Cultura

Venhamos e convenhamos: Hollywood não é essa Coca-Cola toda

A encenação de Meryl Streep no Globo de Ouro, além das mentiras, é um show de elitismo e arrogância sobre o papel de Hollywood no entretenimento.

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Deu o que falar o discurso de Meryl Streep, atriz norte-americana que foi protagonista em filmes como O Diabo veste Prada, na cerimônia de premiação do Globo de Ouro, ocorrida no último domingo. Ela, que foi eleitora e apoiadora da candidata democrata Hillary Clinton nas últimas eleições presidenciais, fez várias críticas ao republicano Donald Trump, que assumirá a Casa Branca em dez dias.

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Além de criticar o suposto episódio em que Trump zombou de um jornalista com deficiência física, Streep resolveu atacar a suposta xenofobia do presidente eleito, tecendo loas ao fato de que boa parte da classe artística de Hollywood é formada por imigrantes (lembrando que Trump é contra, tão somente, à imigração ilegal). Em um dos momentos de sua “performance”, a atriz dá a seguinte declaração:

“Hollywood está repleta de estrangeiros e excluídos. E se nós expulsarmos todos eles, vocês não terão nada mais a assistir exceto por futebol americano e artes marciais mistas, que não são artes.

Não é preciso dizer que tal fala de Streep soou, para alguns – incluso este que vos escreve – um tanto elitista e arrogante. Atletas, dirigentes e fãs de MMA rebateram a crítica. Demian Maia, disse que ela “se esqueceu que o MMA também foi levado aos EUA por imigrantes”, e que Rorion Gracie, pioneiro do esporte, também era um. Já Luciana Andrade, uma octagon girl, disse estar “decepcionada” com a crítica feita pela atriz aos dois esportes citados.

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Mas não foi só do meio das lutas que partiram as críticas, Piers Morgan, ex-apresentador de programas de entrevista na CNN e um esquerdista de carteirinha – notório apoiador de Barack Obama, diga-se -, foi ainda mais duro. Em uma coluna publicada no Daily Mail, Morgan classificou o discurso de Streep como “a pior performance de sua carreira”, disse que a alegada vilipendiação de Hollywood, estrangeiros e imprensa era ridícula, escancarou a mentira e a hipocrisia da atriz em relação à zombaria de Trump, citando inclusive o fato de ela, em 2003, ter ovacionado, de pé, o cineasta Roman Polanski, acusado de abusar sexualmente uma garota de 13 anos. Quanto à frase transcrita, Morgan disse “não ter ouvido algo tão elitista e esnobe desde que Hillary Clinton chamou os apoiadores de ‘um bando de deploráveis’.”

Ok, mas algum leitor deste site deve estar se perguntando: “onde você quer chegar, Marcos?”.

A questão é muito simples e um tanto direta: pior que ser elitista e arrogante é ser elitista e arrogante dando ar de superioridade a algo que não necessariamente merece isso. Em outras palavras: não, não acho que os filmes enlatados de Hollywood ofereçam mais ou melhor entretenimento que uma partida de futebol americano ou um card de lutas de MMA. Ousaria dizer que nem mesmo em qualidade artística, na maioria dos casos.

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E para que fique bem entendido, diferentemente de Trump, eu não considero Meryl Streep uma atriz superestimada. Ela é acima da média naquilo que faz. Agora, em relação à afirmação dela, a qualidade do entretenimento (e quiçá, da arte) proporcionado por Hollywood é, sim, superestimada.

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Para efeitos de comparação, tomemos um exemplo mais palpável: hambúrguer. Tanto este que vos escreve como muitos que me leem já comeram alguns em sua vida, seja num “podrão” da esquina, seja numa hamburgueria gourmet, seja numa lanchonete fast-food. E, neste último caso, há um punhado de lanchonetes que oferecem este lanche a preços variados, com combinações variadas, mas com rapidez, quantidade invariáveis, além de um pouquinho de embromação quanto ao tamanho.

E, em se tratando de fast-food, há quem considere o Bob’s melhor, há quem considere o McDonald’s melhor, há quem considere o Burger King melhor e por aí vai. Além disso, é inegável que, vez ou outra, dá vontade de botar um dos lanches deles goela abaixo e que não deixa de ser gostoso. Agora, daí para dizer que elas fazem os melhores hambúrgueres, é algo bem mais complicado. Por exemplo, jamais imagino uma dessas três redes de lanchonetes citadas oferecendo um lanche com um hambúrguer de fraldinha de 100g feito de maneira quase artesanal.

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Analogamente, os filmes de Hollywood, assim como as competições esportivas, em sua maioria, são o fast-food do entretenimento: são uma dose rápida, fácil e de ótimo custo-benefício. Mas nem por isso são a última bolacha do pacote. E vice-versa.

Isso significa que eu não deva gostar de tais produções, nem mesmo de uma partida da NFL ou de uma luta de MMA? Claro que não. Da mesma forma que gosto, de vez em quando, de ir ao shopping e comer um fast-food na praça de alimentação, também não vejo problema em passar o tempo assistindo a alguma das atrações citadas na TV, nem mesmo em quem assiste.

Enfim, seja o que for, Meryl Streep pode ser – e creio que é – ótima como atriz. E faz bem ela se resumir a esse papel.

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(Fonte da imagem: Divulgação)

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