independente de quem leve a melhor nos próximos certames, o fato é que a política por aquelas paragens estará completamente diferente após as votações.

Publicidade

Neste artigo, comentarei sobre os possíveis desdobramentos das eleições nesses quatro países. Sem delongas, apresento caso a caso.

1 – Holanda: Geert Wilders ganha. Mas leva?

(Fonte da imagem: Daily Mail)
(Fonte da imagem: Daily Mail)

A terra das tulipas, dos moinhos de vento e da experiência mais bem conhecida – embora controversa – de legalização da maconha dará a largada nas urnas nos últimos dias do inverno do Hemisfério Norte, mais precisamente no dia 15 de março, definindo quem ocupará cada uma das 150 cadeiras da Câmara dos Representantes. E, para a disputa que ocorrerá em dois meses, há uma grande certeza e uma dúvida ainda maior.

A certeza é que o PVV (Partido para a Liberdade), legenda conservadora nacionalista liderada por Geert Wilders, conhecido pelos estridentes discursos críticos à imigração islâmica e ao próprio Islã, será o mais votado no pleito, conseguindo, de acordo com as últimas pesquisas, de 30 a 35 cadeiras. Já a dúvida é se Wilders conseguirá algum parceiro para formar uma eventual coalizão de governo.

Mark Rutte, primeiro-ministro do país e líder do VVD (Partido Popular para a Liberdade e Democracia), legenda liberal que governa em coalizão com os sociais-democratas do PvdA (Partido Trabalhista), já disse que as chances de uma coalizão com o PVV são “zero“. O CDA (Apelo Democrata-Cristão), de centro, ainda não declarou a respeito, mas tudo indica que seguirá o mesmo caminho do VVD. E, por tabela, idem para os principais partidos de centro-esquerda e esquerda do país.

Tudo indica, portanto, que o VVD de Rutte, que aparece como o segundo mais votado, seguirá encabeçando o governo. No entanto, diante de uma quase certa fragmentação parlamentar, ele terá de contar com, pelo menos, mais quatro partidos: CDA, PvdA, D66 (Democratas 66, de centro) e 50+ (50 Plus, também de centro e partido defensor dos interesses de pensionistas). Além disso, é provável que ele terá que contar com o apoio de legendas menores para obter os 76 assentos necessários a formar maioria.

Não é nem um pouco improvável que o pleito termine em um longo impasse. E uma hipótese é que o aparentemente indesejável PVV tende a tornar-se peça-chave para um governo estável.

2 – Quem fará a França grande de novo?

(Fonte da imagem: The Local)
(Fonte da imagem: The Local)

Logo em seguida, a França será o próximo país a ir às urnas, decidindo quem serão os que irão disputar o segundo turno, no dia 23 de abril, e quem irá para o Palácio do Eliseu, no dia 7 de maio. Com o governo do socialista François Hollande chegando a um melancólico fim, com uma economia a passos de escargot e um país amedrontado pelo terrorismo islâmico, tudo indica que a briga no segundo turno será entre François Fillon, dos Les Republicains, partido de centro-direita sucessor da UMP, de Jacques Chirac e Nicolas Sarkozy, e Marine Le Pen, da Front National, partido de direita, que adotou um discurso mais moderado desde que Marine assumiu, no lugar de seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2011.

Publicidade

Fillon, que foi o vencedor das primeiras prévias feitas pelo Les Republicains, tem um discurso bastante à direita em relação ao mainstream da legenda. Simpatizante de Margaret Thatcher e católico, ele defende uma grande redução do papel do Estado na economia, é opositor ao aborto e defende uma abordagem mais dura à imigração islâmica.

Veja também:  2015: o ano em que o Brasil se aproximou da tragédia grega

Por sua vez, Le Pen, que é eurocética, além de defender o mesmo último item de Fillon, quer um referendo que, como no Reino Unido, poderia decidir pela saída da França da União Europeia (Frexit) e, aos moldes de Trump, quer trazer de volta os empregos que a França perdeu nos últimos anos. Além disso, defende a volta da pena de morte ao país.

Por enquanto o que se delineia de acordo com os resultados das recentes pesquisas eleitorais é um primeiro turno com uma disputa apertada entre Fillon e Le Pen, com esta tendo uma ligeira vantagem, e um segundo turno com Fillon derrotando Le Pen com certa folga, embora nem de longe algo semelhante a derrota imposta por Chirac sobre Jean-Marie Le Pen em 2002. No entanto, tendo em vista o distanciamento das pesquisas em relação ao que realmente ocorre nas urnas (e o mesmo vale para o tópico anterior), tendo a enxergar um segundo turno entre os atuais postulantes ao Eliseu bem mais apertado em relação ao que está sendo esperado pela imprensa (por sinal, outra grande perdedora no ano passado).

Isso fica evidente já pela menor vantagem de Fillon sobre Marine em relação a de Chirac sobre Jean-Marie, há quinze anos. Alguns dos eleitores mais à esquerda no espectro político, sobretudo os do Partido Socialista, de Hollande, não estão animados entre escolher entre um fã de Thatcher e uma candidata que está disposta a romper totalmente com a atual política migratória do país.

Além, dois grupos de eleitores, que poderiam se enquadrar em uma “maioria silenciosa”, podem fazer com que o pêndulo balance a favor de Marine: eleitores tradicionais do Partido Socialista, ligados à classe trabalhadora e “traídos” pelo distanciamento da legenda de sua base, poderão votar nela pela ideia de que ela trará de volta os empregos que o país perdeu nos últimos anos, e eleitores tradicionais da antiga UMP (hoje Les Republicains), que, cansados de candidatos conservadores só no discurso, poderão apostar as fichas na que pode ser a primeira mulher a presidir a França.

Publicidade

Por fim, mas não menos importante, há um fator inesperado que pode mudar completamente a disputa, que seria a ascensão de Emmanuel Macron. ex-ministro da Economia no governo de Hollande, Macron, no ano passado, fundou o En Marche, um movimento de tendência centrista. Caso a disputa no segundo turno seja entre ele e Le Pen, a situação pode se tornar mais complicada para a candidata da FN.

Veja também:  O massacre de Orlando e o massacre ao (bom) jornalismo

3 – Vitória amarga para Merkel na Alemanha?

(Fonte da imagem: BBC)
(Fonte da imagem: BBC)

A virada do verão para o outono na Alemanha será marcada pelas eleições parlamentares, que serão as mais decisivas desde a reunificação do país, em 1990. E será um teste de fogo para Angela Merkel, que, desde o segundo semestre de 2015, vê sua popularidade e prestígio na União (CDU/CSU) cair devido à sua condução da crise de “refugiados” em seu país.

E é um teste de fogo em que, mesmo seu bloco partidário saia como o vencedor nas urnas (que é o mais provável), poderá ter um sabor amargo para a atual chanceler. Como disse, a União, muito provavelmente, sairá vitoriosa, mas terá menos votos em relação ao certame anterior, em 2013. Os sociais-democratas do SPD, por sua vez, também perderão votos, mas menos em relação à União, o que aumentará seu peso numa eventual tentativa de renovar a coalizão (por sinal, a única com certeza de que ultrapassaria o mínimo de cadeiras necessárias para a maioria).

Com isso, eles poderiam fazer mais e maiores exigências de governabilidade – Merkel aceitou a contragosto o salário mínimo federal para viabilizar a formação de governo em 2013 -, o que, até mesmo para alguém de personalidade tão pragmática como a chanceler, poderia ser excessivamente penoso. E, caso a “grande coalizão” União-SPD não seja possível, a maior economia na Europa poderá caminhar para um impasse político.

É importante lembrar, ainda, que na história das eleições parlamentares, maiorias só foram obtidas quando os parceiros de coalizão, somados, conquistaram pelo menos 46% dos votos. E, tendo em vista que a União tende a ter 35% dos votos nas últimas pesquisas (as feitas desde o início deste ano), apenas o SPD, como informado anteriormente, conseguiria um percentual de votos que daria, com certa folga, essa maioria.

Publicidade

Sem isso, Merkel terá que contar com a hipótese de construir uma coalizão a três, algo que só aconteceu em duas ocasiões, a saber: no primeiro gabinete de Konrad Adenauer, entre 1949 e 1953, e no terceiro gabinete de Helmut Kohl, entre 1987 e 1990 (mais precisamente, por um curto período entre outubro e dezembro daquele último ano). E os partidos mais prováveis para contato seriam os liberais do FDP e os Verdes, formando uma Jamaika-Koalition, em referência ao preto, amarelo e verde correspondente as cores da União e dos dois últimos citados, respectivamente.

E se essa tentativa também der com os burros n’água? Neste caso, teremos um grande impasse. Da mesma forma que ela não cogita uma coalizão com o Die Linke, herdeiros dos comunistas da Alemanha Oriental, o bloco partidário liderado por Merkel também não está disposto a se juntar aos conservadores nacionalistas da AfD, liderados por Frauke Petry, uma das mais ferrenhas críticas à política de refugiados adotada pela atual chanceler. Neste caso, restará duas opções: formar um governo de minoria, algo inédito e extremamente instável, ou convocar novas eleições, com desdobramentos imprevisíveis, sobretudo no caso de haver novos atentados no país.

Veja também:  David Cameron ataca política de Trump sobre a entrada de muçulmanos

De qualquer forma, mesmo no melhor cenário, em que Merkel consiga um quarto mandato e tenha a chance de repetir o feito de Helmut Kohl, ela não terá mais vida confortável. Terá de lidar não só com oposição à esquerda, mas também à direita.

4 – Na República Tcheca, Babis está mais para Trump ou Dória?

(Fonte da imagem: AFP/The Economist)
(Fonte da imagem: AFP/The Economist)

E, para fechar o quarteto eleitoral na Europa, a República Tcheca, um dos países que integra o Grupo de Visegrado (o principal bloco opositor à política migratória da União Europeia), irá às urnas em outubro deste ano. E com uma quase certeza: Andrej Babis (que não é tcheco de nascimento, mas sim eslovaco), segundo homem mais rico do país, dono de um verdadeiro império nos setores de mídia (Mafra) e agropecuário (Agrofert) e atual ministro das Finanças no governo do social-democrata Bohuslav Sobotka (CSSD), será o próximo premiê.

Seu partido, o ANO (juntando as iniciais, temos “sim”, em tcheco), uma legenda de tendência centrista e liberal (não obstante o fato de também adotar um discurso populista), lidera com folga e já há algum tempo as intenções de voto e, ao que tudo indica, continuará assim. Neste caso, a questão seria saber quem seria o parceiro ou os parceiros de coalizão para seu governo.

Publicidade

O cenário mais provável seria uma grande coalizão entre o ANO e o CSSD, as duas primeiras legendas em intenção de voto, que conquistariam uma maioria folgada de cadeiras na Câmara dos Deputados, tendo de 110 a 130 cadeiras das 200. Outra possibilidade seria uma coalizão a três, que incluísse os democratas cristãos (KDU-CSL) e uma das legendas conservadoras, seja a TOP 09, seja a ODS.

Diante de um cenário tão definido assim, a maior questão tem que ver quanto ao perfil do futuro primeiro-ministro. Devido à seu poder econômico, sua fortuna pessoal e sua atuação política, são inevitáveis as comparações entre Babis e o presidente eleito dos EUA, Donald Trump. Ou mesmo entre Babis e Silvio Berlusconi, ex-premiê italiano.

Além disso, mesmo enquanto ministro das Finanças do país, ele ainda continua tendo participações na Agrofert, uma empresa que recebe subsídios da União Europeia. Uma clara situação que dá margem a acusações de conflitos de interesse (a propósito, mesma acusação que paira sobre Trump). No entanto, ideologicamente, Babis tem mais que ver com João Dória, atual prefeito eleito de São Paulo, do que com Trump ou Berlusconi.

Dos quatro pleitos, ao que tudo indica, o tcheco parece ser o mais definido.

Encerrando

É claro que há muita água pode rolar embaixo da ponte nos próximos meses, e muitos fatores poderão influenciar, sendo que dois deles são um tanto óbvios: os desdobramentos da crise de refugiados no Velho Continente, e os primeiros movimentos do governo de Donald Trump. Mas é o que temos por hoje. Mais análises virão nos próximos artigos deste site. Até a próxima.

Publicidade

Veja também

Donald Trump em campanha (Fonte: Divulgação)

Como Trump venceu – e como a mídia perdeu isso

(O texto abaixo é de autoria de Joel B. Pollak, editor-sênior do portal conservador de …

  • Claudio Bandeira

    Chora mais, esquerdalhada.