EUA

Barack Obama estadista? Isso é sério?

Lamentar o fim da "era Obama" dizendo que agora "falta um estadista" é um desrespeito aos verdadeiros estadistas dos últimos séculos. Inclusive os dos EUA.

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Parece que, ao longo de 2016, a imprensa se comportou – e ainda se comporta – como carpideiras chorando pelos caixões que vão passando durante o funeral. Um deles, que na verdade só será “enterrado” em 20 de janeiro do próximo ano, é a “era Obama“, nome dado na matéria da Revista IstoÉ, publicada ontem, sobre os oito anos do governo do atual presidente norte-americano. O artigo, escrito pelos jornalistas Amauri Segalla e Elaine Ortiz, relatam os supostos feitos de Obama e seu significado, tanto para o seu país como para o mundo.

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Como a maioria dos artigos e até mesmo notícias – partindo da mesma mainstream media que se preocupa com fake news – a respeito, o texto dos Srs. Segalla e Ortiz seria bom se realmente estivesse alinhado aos fatos. Mas não está. Alguns dos supostos feitos de Obama são superestimados e outros são simplesmente inventados para dar ao presidente norte-americano uma imagem que jamais teve ao longo de oito anos. A fama do presidente que iria fazer da América uma Neverland pós-racial do século XXI é, tão somente…Fama. Quando observamos os fatos, a realidade é outra.

Um dos trechos do texto, logo no começo, diz o seguinte:

“Uma das medidas da decência de um político é conhecer a sua ficha pregressa. Obama passou oito anos à frente da maior potência global sem se envolver em um único episódio de corrupção, algo tão incomum quanto improvável na devassidão brasileira. “O presidente Obama não foi atingido por escândalos éticos, o que é bastante raro até para os padrões americanos”, diz Martin Cohen, analista político da Universidade de Nova York. Ele pode até ter falhado em diversos aspectos, como efetivamente falhou, mas ninguém tem o direito de acusá-lo de lesar o país ou de ter atuado em benefício próprio, característica afeita ao ambiente político. Obama, ao contrário, trabalhou para a sociedade americana. Acertou muito e errou inúmeras vezes, mas a marca pessoal que deixará é a da integridade. Por muitas razões, merece ser chamado de “estadista”, palavra em desuso pela falta de candidatos a justificá-la.

A questão é, quais seriam essas razões? Primeiramente, recorramos ao dicionário para definirmos o que é um estadista. De acordo com o Michaelis, estadista é uma “pessoa versada em negócios de alta política”, “ativista que sabe conduzir os assuntos de um governo; homem de Estado” e “político de liderança sem limitações partidárias” (atenção especial para esta última). Já este artigo publicado em 2010 pelo Sr. Mauro Chaves no Estadão mostra que algumas das características dos verdadeiros estadistas (também recomendo este, do Diário de Notícias). Segue abaixo:

“Mas os verdadeiros estadistas jamais foram sectários, prosélitos extremados de doutrinas ou ideologias, e muito menos lançaram mão de todo o seu poder de chefes de Estado e governo para interferir em favor de sucessores. Acima de tudo, estadistas sempre uniram suas nações, não as dividiram. Também os verdadeiros estadistas não são boquirrotos, falam com concisão, precisão e sem ambiguidades, em linguagem franca, mesmo que isso signifique a dolorosa promessa de “sangue, suor e lágrimas”.”

Tendo em vista isto, já podemos dizer que Obama é qualquer coisa, menos estadista. Não foram poucas as ocasiões em que ele preferiu seguir uma agenda própria em vez de uma que realmente visasse os interesses do país. Na questão das armas, por exemplo, ele sempre defendeu medidas que visassem desarmar a população, a despeito disso não ser um tema de apoio majoritário e nem mesmo o mais importante. Outra questão foi as tensões raciais envolvendo ações policiais: em vez de agir como um moderador, buscando pacificar as relações entre comunidades negras e a polícia, sua retórica serviu para incendiar a fúria dos primeiros, tendo consequências fatais, inclusive.

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Poderia citar outras questões, como o Obamacare ou o descimento da dívida pública, mas creio que estes dois já servem muito bem para desmistificar a imagem de “estadista” do atual presidente dos EUA. E se o assunto for unir em vez de dividir a nação, é aí que esse discurso cai por terra. Justamente esse sectarismo em suas ações de governo que levou o seu país a uma fratura exposta, como mais tarde o Sr. Cohen, um dos especialistas chamados a opinar na matéria da IstoÉ, admite.

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“No ambiente interno, sua maior contribuição foi a retomada da economia. Ela se deu no começo de seu mandato, e por isso muitos apagaram da memória o que o país viveu antes de ele assumir. Com a crise de 2008, bancos quebraram, a indústria automobilística patinou, o setor imobiliário ruiu, Wall Street gerou perdas bilionárias da noite para o dia. Obama não só socorreu as empresas em vias de desaparecer, com um bem-sucedido plano de resgate de US$ 20 bilhões, como restaurou a confiança em uma nação sem rumo (qualquer comparação com o Brasil não é mera coincidência).  Resultado: além de debelar a crise e fazer o PIB voltar a crescer (a recessão de 3% virou avanço de 2%), Obama reduziu o desemprego pela metade, um milagre que os americanos de bom senso não esqueceram.

Sim, de fato é inegável a retomada da economia sob o governo Obama. A pergunta que fica é: a que custo? Pergunto isso, pois o endividamento público norte-americano cresceu 30 pontos percentuais sob o governo Obama, sendo que hoje está a uma proporção aproximada de 105% do PIB do país. Sem falar nos programas de quantitative easing do Fed e a taxa básica de juros a zero durante sete anos. Importante lembrar ainda que tal recuperação não escapou de “soluços”, sobretudo quando os juros voltaram a subir. Tendo em vista a nossa situação econômica desde o ano passado e o papel da grande imprensa em minimizar às vozes mais críticas, é saudável desconfiar. Afinal, trata-se de uma retomada de verdade ou de uma nova bolha a ser empurrada para a próxima administração?

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A piada começa mesmo no próximo parágrafo:

“Ele foi um presidente sintonizado com os novos tempos, e talvez esteja aí a sua maior contribuição para a sociedade americana. Seu engajamento em causas humanitárias resultou no Nobel da Paz em 2009, prêmio que antecipou o que viria a ser o seu segundo mandato. Graças à defesa de imigrantes, pobres e oprimidos (o oposto, portanto, de tudo o que Trump prega), Obama entrará para a história como o primeiro grande líder global pró-minorias. Seus discursos marcantes contra o machismo e a homofobia surpreenderam não apenas pelo tom incisivo, mas por culminarem em ações concretas. Em junho de 2016 (sic), legalizou o casamento gay em todo país, e decidiu que o assunto deveria fazer parte de sua política externa, chegando até a nomear um diplomata para defender a causa. “Nos direitos civis, Obama promoveu uma revolução no país”, diz Randy Berry, ex-Cônsul Geral dos Estados Unidos em Amsterdã e que ocupou o cargo de Enviado Especial para Direitos Humanos do governo Obama. “Ele foi uma liderança muito forte nas questões humanas. Temo agora um retrocesso na gestão Trump.””

Pergunto: que contribuição Obama, enquanto presidente, deu para a paz? Internamente, ele dividiu o país e foi inepto – para não dizer condescendente – com as tensões raciais que citei no primeiro comentário. Externamente, menos ainda: além de precipitar a retirada das tropas do Iraque, deixando o país a mercê do Estado Islâmico, promoveu intervenções desastrosas (por meio de armamento de grupos rebeldes) durante a Primavera Árabe na Síria e na Líbia, transformando ambos os países em “terras de ninguém” e trazendo insegurança à Europa graças à crise de “refugiados” (com consequências já observadas). Quanto à suposta “defesa de imigrantes”, importante lembrar que só nos quatro primeiros anos, Obama deportou mais que o “malvadão” George W. Bush. Quanto ao casamento gay, a legalização, ocorrida em junho de 2015, foi obra da Suprema Corte, não de Obama. Na melhor das hipóteses – e bem na melhor mesmo – o legado “humanista” de Obama é bastante superestimado.

“Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, os principais legados estão na política externa. “Dentro de uma perspectiva histórica, Obama vai ser considerado um dos maiores presidentes americanos”, afirma o diplomata. Barbosa elenca os avanços dos últimos anos. “Ele restabeleceu relações com Cuba, fez o acordo nuclear com o Irã, assinou o acordo do clima de Paris e negociou o Tratado Transpacífico, que é muito importante para o interesse das empresas do país.” O especialista ainda destaca outro ponto essencial, mas que corre risco sob Trump. “Obama regulamentou a questão das armas, tornando mais difícil a compra delas.” Antes dele, nenhum presidente teve coragem de encarar uma questão sensível para os americanos.”

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Outro legado que é no mínimo, tão superestimado quanto. O restabelecimento de relações com Cuba restaurou ou deu sinais de restauração da democracia àquele país? Não. Quanto ao acordo nuclear com o Irã, pergunto: alguém se lembra do acordo nuclear EUA-Coreia do Norte em 1994, sob o governo do democrata Bill Clinton? Qual o resultado agora? A resposta já sabemos. E quanto ao Tratado Transpacífico, algo que nem sua potencial sucessora, Hillary Clinton, chegou a defender? A única coisa que – quiçá – saia intacta de uma observação minimamente crítica é o acordo climático de Paris. Quanto à questão das armas, não custa relembrar que ele tomou essas decisões restritivas à revelia dos americanos, que em sua maioria se opõem a maiores regulamentações e nem consideram tal tópico tão importante.

“No balanço entre erros e acertos, a verdade é que o casal Obama deixa a Casa Branca com um saldo positivo para os Estados Unidos e o mundo. Acredite: eles vão fazer muita falta.

Para os EUA? Talvez, mas nem tanto. Para o mundo? Não, quase nenhum. E não farão falta, muito pelo contrário.

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  • PHSA

    Galera faz um texto tentando colocar o cara lá em cima e elenca, basicamente, os principais equívocos dele. Parabéns aos envolvidos. Aparentemente, o máximo como presidente é ser cool, só isso já basta.