Brasil

Especial: a 30 dias da Copa, a empolgação passa longe…

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Não é Jogos Mortais, mas é a Copa do Mundo deste ano, o que é praticamente a mesma coisa. (Fonte da imagem: Deutsche Welle)
Boa noite pessoal. Hoje, a primeira postagem especial da temporada de inverno do blog (e a terceira da série especial de dois anos) será sobre um tema cada vez mais recorrente no noticiário nacional e por que não dizer, internacional: Copa do Mundo. Mais precisamente, sobre as expectativas para o evento, que como mostra a imagem de abertura deste post, estão longe de ser a “visão do paraíso” que o Brasil e o mundo tinha sete anos antes, quando o país foi escolhido para sediar o Mundial. Nos próximos tópicos vocês poderão conferir minha opinião, bem como minhas ideias sobre o que está por vir nos próximos meses.
Afinal, por que a “Copa das Copas” não empolga?

Três anos antes, muitos devem ter gargalhado achando isso “urucubaca estrangeira”. E agora? (Fonte da imagem: Lance)
Bem, parece um tanto trivial de se responder a pergunta, uma vez que desde o ano passado um dos questionamentos feitos nos protestos a partir de junho do ano passado foram quanto à forma que o governo lidou com o Mundial. Mas antes disso, vamos voltar no tempo, mais precisamente a 2007, quando o Brasil sacramentou o posto de país-sede do evento. As expectativas eram as melhores possíveis: investimento em quase totalidade privado nos estádios, estes prontos com antecedência e com um valor próximo ao orçado (ainda que um pouco acima), a infraestrutura do país teria um salto de qualidade (lembra do trem-bala?), o caos aéreo que tomou forma a partir de 2006 com o acidente do voo 1907 da Gol ficaria definitivamente no passado com a modernização dos aeroportos, a mobilidade urbana passaria por uma revolução e, por fim, teríamos um evento, digamos, barato. Ou seja, teríamos um Brasil totalmente repaginado. Era o que parecia.
A partir de 2010, logo após o Mundial realizado na África do Sul, começaram a surgir as primeiras preocupações sobre a capacidade do Brasil em conseguir realizar o “sonho encantado” descrito no parágrafo anterior. A imagem de abertura deste tópico, por exemplo, era de um artigo da ESPN criticando sobre o excesso de otimismo por parte do governo em relação aos grandes eventos (Copa e Olimpíadas), com ênfase no Rio de Janeiro, palco da final do primeiro. E, à medida que a “Copa das Copas” se aproximava, outros artigos e reportagens feitos por jornalistas de importantes meios da imprensa nacional e internacional mostravam que o cenário final do Mundial poderia ser muito diferente do imaginado – e claro, decepcionante. No meu blog, mais precisamente em uma postagem do dia 25/09/2012, vocês podem conferir uma pequena compilação de links que questionavam esse clima de oba-oba em torno da Copa. Mas tais alertas eram rechaçados pelos governistas e ufanistas em geral, que tachavam tais matérias de “pessimistas”. No caso do que era divulgado na imprensa internacional, além dessa tachação, os mais exaltados faziam questão de esfregar na cara dizendo que os países onde tais jornais publicaram essas matérias estavam “falidos” e que por isso, não tinham moral alguma para criticar a organização do evento.
O tempo passou e, exatamente hoje, faltam 30 dias para que o maior evento de futebol do mundo ocorra em nosso país. E tirando a massiva propaganda feita pelo governo federal em torno da “grande festa” que teremos a partir de junho, todo o sonho em torno do novo país que iria surgir logo após o levantar da taça no Maracanã parece ter se reduzido ao desejo de que o pesadelo em torno de um iminente fracasso em torno do Mundial não se concretize, ou pior ainda, tão somente não se concretize da forma como os “urubólogos” imagina(va)m. A revista alemã Der Spiegel (imagem de abertura da postagem), por exemplo, dedicou dez páginas para falar do clima tempestuoso que poderá cercar a Copa. Já o governo da Bélgica resolveu recomendar aos turistas levar um pouco de dinheiro para entregar ao ladrão em caso de assalto. Se lá fora o clima é de que as piores expectativas sobre o Brasil não se confirmem, aqui dentro a sensação não é muito melhor (a meu ver seria um tanto pior). Pelo menos onde moro, a tradicional pintura e decoração das ruas ainda nem começou e, salvo o burburinho em torno do álbum de figurinhas do Mundial, as pessoas falam do evento com um misto de desconfiança, indiferença e medo, quando não de revolta (no último caso isso se refletiu nos protestos que ocorreram durante a Copa das Confederações, em junho do ano passado). Considerando que somos o país-sede do evento, isso é, para dizer o mínimo, frustrante.
Os motivos para todo esse mal-estar em torno de algo que era até pouco tempo recebido com alegria são, resumidamente, a quebra das expectativas em torno da Copa (no primeiro post da série especial de dois anos do blog falei um pouco): estádios caros, construídos com dinheiro público (ou com doses cavalares de financiamento de bancos públicos, como o BNDES e a Caixa) e alguns destes inaugurados antes de sua conclusão; importantes obras de infraestrutura, sobretudo a de transportes, ficarão prontas apenas após o evento, dando lugar a “puxadinhos” para manter a aparência com os turistas “de fora”; um conjunto de obras de mobilidade urbana muito inferior ao prometido, quantitativa e qualitativamente e o Mundial mais caro da história, claro com muito dinheiro do erário (federal, estaduais e municipais). Junte isso a um país que enfrenta problemas crônicos nos serviços públicos (saúde, segurança, educação, transporte, etc.) e que desde 2011 está em uma ressaca econômica, com baixo crescimento e alta inflação e temos o cenário perfeito para o azedume geral que o Brasil vive hoje.
É preciso salientar, porém, que apesar dos motivos para os protestos da população serem justos e, parafraseando a jornalista e pensadora contemporânea Rachel Sheherazade, compreensíveis, ainda não enxergo aspectos positivos no direcionamento feito em torno das manifestações. Em síntese ao que disse várias vezes neste blog, isso se deve ao fato da proposta um tanto paradoxal de que os problemas que se devem à incompetência do poder público brasileiro sejam resolvidos com mais…Interferência do poder público. E é cada vez mais evidente que essa “solução” não faz o menor sentido. Isso sem falar em pautas que são verdadeiros cavalos de troia para o Brasil, como a Constituinte exclusiva para a reforma política (bolivarianos, são vocês?), a desmilitarização da polícia (como se as polícias civis em outros países fossem mais “pacíficas” na repressão a protestos), imposto sobre grandes fortunas (ideia que fracassou na França), entre outros abortos onde só aqui é capaz de se levar uma combinação dessas a sério. Enfim, o país saiu menor do que era antes do gigante ter acordado.
E as expectativas?

Com ou sem Copa o brasileiro continuará sem direitos. Lidem com isso. (Fonte da imagem: Deutsche Welle)
Como disse no tópico anterior, diferente do clima de euforia que o governo quer propagar, as minhas expectativas em torno do Mundial se resumem a e somente a torcer para os piores cenários para o evento não ocorram (o que inclui algumas perspectivas minhas para o evento). Pensando de forma muito “otimista”, teríamos uma Copa marcada por protestos mais pontuais, alguns deles marcados por confrontos com a polícia, mas, graças às improvisações feitas para que os turistas saiam com uma razoável impressão de nosso país, teríamos um Mundial pelo menos aceitável; Já numa hipótese “pessimista” teríamos uma Copa nublada por protestos massivos, com confrontos violentos com a polícia, e as Forças Nacional de Segurança e Armadas intervindo com mais rigor, gerando ainda mais desconfiança da capacidade do Brasil de receber o próximo grande evento (as Olimpíadas de 2016, que se tudo der certo, serão realizadas no Rio de Janeiro), bem como perigosas incertezas sobre o desempenho político e econômico do país; Por fim, uma terceira hipótese seria a indução de feriados nos dias dos jogos de forma a afastar o cidadão comum dos protestos. Tal medida traria mais tranquilidade para o governo na questão da segurança, ainda que isso signifique uma Copa “vazia” longe dos estádios. Obviamente, todos os três cenários se distanciam e muito do que se esperava há sete anos.
É óbvio que há a possibilidade de que eu possa estar errado e que, apesar do pessimismo lá e cá, possamos ter uma boa Copa, dentro de nossas limitações, claro. Mas não há evidências que me permitam ter uma expectativa tão otimista assim.
Encerrando

A Copa do Mundo e as Olimpíadas eram para ser a chance do Brasil se consolidar como um novo e poderoso player entre as potências mundiais, além de deixar importantes legados para a infraestrutura e a economia brasileira. A realidade, porém, é que os velhos vícios da má gestão e da corrupção ficaram ainda mais evidentes e o que será deixado para a sociedade, além dos elefantes brancos colocados em cidades sem tradição nas categorias de ponta do futebol, será um país que ficou apenas no papel. E, como nunca antes na história deste país, dividido.
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(Fonte da imagem: Chicago Tribune)

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