Economia

Deutsche Bank: o novo Lehman Brothers? Ou: os jogos mortais de Merkel

O Deutsche Bank, maior banco alemão e um dos maiores do mundo, pode se tornar o símbolo de uma crise econômica ainda maior que a de 2008-09. As opções que cabem à Angela Merkel são inglórias. O futuro do euro (e até mesmo da União Europeia) está em jogo.

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Quem acompanha o noticiário econômico dos últimos dias deve estar sabendo de um fato que, já há algum tempo, vem se tornando grande motivo de preocupação para a economia da Europa – esta ainda combalida com os efeitos de 2008-09 – e, por que não, do mundo: a situação do Deutsche Bank, o maior banco alemão e um dos maiores bancos do mundo. Mais precisamente, sobre sua saúde financeira. Ou pior: a falta dela.

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Em 2015, o DB já amargara um prejuízo recorde: 6,8 bilhões de euros, resultado este já penalizado por conta dos custos de reestruturação e perda de receita. De setembro passado para cá, o banco perdeu, em bolsa, 55% de seu valor. E, no último dia 15, o departamento de justiça dos EUA anunciou a aplicação de uma multa de 14 bilhões de dólares (12,4 bilhões de euros) à instituição, por ter atuado ilicitamente no comércio de títulos hipotecários que, em 2007, levaram à eclosão da crise do subprime (que seria o estopim para a crise de 2008-09). O problema é que os investidores desconfiam que o DB não tenha dinheiro em balanço para pagar essa penalidade, que, por sinal, é muito próxima ao valor de mercado do banco, de 16 bilhões de euros.

Diante disso, especula-se sobre um eventual resgate da instituição pelo governo alemão, algo que, por ora, está sendo negado por ambas as partes (ver aqui aqui). Andreas Dombret, responsável pela supervisão financeira e bancária do Bundesbank (o Banco Central alemão), foi mais enfático na negativa ao resgate, dizendo que “O tamanho não salvou os dinossauros da extinção“. Importante destacar que o DB possui um portfólio de 42 trilhões de euros em derivativos. Tal valor corresponde a 47,5 trilhões de dólares, superior ao portfólio do Lehman Brothers, banco que foi o estopim da crise econômica mundial há oito anos.

Resumindo: o Deutsche Bank é um banco “grande demais para falir”? Sim, é. Mas não só pode falir como, não pouco provavelmente, tenha que falir. E, como vocês já perceberam ao final do parágrafo anterior, uma eventual quebra do Deutsche Bank pode levar a uma crise econômica pior que a de 2008-09.

Os jogos mortais de Angela Merkel

A espera de um milagre? (Fonte da imagem: The New Yorker)
A espera de um milagre? (Fonte da imagem: The New Yorker)

Também é sabido por muitos que a situação política de Angela Merkel já está um tanto delicada por conta de sua desastrosa condução da “crise de refugiados”, tema este que abordei repetidas vezes neste ano nos meus artigos neste site (ver aqui, aqui, aqui aqui). A depender dos cenários possíveis a respeito da (in)solvência financeira do Deutsche Bank, a chanceler da Alemanha terá opções bastante inglórias pela frente, algo muito bem descrito neste artigo do Instituto Mises sobre o caso. O que pretendo escrever, portanto, é no intuito de apresentar alguns possíveis desdobramentos.

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A primeira hipótese seria a do governo alemão realizar um bail-out para o DB, como aconteceu com diversos bancos nos EUA e na Europa logo após a hecatombe de 2008. Para começo de conversa, ela seria uma violação das regras europeias para o sistema bancário, que, desde o início deste ano, não podem mais ser resgatados com dinheiro público (leia-se: do contribuinte), mas sim por meio dos depósitos deixados pelos correntistas (ou, no jargão econômico, bail-in).

Os alemães, que já ficaram pês da vida por conta do resgate oferecido à Grécia no ano passado (foi a alternativa encontrada para a não saída desta do euro), certamente ficariam ainda mais furiosos em ver o governo socorrendo um grande banco com o dinheiro de seus impostos, desta vez em seu próprio país. Não sendo o bastante os cada vez mais recorrentes distúrbios por conta da enxurrada de “refugiados”, o governo terá que lidar com recorrentes protestos caso tome essa medida. Isso sem falar que ficará evidente uma prática de duplo padrão por parte da Alemanha. O governo deste país, que foi extremamente duro no trato das crises grega e italiana, seria visto como hipócrita e, por consequência, seria impossível manter a “mão da austeridade” pesando sobre esses países, que, com razão, pediriam políticas econômicas mais generosas. Em último caso, esse duplo padrão poderia levar ao fim do euro e, até mesmo, da União Europeia.

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Fila de bancos após o bail-in ocorrido no Chipre. A Alemanha seguirá o mesmo caminho? (Fonte da imagem: AP Photo/Petros Karadjias)
Fila de bancos após o bail-in ocorrido no Chipre. A Alemanha seguirá o mesmo caminho? (Fonte da imagem: AP Photo/Petros Karadjias)

A segunda hipótese seria partir para o bail-in. Ou seja, parte do dinheiro dos correntistas simplesmente seria incorporado ao patrimônio do banco, e este seria utilizado para (tentar) quitar as dívidas da instituição. Esta é uma forma bastante pomposa de dizer àqueles que têm conta no DB que ao menos parte de seu dinheiro simplesmente será confiscado para que o banco, talvez, não quebre. O problema disso é que, ao menor rumor de que isso ocorra, pode se deflaglar uma verdadeira corrida aos bancos, com milhões de alemães desesperados para retirar seus vinténs dos caixas. Se este confisco for repentino o mesmo cenário de convulsão social descrito na primeira hipótese poderia acontecer nesta.

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Voltando à corrida aos bancos, caso esta ocorresse, não só o próprio DB, mas outros bancos na Alemanha poderiam, em questão de horas ou, no máximo, dias, ficar sem dinheiro para honrar seus compromissos. Para piorar, como estes bancos emprestam dinheiro uns aos outros, e emprestam e pegam emprestado de outros bancos na Europa, essa situação facilmente contagiaria todos os países que fazem parte da zona do euro. Tem-se o caminho livre para a próxima, última e pior das hipóteses.

A terceira hipótese, não necessariamente evitável pelas anteriores, é, simplesmente, deixar que o DB vá à falência. Pensando no risco moral gerado tanto pelo bail-out como pelo bail-in, essa seria a melhor alternativa. No entanto, as consequências econômicas desta, em curto e mesmo médio prazo, seriam imprevisivelmente devastadoras. Diversos bancos, não só na Alemanha, mas em toda a Europa, seriam arrastados para a bancarrota (os italianos, que já são motivos de preocupação desde o final do primeiro semestre, seriam os primeiros a quebrar). E o sistema financeiro global, ainda não totalmente recuperado da crise de 2008-09, seria duramente atingido por outra de proporções ainda maiores.

Seja que hipótese a ser escolhida, todas são bastante ruins para Angela Merkel. Em todas, a União (CDU-CSU) acabaria sangrando nas pesquisas eleitorais para as eleições do próximo ano, e o principal beneficiado deste cenário seriam os conservadores eurocéticos da AfD. A questão é que, nas duas primeiras hipóteses ao menos o bloco partidário da atual chanceler ainda teria chances de sair como a primeira força após as eleições do ano que vem, não obstante o fato de que Mutti, talvez, terá de passar o bastão da União a uma nova liderança para conduzir o país após a crise. Já a terceira não seria só um fim, brutal e melancólico, para a carreira política de Merkel, mas, sendo bem otimista, poderia levar a União à derrota para a AfD nas urnas, que se valeria da hecatombe para retomar o discurso anti-euro e juntá-lo ao atual discurso crítico à política de acolhimento de “refugiados” adotada pelo governo alemão. A depender de quando e de como será a crise, a grande – e, talvez, única – vencedora deste colapso será Frauke Petry. Pode, inclusive, ser a próxima chanceler da maior economia da Europa.

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A próxima chanceler da Alemanha? (Fonte da imagem: EF-Magazin)
A próxima chanceler da Alemanha? (Fonte da imagem: EF-Magazin)

Isso sem falar na situação mais pessimista, de que a própria União corre risco de entrar em colapso. Desmoralizada caso o pior cenário se confirme, Merkel terá de deixar a liderança do bloco formado por CDU e CSU. Sem, talvez, uma liderança forte para pacificar as divisões cada vez mais evidentes dentro do bloco (Horst Seehofer ou Wolfgang Schäuble seriam capazes disso?), esta última, já duramente crítica da condução da política migratória da atual chanceler, poderá optar pela ruptura com a CDU, de forma a buscar sua própria sobrevivência e disputar com a AfD no campo conservador.

Dá para esperar?

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Fato é que Merkel não pretende tomar nenhuma medida a respeito do Deutsche Bank até às eleições do ano que vemAté lá, o maior banco alemão ficará no limbo, contando com a própria sorte para sobreviver, até provavelmente, ao próximo mês de setembro. O problema é que, caso não consiga fazer um acordo com a Justiça norte-americana para reduzir o valor de sua multa até lá, o cenário da próxima crise econômica já estará pronto antes disso. Quiçá, muito antes.

Temos ainda fatores externos que podem acelerar o colapso do DB. Um deles é o Brexit, que, uma vez formalizado, exporá ainda mais as fragilidades de um bloco cuja Alemanha é o cabeça, o que trará mais instabilidade econômica à zona do euro, e, por que não, à União Europeia como um todo. Tais instabilidades podem abalar ainda mais o já combalido banco, acelerando sua bancarrota.

Outro, não menos importante, são as eleições presidenciais nos EUA, que ocorrerão em novembro. Uma eventual vitória de Donald Trump (que fique bem claro, apesar disso torço pelo republicano, em outro momento explico-me) aumentaria as especulações sobre a implementação de sua política econômica, tida pelos mercados como mais intervencionista e protecionista em relação à de Hillary Clinton. Em pouco tempo essa volatilidade atingiria os mercados europeus, o que também aumentaria as chances de falência do DB.

Enfim, seja o que for, Merkel não terá muito tempo para “jogar o jogo”. Muito menos para escolher quem deve “morrer”. Esta cena de Saw VI (Jogos Mortais VI, em português), talvez, descreva bem a situação da “mamãe” da Alemanha. Que, por sinal, está mais para “madrasta” nos últimos meses.

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(Fonte da imagem: Reprodução)

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