Cultura

Dos católicos liberais

Só denota um sinal muito ruim para o país, de que nosso catolicismo apenas trocou de religião política, abandonando os sonhos socialistas da Teologia da Libertação pela utopia libertária e, no final das contas, o nosso laicato continua a preferir ouvir e ler a palavra de ideólogos muito pouco católicos, ao invés do legítimo ensino do Sagrado Magistério.

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Não raro de se ver pela internet em tempos atuais não só o “católico socialista” (oxímoro), típico “pejoteiro da TL”, mas eis que agora surge o novo tipinho, o católico liberal. Se cria que esta criatura estivesse morta desde os idos tempos da revolução francesa, mas ao que parece ele segue vivo ainda.

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O católico liberal é aquele tipo que tenta mesclar os princípios da fé cristã com os ideais iluministas radicais ou moderados. Assim sendo, vemos por aí o católico pregando um estado laico de cunho liberal e relativista como se o catolicismo fosse uma religião como qualquer outra. Vemos ainda o mesmo católico defendendo o irrestrito direito de ofender a todas as crenças religiosas, inclusive a sua e, ainda, o observamos atirando por todos os lados vários chavões liberais e libertários em economia. O católico liberal pode ter duas reações em relação a Doutrina Social da Igreja: Uma de ódio a mesma como se fosse um “socialismo clerical”, outra ainda, através da distorção grosseira das palavras dos Papas, transformá-lo numa espécie de Adam Smith, John Locke ou mesmo Murray Rothbard.

Nos acostumamos tanto com figuras evidentemente heréticas como Frei Betto e Leonardo Boff que seres mais discretos como o Padre Sirico do Acton Institute soam quase ortodoxos, excepto pelo facto de que não são. Se por um lado Boff é claramente um herege, Sirico é mais discretamente um herege na medida em que é um libertário.

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Fenômeno crescente no Brasil, o católico liberal já é velho conhecido nos Estados Unidos. Thomas Woods Jr, o mesmo que escreveu o brilhante “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental“, infelizmente, é um desses casos. No seu livro “The Church and the market” Woods renega a Doutrina Social da Igreja e encampa uma defesa do libertarianismo austríaco deturpando de toda sorte as ideias e palavras dos escolásticos espanhóis. Em resposta, Christopher Ferrara, um católico tradicional, respondeu a Woods com um “livro-repreensão” chamado “The Church and the libertarian“. Muito menos badalado, sem o mesmo grau de financiamento e sem o mesmo glamour de seu opositor, Ferrara desmonta cada aspecto do discurso de Woods, além de convidá-lo a uma verdadeira conversão.

A reação de Woods em jornal foi bastante virulenta, o que levou Ferrara a liderar um movimento que pediu sua excomunhão ao papa Bento XVI. O paradeiro e a situação atual de tal pedido eu desconheço, mas creio que não deve ter recebido muita atenção do Papa emérito e ainda hoje não desperta a atenção do Papa Francisco. Seja como for, não satisfeito, continuando seus ataques, Ferrara escreveu ainda o livro “Liberty: The God that Failed” parodiando o título do livro “Democracy: The God that Failed” de Hans-Hermann Hoppe, onde o mesmo mostra que liberais e libertários ao não renunciar os erros do liberalismo, são causa de todo o mal-estar da civilização ocidental e do próprio estatismo que dizem odiar.

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Não é de se admirar que as duas obras de Christopher A. Ferrara não tenham o mesmo financiamento de grandes think tanks, ONGs ou que cá em fronteiras mais sulistas e tropicais, não tenham recebido o mesmo ímpeto de tradução do que as obras de Woods. Afinal, a direita brasileira é descendente do pensamento liberal que no fundo renega a herança católica do ocidente, a ponto de deformá-la como fizeram os libertários com a Escola de Salamanca para enxertá-la no seu credo liberal. Não há melhor demonstração disso do que este excelente texto do site Estudos Tomistas. O próprio já citado Sirico ignora muitas passagens da DSI e faz os Papas parecerem descuidados e até mesmos vítimas de engano (o que seria um erro em termos teológicos, uma vez que a DSI é extensão da doutrina moral da Igreja e esta goza da infalibilidade papal) dizendo que na verdade há uma total rejeição em relação ao Estado na justiça distributiva ao invés de apreço, ainda que moderado. Isso, é claro, só pode ser concebido se ignorarmos as passagens de várias encíclicas, especialmente esta de Pio XI na “Casti Connubii“:

“mesmo no Estado tais métodos econômicos e sociais deveriam ser adoptados para garantir que todo chefe de família ganhe tanto quanto necessário, para seu sustento, valor que seja necessário para ele mesmo, sua esposa e para o cuidado de seus filhos…”

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Isso denota um sinal muito ruim para o país, de que nosso catolicismo apenas trocou de religião política, abandonando os sonhos socialistas da Teologia da Libertação pela utopia libertária e, no final das contas, o nosso laicato continua a preferir ouvir e ler a palavra de ideólogos muito pouco católicos, ao invés do legítimo ensino do Sagrado Magistério.

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(Fonte da imagem: Divulgação)

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