Economia

Possível crise do Deutsche Bank pode levar Alemanha a reformar seu modelo econômico

A economia alemã desde o fim da Segunda Guerra Mundial é fundamentada nas teorias econômicas da Escola de Freiburg, onde se cunhou o termo ordoliberalismo como adjetivo para a teoria que deu origem a Economia Social de Mercado. Baseado no conceito de liberdade econômica e combate a desigualdade social, o modelo implantado pelos democratas cristãos Konrad Adenauer e Ludwig Erhard é base inabalável da economia da RFA desde 1949.

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A possibilidade de crise do Deutsche Bank, maior banco de investimentos da Europa, pode sinalizar para o governo alemão que o seu bem-sucedido modelo de “economia social de mercado” precisa de revisão. A economia alemã desde o fim da Segunda Guerra Mundial é fundamentada nas teorias econômicas da Escola de Freiburg, onde se cunhou o termo ordoliberalismo como adjetivo para a teoria que deu origem a Economia Social de Mercado. Baseado no conceito de liberdade econômica e combate a desigualdade social, o modelo implantado pelos democratas cristãos Konrad Adenauer e Ludwig Erhard é base inabalável da economia da RFA desde 1949.

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Os alemães sempre se gabaram de que seu modelo econômico seria o único a combinar gasto social elevado, com responsabilidade fiscal e liberdade de mercado, uma junção habilidosa da macroeconomia keynesiana, da microeconomia neoclássica e com uma proposta de economia política distributista, baseada na Doutrina Social da Igreja. A ideia da eficiência alemã é tamanha que os políticos alemães, tanto democratas cristãos quanto social-democratas se gabavam da economia alemã nunca ter sofrido qualquer crise econômica endógena desde sua instauração a mais de 60 anos atrás.

Porém, o que nem Walter Eucken, Alfred Muller-Armack, Wilhelm Röpke e Ludwig Erhard, os pais do modelo, esperavam, era pela existência de uma moeda única e de um bloco heterodoxo como a União Européia. A moeda única, obra dos franceses, era algo que gerava desconfiança nos primeiros proponentes do modelo, mas que com o passar do tempo acabou sendo bem vista. O aparente sucesso do bloco europeu pós-Euro levou à crença de que o modelo se adaptava bem às leis do bloco e que poderia ser exportado sem qualquer ajuste ou adaptação para qualquer país. Ledo engano. A própria moeda única e a autonomia enorme dos estados europeus, que conservando sua soberania, criaram atritos irresolvíveis com a burocracia de Bruxelas por meio da troika, do BCE, Parlamento Europeu e FMI, gerou enormes distorções, especialmente após a crise do Lehman Brothers que não tardou em contaminar a Europa, e levou ao BCE a fazer medidas malucas que levaram à cataclísmica situação do Deutsche Bank.

Se os alemães quiserem manter seu modelo de sucesso, terão de reformá-lo para melhor encaixá-lo na realidade da moeda única e da União Européia. E isso deve ser feito rápido, enquanto ainda há uma União Européia. Se o banco quebrar, não sobrará nada para ser salvo.

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Modelo de sucesso

Como demonstrei nesse artigo, a Economia Social de Mercado da Alemanha Ocidental era muito mais eficiente do que os socialistas supunham na época de sua implantação, de modo que as acusações de que a vitória da RFA sobre a RDA se devia exclusivamente a RFA ter recebido suporte dos Estados Unidos é hoje reconhecidamente falsa.

Embora de fato o Plano Marshall tenha tido influência positiva, ainda no começo já era possível ver a superioridade alemã ocidental sobre a Alemanha Oriental. Segundo o historiador Stephen Kotkin (2013, p.88), em 1956 a RDA – Alemanha Oriental – emitiu seu primeiro boletim econômico, e para surpresa de todo o Politbüro, a renda dos alemães ocidentais já era superior à dos alemães orientais e por muito! Quase duas vezes!

Ambos os lados da Guerra Fria herdaram uma economia arruinada pela guerra e pelo nazismo. O que afinal havia acontecido? Além do Plano Marshall, algo com que a RDA não pode contar, a RFA tinha um modelo mais eficiente economicamente do que sua contraparte comunista. Segundo Kotkin (2013, p.89-90) a Alemanha Ocidental estava registrando crescimentos na casa dos dois dígitos enquanto a Alemanha Oriental não conseguia acompanhar o mesmo ritmo, segundo as próprias palavras do mandatário do Partido Comunista da República Democrática Alemã:

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Em última análise, não podemos escolher contra quem gostaríamos de competir […] A expansão econômica na Alemanha Ocidental, que é visível a todo cidadão da RDA, é o principal motivo pelo qual cerca de 2 milhões de pessoas deixaram nossa república ao longo dos últimos dez anos.

Toda essa prosperidade foi o a razão que levaria em 1961 o SED (Partido Comunista) a erguer o temível Muro de Berlim, que ceifou a vida de mais de novecentas. De acordo com Courtois (2006) todas eram pessoas que tentaram o atravessar, qualquer um que tentasse estava fadado a levar um tiro. Esse acontecimento trágico aconteceria inevitavelmente, devido à superioridade da economia social de mercado em relação ao planejamento centralizado na burocracia estatal do partido. Tal fracasso econômico do socialismo é aceito até mesmo pelos sociais democratas da Alemanha Ocidental, como nos mostra o historiador da economia francês Jacques Brasseul (2010, p. 263):

As teorias marxistas perdem definitivamente a partida no Ocidente quando,em 1959, no congresso do SPD alemão, são abandonados dois pontos essenciais da doutrina a luta de classes e a coletivização dos meios de produção. Embora essa revolução reformista tenha começado com Eduard Bernstein desde o final do século XIX, só nessa altura, com Willy Brandt e Helmut Schimidt, será encetada a adoção de uma espécie de “socialismo liberal”.

O surgimento de um consenso entre democratas cristãos e sociais democratas em relação ao capitalismo, fez com que a eficiência da economia social de mercado em se portar como uma terceira via entre o laissez faire e o socialismo fosse reconhecida pelos alemães por uma palavra: wirstchaftswunder – milagre econômico.

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De acordo com o economista Antônio Delfim Netto (1990, p.90), o milagre foi de tal monta que garantiu uma média de crescimento bastante elevada, comparáveis aos da China na última década. Pois, de acordo com ele “nesse período, o crescimento real da Alemanha foi de 7,0% ao ano, o dobro das demais economias desenvolvidas. E, por isso, foi chamado de o “milagre alemão”.” Entretanto, esse consentimento só veio a existir após anos de sucesso econômico da RFA, o que não impediu uma oposição feroz dos sociais democratas nos anos iniciais.

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O colapso da RDA ocorreu num passe de mágica, subitamente e para a surpresa de todos, não por acaso sendo chamado (assim como 1991) de annus mirabilis. Contudo aquele era um colapso que, mais dia menos dia, não se poderia mais evitar. Durante décadas, o regime da RDA conseguira ocultar a situação econômica desastrosa em que se encontrava o país. A RDA: décimo maior país industrializado do mundo? Não passava de propaganda política! Em suas memórias, Helmut Kohl chama isso de uma “das dez maiores manobras de engodo do século XX.”

Alguns dados mais podem ser obtidos com Bernhard Vogel (2009, p.12) que complementa a inferioridade econômica da RDA com comparações entre a pujança industrial do ocidente em relação ao oriente.

No início, ninguém podia saber ao certo como a realidade ali realmente era tenebrosa. Hoje sabemos: em 1990, apenas dois por cento das empresas da RDA eram competitivas no mercado internacional. A produtividade da economia alemã-oriental – dependendo da estimativa – representava de 13 a 30% da economia alemã-ocidental. Os equipamentos industriais já se encontravam fortemente obsoletos: em 1988, o seu tempo de utilização alcançava em média cerca de 26 anos. Em 1989, mais de 50% dos equipamentos tinham mais de 10 anos (na Alemanha Ocidental: 30%), apenas 27% tinham menos de 5 anos na Alemanha Ocidental: 40%). Se não tivesse chegado a “virada”, não mais teria sido possível ocultar “a declaração juramentada de insolvência” do país. 

E não obstante tamanho fracasso o sucessor do SED, o Die Linke (Um PSOL piorado devido ao seu passado negro), durante a crise de 2009 elevou o coro contra a economia social de mercado proclamando a morte do capitalismo social da Alemanha, misturando uma crise externa com efeitos globais com a hipótese falaciosa de uma crise endógena, o que nunca aconteceu na Alemanha desde 1949. Mero delírio, a Alemanha sobreviveu e sobreviveu bem a crise, pois no fim das contas, foi a única que fez o dever de casa corretamente. Se hoje Angela Merkel é persona non grata por cauda da política imigratória, até ontem era líder forte do ocidente em defesa de uma economia responsável, tornando-se alvo de ódio dos socialistas gregos pro exigirem que os mesmos fizessem um ajuste fiscal forte em seu país.

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REFERÊNCIAS PARA MAIS INFORMAÇÕES A RESPEITO:

BRASSEUL, Jacques. História Econômica do Mundo: Das origens aos subprimes. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2010.

COURTOIS, Stéphane; NEUBERT, Erhart et al. Cortar o mal pela raiz! História e memória do comunismo na Europa: Os crimes da RDA. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006

KOTKIN, Stephen; GROSS, Jan T. Sociedade Incivil: 1989 e a derrocada do comunismo. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2013.

NETTO, Antônio Delfim. Moscou, Freiburg e Brasília. Rio de Janeiro: Topbooks, 1990.

VOGEL, Bernhard. Cadernos Adenauer: Economia Social de Mercado e crise dos bancos. Rio de Janeiro: Fundação Konrad Adenauer, edição número 3, 2009.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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