Cultura

Representatividade não representa ninguém

A ideia de "representatividade", recorrente no debate sobre diversas políticas públicas, chegou também aos quadrinhos. Mas, afinal, isso funciona?

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Olá, leitores do MP! Sentiram minha falta? Obviamente que não. Quem vos fala é Vinicius Littig, antigo redator do MP que se afastou para dar continuidade aos estudos em psicologia e aos projetos pessoais. Contudo, sou um ser muito crítico e político e sou sempre afetado de certa forma pelos noticiários e pelo que circula no jogo de poder (sem Foucault) do cotidiano.

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Por falar em mídia, sabiam que o Tony Stark, canonizado personagem da Marvel que dá alma ao herói Homem de Ferro, será substituído? Essa novidade não é recente: sempre acontece, por conta dos imprevistos de suas vidas pessoais. Os heróis pretendem ser retratados como qualquer outra pessoa pelos seus criadores, e isso envolve seus conflitos éticos, morais e de sua própria personalidade. Agora, uma bomba: Tony Stark será trocado por uma mulher. Outra bomba: por uma mulher negra.

Se você, que ao ler isso, só se perguntou “OK, mas e daí, o que muda na história?” assim como eu, deve ter sacado o ponto que quero abordar neste artigo. Já faz uns anos que o conceito de “representatividade” estourou nas mídias. Esse conceito abarca a ideia de que membros de grupos minoritários em nossa sociedade, quando ganham espaço nas mídias de maior alcance, trarão algo de benéfico para o grupo, seja o sentimento de felicidade gerado ao ver alguém de sua etnia ou sexualidade sendo retratado, seja pelo levantamento de questões políticas que essa atitude pode causar no cenário social. Nesse caso, leia-se minorias como qualquer grupo de indivíduos cujos padrões (estéticos, comportamentais, etc.) estão fora do padrão “imposto” pela cultura majoritária, independente da quantidade de indivíduos. Ou seja: mulheres, mesmo que sejam metade de nossa população, aproximadamente, ainda podem ser consideradas minoria se levarmos em conta a argumentação de uma sociedade “falocêntrica”, machista e patriarcal.

A grande pergunta a ser feita nesse caso é: a representatividade REALMENTE importa?

TÓPICO 1 – O CENÁRIO DA MÍDIA

Não é de hoje que heróis negros, LGBTs, mulheres ou qualuqer outro grupo minoritário são inseridos nos quadrinhos ou mesmo em outros espaços da mídia. Heróis como Pantera Negra e Tempestade, por exemplo, já habitam no mundo dos quadrinhos há décadas. Se formos pensar além, mulheres estão há muitos anos em jogos de luta. Chun-li, um ícone do jogo Street Fighter, é uma mulher asiática e minha personagem favorita nos porradeiros por sua velocidade. LGBTs, obesos e outros grupos talvez não tiveram, ao longo dos anos, grande representatividade positiva nas mídias. Falo de positiva porque geralmente os filmes retratam obesos como comilões inveterados sem qualquer outra característica marcante, por exemplo. E isso não acontece só com eles, na verdade: filmes americanos adoram demonizar o russo. Quem aqui nunca viu aquele filme de ação com o vilão de sotaque russo ou alemão?

Contudo, recentemente mais e mais protagonistas surgiram pertencentes às minorias. Algumas vezes substituindo um outro herói já famoso, como no caso supracitado, outras sendo inovações originais, como filmes onde a temática é própria para tratar do tema. Tudo isso orbita o mais novo conceito da pós-modernidade: o da representatividade.

Pessoalmente, tenho nada contra algumas dessas mudanças. Para mim, tanto faz se o herói do quadrinho será branco ou negro, gordo ou magro, hetero ou homo, contanto que ele represente bem o personagem que pretende. O que me provoca um certo asco é a força com que isso está aparecendo na mídia. Quando falo em força, não estou pensando em quantidade ou qualidade das obras produzidas e das pessoas representadas, e sim em como esse conteúdo tem sido forçado goela abaixo dos consumidores dia após dia, como se fosse obrigação de qualquer conteúdo midiático, de bonecas em lojas de brinquedo a heróis nos quadrinhos, de incluir todas as minorias o possível em seus enredos, e, claro, todos eles de forma positiva.

Quem se declara a favor desse movimento possui alguns argumentos que enumerarei aqui e, logo em seguida, farei questão de dissecar um a um. Nota: não tentarei negar, nos parágrafos posteriores, a existência do machismo, do racismo, da homofobia ou de qualquer uma dessas formas de discriminação e violência, estarei somente argumentando sobre esse conceito e sobre sua suposta importância. Também não tentarei dizer que a inserção dessas pessoas na mídia, na cultura em geral, nos esportes e etc. não seja positivo — meu descontentamento é com a força com que isso vem sendo feito, e logo saberão o porquê.

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TÓPICO 2 – O ARGUMENTO DA FELICIDADE

Quando for discutir esse assunto, seja na vida real ou seja na internet, um argumento a favor do conceito da representatividade que sempre aparecerá é o da felicidade. Geralmente acompanhado de um vídeo, como o da garota que ganhou dos pais uma boneca com uma das pernas repostas por um implante assim como a dela. Farão você olhar para o vídeo e, em seguida, perguntarão se a representatividade não importa ao se ver uma cena dessas.

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Fisiologicamente e psicologicamente falando, a felicidade é sim positiva ao nosso organismo. Não é preciso ir longe para descobrir seus benefícios: pesquisas em sites de artigos acadêmicos com os termos “psychology” e “happiness” apontam centenas de resultados. A felicidade é, também, o objetivo humano como um todo, já que é o ponto final da satisfação do desejo. Então sim, de fato, a felicidade desses indivíduos é importante. Contudo, será que a representação de um grupo minoritário realmente aponta para um nível mais elevado de felicidade entre os membros do grupo?

Além desses exemplos isolados de contexto, não há, até o momento da edição do artigo, sequer uma pesquisa científica autêntica que aponte nessa direção. Aliás, como mediríamos isso, experimentalmente? Pensei em um estudo com dois grupos, um de controle e um onde seria realizada a alteração. O grupo experimento seria composto por uma minoria específica que desde cedo seria exposta a conteúdos que representam seu grupo e, no grupo controle, indivíduos dessa mesma minoria ficariam expostos à mídia convencional. No final do experimento, todos eles deveriam pontuar sua escala de felicidade. Bem, esse estudo com certeza apresenta lacunas. A presença de um rigoroso grupo controle para a experimentação, os custos com um estudo longitudinal…Mas nos atentemos ao mais importante deles.

Apesar de possuir uma certa neurofisiologia, a felicidade é medida em escalas subjetivas. Nessas escalas, pede-se que a felicidade seja pontuada sempre de acordo com um contexto externo. Essas escalas são o suficiente para isolar o fator representatividade? E, de fato, esse conceito aplicado aumenta a percepção de felicidade e satisfação com a vida pessoal dos sujeitos?

Será que é, também, uma felicidade de caráter duradouro ou uma de rápida duração? A quais conclusões podemos chegar?

Pensemos que, na comparação dos grupos, a amostra do grupo controle deu uma felicidade relativamente maior do que a do grupo onde foi feito o experimento. O que isso explicaria? Que a representatividade deixa as pessoas mais infelizes? Pra piorar ainda mais a situação, imaginemos que, de fato, a representatividade melhore a percepção de felicidade dos sujeitos. Entretanto, isso pode ocorrer por conta do efeito de raridade, ou seja, só acontece porque é tão difícil um grupo minoritário ser representado que, quando o é, os membros desse grupo ficam felizes. Nesse caso, lutaríamos por mais representatividade ou por menos representatividade?

Enfim, o argumento da felicidade, sozinho, não é o suficiente para sustentar a tese de que as mídias deveriam ser mais inclusivas.

TÓPICO 3 – O ARGUMENTO DO DEVIR

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Para a filosofia ocidental, o sujeito que se banha em um rio nunca mais repetirá o mesmo evento, pois nem o rio será o mesmo, já que suas águas fluem, e nem o homem será o mesmo, pois ele está sempre mudando. Para a psicologia, somos seres em eterna mutação — não para um bem ou para um mal, mas em mudança constante.

Quem defende a representatividade pode defendê-la também com a argumentação de que ver um negro ou um travesti sendo médico representado incentivará mais membros desses grupos a seguirem esses exemplos positivos e os tomarem como inspiração, o que não é de todo mentira. De fato, ao indentificarmos características nossas em heróis dos livros ou personagens de filmes, os tomamos como um exemplo a ser seguido e eles podem influenciar em nosso devir para um novo ser que consideraremos como “melhor que o anterior”. Contudo, precisamos, mais uma vez, ir com cautela, já que esse argumento possui algumas falhas lógicas.

A primeira delas é que não podemos afirmar que qualquer mudança será ou não positiva. Cada um de nós possui seu próprio embasamento ético e moral, de fato, mas não existe um parâmetro “neutro” de comparação. Se eu fosse negro e me inspirasse em um médico negro muito bonzinho em uma novela ou série, seria positivo? Depende: se eu conseguir, no futuro, passar em medicina, sim, se não posso me sentir frustrado e cair em depressão. Calma: não estou dizendo que exemplos positivos tenham um lado bom e outro mau, só que novamente caímos no conceito do “subjetivo inexplorável”. Inexplorável pois ele depende de muitas variáveis que estão entrelaçadas a outras muitas variáveis e nem sempre é possível investigar a variável de interesse a isolando de um outro contexto.

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A segunda falha é que, como não podemos avaliar a mudança no sujeito como maléfica ou benéfica, só o contexto dirá, também não podemos avaliar se a inspiração será oriunda da representatividade ou não. Roubando o exemplo do parágrafo anterior, poderia me inspirar a ser médico com um personagem branco também, mesmo que eu fosse negro. O fato do personagem negro ampliar ou não essa inspiração não pode ser avaliado, ou até pode, com mais um experimento nos moldes do sugerido no tópico anterior. Em suma, no final seria inconclusivo.

Logo, o argumento do devir “positivo” dos sujeitos não sustenta a argumentação de que a representatividade, de fato, importa.

TÓPICO 4 – O ARGUMENTO DO DEBATE

Mais uma vez, precisamos concordar, em partes, com quem defende esse conceito. Quando um grupo minoritário é retratado, o debate sobre os problemas enfrentados pelo grupo aumenta, e isso pode levar a uma mudança social positiva. Por exemplo: perto das paralimpíadas a mídia costuma dar destaque aos problemas dos atletas cadeirantes com o ir e vir na cidade. Isso leva a uma mobilização, seja por parte do governo ou da sociedade civil, em resolver esses empecilhos, providenciando rampas, nivelando calçadas e por aí vai.

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Mas, como os outros dois argumentos, esse também não está imune. Primeiro que a representatividade só levantará o debate de fato quando as questões problemáticas desses grupos forem evidenciadas. No caso dos atletas paralímpicos é fácil identificar isso, mas nem sempre uma mulher na mídia levantará o debate sobre a violência contra a mulher, e nem sempre um homossexual representado levantará o debate sobre a homofobia. Tudo depende das abordagens, do esgotamento social com o tema, da quantidade de público alcançado…E isso nos leva a ainda outro problema: quem cria o “roteiro” para essa retratação dos problemas dos grupos minoritários levantará corretamente as questões ou será que não pode contribuir para o problema?

Nesse semestre de 2016/1 fiz uma matéria chamada Psicologia Social II. Estou evitando usar muitos conceitos dos teóricos aqui, mas não é isso que quero mencionar. Uma das formas de avaliação da matéria foi abordar as temáticas dos grupos questão do país e fazer uma intervenção. O meu grupo foi responsável pelos povos indígenas,e investigamos sua retratação no cenário da educação brasileira. Curiosamente, durante o semestre, diversas matérias contribuiram para a pesquisa e pude descobrir inúmeras coisas interessantes. Inclusive, sabia que o índio não gosta de ser chamado como tal e só o aceita para levar adiante suas lutas políticas? Eles preferem ser chamados pela denominação de suas tribos: tupi, guarani… Enfim, nosso grupo elaborou uma cartilha para ser usada em escolas de ensino fundamental e médio falando sobre a questão indígena. Tal foi nossa surpresa quando, na correção do primeiro modelo da cartilha, descobrimos o quanto nós mesmos erramos ao tentar, na melhor das intenções, abordar os problemas desse grupo. Concluímos que era melhor deixar que os próprios povos nativos falassem de si mesmos, dos seus costumes e suas lutas, pois ao tentarmos fazer isso recorríamos no erro que é achar que podemos falar sobre os índios o que eles são.

Não me entendam mal, também não sou fã do conceito de “lugar de fala”, mas ninguém melhor que o próprio ser que está inserido no meio para falar sobre este, não é? E não acho que tínhamos conhecimento de causa o suficiente para falar sobre isso. O que quero apontar com esse exemplo? Que nem sempre a mídia abarcará esses problemas da forma correta. Na verdade, ela pode ainda contribuir para sustentar o preconceito. Lembram-se dos índios retratados na novela “Uga-Uga”? E, mesmo que sirva somente com a finalidade de levantar o debate, isso ainda esbarra nos problemas que já retratei, como o esgotamento social com o tema, a quantidade de público alcançado e, ainda, a “conclusão” desse debate.

Finalizando, levantar o debate sobre os problemas das minorias, propondo soluções, é sempre benéfico, mas, por si só, não justifica o conceito de representatividade.

TÓPICO 5 – JÁ SOMOS REPRESENTADOS

Mas, afinal, será mesmo que as minorias estão assim tão longe de sua representação na mídia?

Eu diria que não. Na verdade, a mídia como um todo também é um meio que emula a realidade e, como tal, será constituída proporcionalmente à essa realidade. Sim, é fato que nem sempre grupos minoritários chegam a lugares de destaque, são representados em brinquedos, histórias e por aí a banda toca. Mas essas mudanças dependem muito mais dos indivíduos desses grupos em ações coletivas do que em uma cobrança vazia e forçada endereçada ao ente sociedade.

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No final das contas, aliás, esses grupos estão sim ganhando lugar na mídia. Em alguns casos, e esses eu apoio, de uma maneira positiva: os empresários, artistas e demais criadores de conteúdo percebem esse mercado crescente latente e, para ganhar em cima dele, lançam séries, livros, brinquedos e toda sorte de itens direcionados a essas minorias. E a estratégia funciona lindamente: séries como Sense8 provam que conteúdo para homossexuais vende, e vende bem. Mas por que toda essa minha implicância, então? O que quero dizer com isso tudo até aqui? Que a representatividade acontecerá de forma efetiva se for realizada gradualmente e naturalmente. Todo movimento que quer impor uma mudança na base da força, do grito, recairá em inúmeros problemas.

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Primeiro, retirará as liberdades individuais das pessoas que criam conteúdo. Querem mais pessoas obesas como heróis de videogame? Estudem programação, criem os seus e tentem vendê-los no mercado. Querem mais obras de ficção com protagonistas homossexuais? Escrevam esses livros, mostrem sua criatividade. Ao impor essa mudança, contudo, estarão retirando a liberdade de escritores e programadores em criarem seus próprios conteúdos, e tudo isso em nome de um politicamente correto que, como espero ter demonstrado, se sustenta em uma pseudo-ciência tão oca quanto aqueles que a defendem. Segundo, criarão um cenário de julgamento moral no qual gostar de obras onde minorias não estejam representadas será uma afronta. Criador de conteúdo sem levar em conta as minorias então? Passível de crime.

Se pararmos para analisar, o nível máximo de representatividade é o indivíduo, já que os grupos,mesmo os minoritários, podem se subdivididir infinitamente. No diagrama de Venn da sociedade, o sujeito é só mais um ponto que está sendo “disputado” por diversos outros círculos, que representam grupos. Família, religião, time de futebol. E, por bem ou por mal, é impossível que a mídia represente a todos nós de forma igual, com todas as nossas especificidades e com o nosso eterno devir. O conceito de representatividade, no final, faz mais bem do que mal à sociedade, levando o que acabei de dizer em consideração, pois provoca uma segregação entre os grupos ainda maior.

Se querem ver o exemplo prático disso, pensem no feminismo nas duas últimas décadas. O movimento majoritário sempre se intitulou feminismo e sempre lutou pelo grupo minoritário das mulheres, como assim dizem. Contudo, com a chegada da ideologia de gênero, a qual o grupo abraçou, surgiram alguns rachas. Algumas feministas acham que mulheres trans não podem ser consideradas mulheres pois foram socializadas enquanto homens, outras acham que podem, desde que adotem o visual feminino, e ainda há aquelas que dizem que podem, independente do visual. Ou, ainda, podem pensar nos grupos de movimento feminista negro. Todos esses grupos buscam, dentro do feminismo, sua representatividade, que acaba vindo de forma desigual. Lembram-se do caso do homem que invadiu um evento feminista se declarando mulher e pegou umas gurias lá dentro? Nada pode ilustrar tão magistralmente meu exemplo.

Logo, meu problema não é com a mulher negra que substituirá Tony Stark. Meu problema é com essa frequente imposição de inclusão de minorias como uma obrigação, só para fazerem papel de presença. Meu problema é em saber que essas mudanças tem sido feitas não para uma melhoria do conteúdo que chega até nós, reles mortais, mas para atender a uma demanda incoerente de uma argumentação patética e sem embasamento que deseja remodelar a sociedade nas bases de uma pseudo-ciência. E, mais do que isso, meu maior problema é em me sentir péssimo toda vez que uma minoria é incluída em alguma parte da mídia, pois não consigo mais distinguir essa pressão social incoerente dos méritos próprios da inclusão.

Enfim, obrigado por terem lido até aqui. O texto foi longo, eu sei. Quem sabe não nos vemos numa próxima, não é mesmo? Abraços e até mais ver!

Por Vinicius Littig

P.S.: Confira, no portal POP Liberal: “Leitores abandonam Marvel Comics depois da invasão dos justiceiros sociais. Quem pode culpá-los?

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