Cultura

Chuck Norris contra o comunismo

Por que assistir ao documentário lançado no ano passado pela Netflix é necessário para se entender os horrores do socialismo/comunismo?

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É o nome de um documentário: Chuck Norris vs. Communism. Que pode ser visto no Netflix. Nenhuma relação direta e literal com Norris, apenas simbólica (ou não, a depender dos memes com Norris vs. ditadores na web). A alusão é a Hollywood e congêneres. Pois… de que fala o documentário? O auxílio dos filmes, contrabandeados e corajosamente traduzidos, na mudança do imaginário popular romeno e sua prática na derrubada do regime, cujo ditador, Nicolae Ceaușescu, foi fuzilado, junto a Elena Ceaușescu, no Natal de 1989. Apesar desse fim trágico, belo presente natalino, diria eu. A liberdade e tudo o mais. O documentário foi lançado em 2015, dirigido por Ilinca Calugareanu.

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Por que deves assistir ao tal documentário? É elementar: não é só o Nazismo que existe para ser condenado às úlceras e entranhas, como o totalitarismo genocida que foi. Historicamente falando, o Comunismo fez muito mais vítimas, e ainda faz, hoje, sob suas novas caras. Mas dele pouco se fala. Sobretudo num País atrasado como o Brasil, em todos os sentidos, e governado por uma mentalidade estatólatra que se torna, e se tornou, meio caminho andado para a ascensão Comunista. Aonde se vai, há o dobro ou mais livros sobre Nazismo, em relação a escassos, quase nulos, livros sobre o Comunismo em sua versão não propagandística. Ou seja, sua versão independente. Com notoriedade para a historicidade de que a Rússia soviética tem sua parcela de responsabilidade no desenvolvimento do Nazismo, sua posterior derrota e nas vantagens que auferiu da queda de Hitler.

Para efeitos de comparação rápida, o Nazismo durou mais ou menos 2 décadas, enquanto o Comunismo, na verdade o Marxismo, já tem em média 150 anos. Quem governou mais? Quem destruiu mais? Quem assassinou mais? Só existiu um líder nazista, após o qual tudo se esfacelou, sem dúvida com auxílio de propaganda. Já marxistas, existem mais, bem mais, tantos que talvez seja impossível contar. Nazismo é criminalizado, Comunismo não é. A História deve ser acompanhada por seus registros. Mas, às vezes, por motivos políticos, eles são queimados, os fatos são esquecidos ou se fala deles de maneira a distorcer o conteúdo real a fim de causar outra compreensão, destinada a fazer pessoas verem verde onde vermelho. A liberdade é ao homem o bem mais custoso, ao invés do dinheiro.

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Uma parte do documentário mostra a tradutora de filmes Irina Nistor junto a um pessoal do governo, traduzindo material, obviamente a fim de controle de conteúdo. Enquanto a tradução é feita, o conferente diz o que precisa ser cortado, quando parar, quando retomar o trabalho de controle. Pela forma de conferir, o processo aparenta meticuloso. No filme em questão, uma das cenas mostra abundância de comida e outros produtos, algo apontado por um dos censores, ao que pergunta ele: qual a mensagem? Que o Ocidente é uma terra de prosperidade? Não mesmo. Em seguida, diz-se Cortamos isso? A resposta é imediata: claro que sim. A própria Irina, ela mesma fala, não se adaptava por completo ao lugar e ao trabalho.

Mais adiante, o mesmo tipo de ato se repete, mas com carne aparecendo. A resposta é mais enfática e decisiva: não há porque discutir esse. Olhe toda essa carne! Próximo. Carne sempre foi cara, e governos totalitários têm constante desejo de economizar e cortar custos. O outro lado disso é o dos benefícios do consumo de carne para a vítima do regime, sobretudo homens. Na mesma cena de censura, segue-se uma animação russa, em que um coelho surge tocando um instrumento musical, algo como uma corneta ou saxofone, carregando três balões, um de cada cor, respectivamente as da bandeira romena, cuja interpretação pelos censores era a de estarem sob controle russo. Resultado? Corta! Seguida da pergunta pseudo-paternalista do censor que exemplo estamos dando para as crianças? Pensem na mensagem.

No mesmo trecho do documentário é visível o cômodo, escuro, típico de gente relativamente abastada, com xícaras de café sobre a mesa, mas pela obscuridade fica difícil discernir os equipamentos e a mobília ao fundo. Os equipamentos, pelo pouco possível de compreender, são um grupo de estantes, prateleiras, coisa do tipo, um abajur, um biombo alto, com ganchos, para roupas e uma mesa, com as xícaras. O sinal de café, comparado à pobreza de liberdade e de víveres do povo romeno à época, é suficiente para tecer uma comparação saliente. Como dizem por aí, “para o povo, Comunismo; para os governantes, Capitalismo”.

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Entretanto, a própria Irina, conforme outras passagens do documentário, sinaliza também ser vítima do regime, não mera colaboradora, sendo ela mesma romena. Em local aberto, à vista e aos ouvidos de todos, é abordada com um convite lisonjeiro para traduzir o que o interlocutor chama “filmes novos”, ao perguntar ela quais filmes seriam os traduzidos. Diz ela que aceitou o serviço pela curiosidade e única oportunidade de assistir a tais filmes, mesmo com os riscos. Eram filmes norte-americanos. Que ela começaria a dublar, não só traduzir, para a população.

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Um vídeo a cassete, o velho VHS, diz um entrevistado, custava mais que um carro. E, pela forma de dizer de outro, encontrar um aparelho de televisão já era difícil. A única chance seria trazer do estrangeiro, o que ocorreu com uma das entrevistadas. Populares, com TV e vídeo em mãos, preparavam lugar para assistir às fitas, contando-se que à noite, pela voz de um entrevistado, já eram 20 pessoas. Mas outros comuns noticiaram e a informação do que fariam se espalhou. A moeda romena é o “leu”. O salário mensal era de 2 mil leus. Ao fim da noite de filmes, pela manhã, o faturamento foi de 3 mil – sim, era cobrado um ingresso para assistir. A disseminação de que veriam filmes era feita aos sussurros, em lugares estratégicos e com gente específica. Seria desnecessário, mas é bom dizer que nenhum pedaço de filme era perdido. Todos aproveitavam cada cena, em sua totalidade. Era uma experiência totalmente nova e libertadora, já que tudo que não era permitido pelo governo era ilegal. Provavelmente, com mais silêncio do que falatório – no Brasil, costuma ser o inverso. A parte ruim é a de que os aparelhos de televisão achados eram tão ruins quanto a comida. E filas eram regra, para conseguir suprimentos. Ainda com o risco de ir embora de mãos vazias. O alimento era controlado. E não só o alimento era controlado, também as instâncias da linguagem e de religião, no seio nacional.

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Do ponto de vista dos cidadãos cada filme era um progresso pessoal de visão, e uma mudança grandiosa de perspectiva. Cada filme, é claro, tinha seu público específico. Os filmes de ação atraíam mais os jovens. Principalmente os filmes de heróis. Que passaram ao querer ser como as personagens dos filmes, e a ter mais disciplina na vida, ao terem um modelo de futuro, não apenas a vida no momento. Um dos entrevistados conta como passou a imitar a rotina do lutador Rocky Balboa a partir da expectação do primeiro filme da série Rocky. Outro relata o desejo geral de se ter uma faca igual à do soldado John Rambo. Mas como se obtinha os filmes? A população interessada não sabia. O contra-subversivo era Theodor Zamfir, um interno aos negócios governamentais, ligado ao alto escalão. Pode-se dizer, penso eu, um infiltrado, ou um convertido. Ele trazia filmes novos poucas vezes no ano, sem dúvida do estrangeiro. Como ele passava pela fronteira, que era guarnecida? Havia acordo com os patrulheiros, para tráfico de cigarros e drogas. Fazia-se de conta que havia revista, o patrulheiro recebia algo e mandava o motorista sumir.

Isso tudo me faz recordar de um relato do filósofo e ex-ministro, o primeiro, pós-ditadura romeno Andrei Pleshu, que viveu sob o regime: conta que um conterrâneo, quando na França, fascinava-se de estar em uma lanchonete ou coisa do tipo e fazer um pedido: sabe o que é mais impressionante? Quando pedes uma cerveja, eles de trazem mesmo uma cerveja! Consta do livro Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental e Outros Ensaios, página 26, cuja leitura muito recomendo.

E mais não conto. Ao leitor, agora, cabe buscar o documentário para ver. Para se aprofundar, indico o texto do Senso Incomum a respeito.

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