Economia

Notinhas econômicas sobre o Brasil

Desde o início do segundo governo Dilma, a taxa de juros foi sendo progressivamente elevada como forma de evitar a fuga de investidores e especialmente de combater a inflação. Medidas parcialmente acertadas. Digo parcialmente pois nem toda nossa inflação é de demanda, parte é inflação de custos.

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Desde o início do segundo governo Dilma, a taxa de juros foi sendo progressivamente elevada como forma de evitar a fuga de investidores e especialmente de combater a inflação. Medidas parcialmente acertadas. Digo parcialmente pois nem toda nossa inflação é de demanda, parte é inflação de custos.

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As medidas impostas pelo governo Dilma e agora intensificadas no governo interino de Michel Temer produziram uma queda geral na demanda global e na renda, o que naturalmente leva o consumo a diminuir, diminuindo com ele a inflação de demanda como bem pontuou Keynes em sua “Teoria Geral do emprego, do juro e da moeda”.

Por outro lado, a teoria keynesiana tradicional não dava conta da inflação de custos, razão pela qual nasceram duas escolas de pensamento econômico que renovaram o pensamento keynesiano, uma mais “conservadora” em diálogo com o monetarismo, a nova economia keynesiana, cujo representante que mais me agrada é o ex-ministro da economia de George W. Bush e produtor de livros-textos de grande qualidade como Nicholas Gregory Mankiw; e outra de “esquerda” em diálogo com a economia clássica (e não a neoclássica como a anterior), sobretudo com o pensamento de David Ricardo, que é o pós-keynesianismo que assume um viés neo-ricardiano com Piero Sraffa.

Como ordoliberal, sempre fui simpático ao monetarismo, apesar de acha-lo muito próximo do laissez faire como visto nos casos Thatcher e Reagan, com isso, quando passei a estudar os novos keynesianos, achei-os muito mais parecidos com minha posição do que os monetaristas de Chicago, do modo que passei a adotar alguns de seus pontos de vistas e métodos. Não entrarei no mérito do pós-keynesianismo, mas quem quiser conhece-lo melhor para fins de diferenciá-lo do primeiro, recomendo o site social democracy on 21st century, que apesar de esquerdista, é notavelmente honesto intelectualmente.

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Os novos keynesianos conseguiram mostrar com eficiência a possibilidade de correlacionar o pensamento neoclássico com a macroeconomia keynesiana, de modo que com isso puderam quebrar o paradigma estatizante do velho keynesianismo e aderir ao livre-mercado e, sobretudo, resolver o problema da inflação de custos.

Porém, retornando a Banânia, o Brasil conseguiu domar parte da inflação, mas ela ainda não caiu substancialmente. Por que? A resposta é simples, os custos continuam elevados. E quais as medidas que deverão ser tomadas para corrigir esse problema dentro da perspectiva ordoliberal/novo-keynesiana?

São elas:

  • Quebrar monopólios e oligopólios:

Alguns setores estão demasiadamente monopolizados, o que eleva o custo dos produtos, falamos especialmente do setor de carnes, que num período de crise elava o custo da cesta básica. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de carne, de modo que há bastante concorrência potencial no setor. A medida aqui passa por desaparelhar o Cade, torna-lo independente, e com isso, quebrar esses monopólios no setor. No setor de telefonia a situação é tão ruim quanto, a ANATEL deve ser reformada ou extinta, na situação atual ela deixou e promoveu uma intensa cartelização do setor. A resolução? Abrir o mercado para novos concorrentes.

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O petróleo é outro ponto complicado, o acordo que força a Petrobras a ser financiadora monopolista em determinados setores ou ter que arcar com grandes custos de produção devem ser imediatamente revistos, abrindo a exploração a maior participação privada, o que reduzirá os custos ao consumidor. O petróleo é um insumo/bem que está presente em grande números de bens e serviços, sua inelasticidade acaba abaixando ou reduzindo o custo de produção em vários setores da economia.

  • Cortar gastos:
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O país vive uma situação de dominância fiscal que se agravou nos últimos anos, o país tem gastos progressivamente maiores que sua capacidade de gerar receitas, o que gera instabilidade e empurra a inflação para cima. Dilma e Temer vêm enfrentando dificuldades para cortar gastos e a própria burocracia estatal e a actual conjuntura política do país marcada pelo fisiologismo dificultam o ajuste. Os ministérios extintos e os quatro mil cargos comissionados demitidos não representam corte substancial na máquina pública. Haverá grande dificuldade ou mesmo impossibilidade em baixar impostos se o governo não cortar gastos em si mesmo.

  • Baixar impostos:

É verdade que numa situação de ajuste fiscal que o governo vive baixar impostos é bastante complicado, dada a necessidade de gerar receita para um custo social cada vez maior, dado o número de desempregados e a necessidade de honrar com os serviços públicos mais uma crescente dívida pública. Contudo, uma vez realizado o ajuste fiscal, essa deverá ser a medida número um a ser tomada. Impostos altos aumentam os custos dos produtos.

  • Melhora da infraestrutura:
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A nossa precária e limitada infraestrutura aumenta os custos de transação e elevam os preços finais dos produtos, diminuindo não só o poder de compra da população como dificultando a nossa competitividade externa. Esse passo deverá ser intensificado após a solução do problema de insolvência fiscal. Esse elemento é muito importante, pois atua como redutor dos custos de transação e, simultaneamente, como política fiscal. Estradas, ferrovias e hidrelétricas principalmente, reduzirão o custo dos produtos finais ao consumidor, melhorarão a nossa competitividade, além de gerar emprego, renda e consumo.

  • Moeda estável e não muito apreciada:
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A política cambial não pode nem ser inativa como foi durante o governo FHC 2 e Lula (1 e metade do 2), mas também não pode se basear num intervencionismo arbitrário como foi feito durante o governo Dilma especificamente. Existem elementos de política fiscal que são úteis para manter a estabilidade do câmbio e elementos jurídicos para disciplinar a intervenção do Estado afastando o intervencionismo arbitrário ou o imobilismo.

Algumas medidas podem ser tomadas agora, como as duas primeiras e a última. Outras dependerão do ajuste fiscal para funcionar.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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