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A Revista Fórum, a “refutação” das críticas ao SUS e o fim da picada

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Eventualmente, em algum site, em geral aqueles da famosa “blogosfera progressista”, você pode encontrar algum artigo que “refute” as críticas ao nosso Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que ele possui um desempenho notoriamente bom em uma – ou uma parcela – de inúmeras atividades que o serviço “público, gratuito e de qualidade” cobre, mesmo que, no geral, possua uma qualidade pífia de atendimento. Mas uma matéria publicada hoje na Revista Fórum mostrou um argumento “irrefutável” contra aqueles que criticam o modelo atual de saúde pública: que aqui, diferente dos EUA, os ataques de cobras são tratados como problema de saúde pública. Segue matéria abaixo:

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“Quando li, achei que era destas “histórias da internet”. Mas saiu no insuspeito Washington Post:

O americano Todd Fassler foi mordido por uma cascavel em San Diego, Califórnia.

Não seria notícia, porque há entre sete e oito mil ataques de cobras peçonhentas nos Estados Unidos todo ano. Aqui, em 2010, o número chegava, em 2010, a 30 mil vítimas.

Mas virou, quando uma emissora local noticiou quanto isso custou a Fassler em custo de hospital e de soro antiofídico: US$ 153.161,25, ou R$ 483 mil, na cotação de ontem.

Como diz o título da reportagem do Post, “Esta  mordida de cascavel de $153,000 é tudo de errado com os serviços de saúde  (norte) americanos”

Aqui, é claro, não custaria nada, porque o Brasil trata o ofidismo, há mais de um século, como um problema de saúde pública. E construiu, com esforço, uma rede de produção e distribuição de soros – pelos quais cobraram US$ 83 mil ao americano – que dão o sentido de heroísmo ao trabalho de gente como Vital Brazil, o grande marco nesta história, com um esforço que ele próprio descreve, na virada do século 19, quando comprovou a necessidade de soros específicos para cada espécie de serpente, desbancando o conhecimento europeu que produzia soros de baixa efetividade.

“Não dispondo o Instituto de verba para a aquisição de serpentes, tive eu mesmo de assumir o encargo. Em pequeno terreno adquirido próximo a minha residência, mandei construir meu primeiro serpentário, bastante imperfeito, o qual serviu-me de orientação quando mais tarde tive que construir outros em Butantan. Nesse período trabalhei intensamente na aquisição de serpentes e na propaganda entre agricultores amigos, dos meios de captura e transporte dos ofídios, distribuído-lhes laços e caixas”.

A saúde pública no Brasil ainda bem, sempre contou com gente abnegada como ele.

Quem enche a boca para ver só os defeitos no Sistema Único de Saúde do Brasil deve tomar cuidado para não morder a língua, um dia destes.

Pode ser pior que o veneno da cascavel.

Pode ser sua própria vida.

Não pretendo entrar no mérito de discutir se cobrar 153 mil dólares para tratar uma mordida de cobra é justo, mas sim na relevância do argumento apresentado para “rebater” as críticas ao nosso sistema público de saúde. Pois bem, decidi ir à matéria original do The Washington Post sobre o assunto, e, no primeiro parágrafo, tem um dado interessante:

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“[…] the CDC estimates that roughly 7,000 to 8,000 people a year get bitten by a venomous snake in the United States. And somewhere between five and six people die from these bites each year.

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Numa tradução livre, seria: o CDC (Centro de Controle de Doenças) estima que aproximadamente de 7 mil a 8 mil pessoas são mordias por cobras venenosas nos EUA, e entre cinco e seis pessoas morrem por isso a cada ano. Sim, são de cinco a seis mortes por mordida de cobra em um país de, aproximadamente, 320 milhões de pessoas, de acordo com os dados do U.S. Census Bureau.

Fazendo as contas com os números mais elevados de ataques (e, principalmente, de mortes), dá para chegar às seguintes informações: a cada grupo de 100 mil habitantes, 2,5 pessoas são atacadas por cobras venenosas, e nesta mesma proporção, incríveis 0,002 pessoas morrem. Para se ter uma ideia, a taxa de homicídios nos EUA foi de, aproximadamente, 5 pessoas a cada 100 mil habitantes, de acordo com dados do FBI.

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Ou seja, é duas vezes mais provável que você seja assassinado do que atacado por uma cobra venenosa nos EUA. Aliás, é duas mil e quinhentas vezes mais provável que você seja assassinado por alguma pessoa do que morto por uma cobra nos EUA. Mas claro, isso justificaria que as administrações municipais, os governos estaduais e o governo federal investissem em toda uma infraestrutura “pública, gratuita e de qualidade” – mentira, é pago por meio dos impostos dos cidadãos de lá por causa de seis mortes em um país onde vivem 320 milhões de pessoas. Faz sentido.

E no Brasil? – pergunta um leitor ávido em saber onde que quero chegar com toda essa logorreia estatística. Bem, no Brasil, existem estimativas de que ocorrem entre 19 mil e 22 mil incidentes com cobras venenosas, com um número de óbitos que oscila de 85 a 100 a cada ano. Levando-se em conta de que existem, aproximadamente, 204 milhões de habitantes em nosso país, de acordo com as últimas projeções do IBGE, isso significa que, nas piores hipóteses, ocorrem em torno de 11 ataques de cobras venenosas e 0,05 mortes em um grupo de 100 mil habitantes. Números muito superiores em relação aos EUA, evidentemente. Em comparação, nossa taxa de homicídios é de aproximadamente 27 pessoas a cada 100 mil habitantes. Quase três vezes superior a taxa de ataques por cobras, e mais de quinhentas vezes superior ao número de mortos por elas, em termos proporcionais.

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“Então você quer dizer que o governo não precisaria investir no combate ao ofidismo?”, pergunta outro leitor. Não é isso – ao menos não necessariamente – que quis dizer. O que quis dizer com tudo isso é que dizer que nosso sistema público de saúde não merece tantas críticas por que, olha, ele oferece “de graça” uma estrutura de combate a um problema que nem de longe é o maior em nosso país (e menos ainda nos EUA) é algo tão lógico quanto dizer que um carro que não tenha cinto e tenha setas queimadas seja “menos ruim” porque tem DVD Player. Ou seja, a Revista Fórum tentou “refutar” uma crítica relevante com um argumento estatisticamente irrelevante.

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É o fim da picada.

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