Cultura

O mau gosto da elite brasileira: mais uma vez Dalrymple tem razão

R$ 8 milhões gastos em festa de casamento com show de Anitta, ex-governador corrupto comprando quadro de Romero Britto, festinha infantil com show de MC Gui...O mau gosto da elite brasileira é patente. E a "cultura de subclasse" descrita por Theodore Dalrymple, também.

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Quando se ouve falar do termo “elite” – e suas variantes – o que vem à cabeça de muitos é a a ideia de uma classe refinada e seleta em todos os quesitos possíveis: poder aquisitivo, educação, cultura, etc. Muitos aspiram à condição de elite em algum momento da vida, ou, pelo menos, a ter um pouquinho do que as classes mais abastadas tem. No entanto, nem sempre essa correlação entre dinheiro e bom gosto é verdadeira. E alguns casos sobre o que rola no infinitésimo mais rico de nossa sociedade apenas ajudam a reforçar isso.

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Em julho deste ano, um advogado de Goiânia gastou R$ 8 milhões em uma festa de casamento. Até aí, nada de mais, se ele pode, por que não usar a sua fortuna para proporcionar o melhor momento de sua vida para si mesmo, sua esposa e seus convidados. Só que entre outras coisas, a festa vai ter um show de…Anitta. Sim, o momento mais marcante da vida dele, de sua esposa e de seus convidados sera regado com músicas que você ouve em sua academia ou nas idas e vindas diuturnas ao supermercado ou shopping. Claro, segundo o senhor, de 62 anos, ele não economizou “em qualidade”. E que bom que não, se é que me entendem…

Passemos ao próximo exemplo: Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro (e um dos responsáveis pelo quadro falimentar de seu estado), preso preventivamente pela Polícia Federal na operação Calicute (um desdobramento da interminável Lava Jato), teve diversas obras de arte e objetos apreendidos. Entre eles, um retrato dele e de sua esposa, pintados pelo artista Romero Britto. Não basta ser suspeito em lavar dinheiro proveniente da corrupção. É preciso fazer isso para, entre outras coisas, adquirir um quadro cuja pintura poderia, com a mesma técnica, ser feita a um preço muito menor por qualquer outro pintor. Convenhamos, o estilo de Romero Britto é facilmente copiável. Lembro de uma colega de trabalho falar comigo que em uma viagem que ela fez ao Ceará, acabou encontrando muitas pinturas “romerobrittizadas”. Isso sem falar da quase onipresença das obras dele em embalagens de sabão em pó, chinelos, cadernos e toda sorte de objetos. Como um Fiat Uno elevado à categoria de um Maserati.

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Em seguida, vamos a outro exemplo: em uma dessas festinhas infantis para essa “elite da elite”, uma advogada organizou uma festa para seus três filhos (um de 10 anos, outro de 5 anos e outro de apenas 1 ano), e ela gastou 20 mil reais para um “pocket show” (uma apresentação com meia dúzia de músicas) do…MC Gui. Sim, estamos falando de alguém que pagou bem caro em uma atração que você pode muito bem ouvir nesses bailes que acontecem clandestinamente em bairros periféricos, geralmente regados a muita bebida, sexo e drogas. Isso sem falar nas letras que, mesmo não sendo as mais pesadas em se tratando de funk, também não são as mais inocentes para se tocar em uma festinha de criança.

Volta e meia, escutamos diversas críticas de algumas pessoas sobre a falta de cultura e erudição por parte do povo brasileiro em geral. Mas, tendo em vista os exemplos acima, convenhamos: se nossas elites não parecem prezar tanto pelo que há de melhor nos momentos mais importantes de sua vida, por que esperaríamos algo de diferente por parte do “povão”? Diria que beira o milagre acreditar nessa possibilidade.

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Na introdução do livro A Vida na Sarjeta, Theodore Dalrymple aborda justamente essa questão:

” […] Os gostos, a cultura e os costumes da subclasse estão se infiltrando na escala social com surpreendente rapidez. O visual “heroin chic” é uma manifestação disso, embora alguém que saiba realmente quais são os efeitos da heroína não possa achar alguma coisa chique na droga e nos efeitos. Quando um membro da família real britânica revelou que adotou uma das modas dos bairros pobres e que colocou um piercing no umbigo, ninguém ficou surpreso. No que diz respeito à moda e ao vestuário, aos adornos corporais e da música, é a subclasse quem, de modo crescente, imprime o ritmo. Nunca antes se aspirou alcançar níveis culturais tão baixos.” (pp. 22-23)

Apesar dessa descrição feita pelo psiquiatra e escritor britânico se aplicar à realidade da terra da rainha, ela poderia muito bem se aplicar, com poucas adaptações, ao nosso país. Se nossas elites – inclusive midiáticas, vide os “Esquentas” da vida – exaltam padrões culturais e artísticos tão medíocres, por que as classes mais pobres, tendo em vista ainda que ainda aspiram, ao menos, uma casca do estilo de vida das elites, sentiriam-se desejadas a aspirar algo melhor? O problema é que essa glamourização da pobreza não se limita aos aspectos citados, mas também aos aspectos sociais. E, longe de dar mais dignidade a esses grupos, apenas os prendem em uma retórica cômoda, dificultando ainda mais a vida daqueles que desejam romper tal ciclo vicioso.

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Sei que muitos querem restaurar a “alta cultura” no Brasil. Mas isso não será possível se as elites não se aperceberem.

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(Fonte da imagem: Divulgação)

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