Brasil

Por que o brasileiro é tão antiliberal? – Parte 2

A junção do culto do belo, das belas formas, embora nem sempre correspondente ao ético, ao se juntar com esse separatismo barroco e ao moralismo português, só poderia ter como resultado uma moral rígida porém estetizada.

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Veja também:  Por que o brasileiro é tão antiliberal? - Parte 1
No nosso primeiro texto, que vocês podem encontrar nesse link, investigamos as raízes da mentalidade centralista do povo brasileiro, que apesar de odiar a classe política e a burocracia, não abre mão dela para nada e confia mais nela do que no esforço individual de qualquer um outro cidadão. E um dos aspectos curiosos do brasileiro é que ele não é um amante da burocracia se entendida no sentido weberiano da palavra, e sim de um líder forte e popular. A burocracia, se entendida como a organização hierárquica de funções comandadas por regimentos, códices e leis fixas que direcionam, redirecionam, obrigam e legitimam as ações, bem como a transitoriedade dos cargos e funções ou ainda como a separação dos bens administrativos dos bens do burocrata, veremos que ao longo da história ela foi um fenômeno restrito a alguns indivíduos apenas, geralmente num círculo restrito de pessoas e nunca uma designação geral, de forma mais ou menos parecida com a que Maritain salienta em “O Homem e o Estado“.

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Assim ao chegar no Brasil com uma constituição, Thomé de Sousa trouxe a noção de burocracia consigo, só que àquela altura muito nanica e restrita ao governo geral da colônia. Sua insipidez tornava-a irrelevante para os procederes normais do vasto território da colônia, mais sujeita a arranjos de famílias do que por ordenações jurídicas racionalizadas, quem pode muito bem salientar isso é Raymundo Faoro no seu clássico “Os donos do poder”.

Neste texto, por sua vez, vamos tentar entender, porque temos um moralismo tão forte aparentemente, mas consentimos com os mais depravados atos de imoralidade feitos em praça pública?

Primeiramente recorrerei a João Camilo de Oliveira Torres, que em seu “Interpretação da realidade brasileira“, chamou a atenção para o fato de que Portugal nunca foi notável por ter grandes metafísicos no período da escolástica, mas sim grandes moralistas. Os dois maiores nomes da escolástica lusitana, a saber, Francisco Suárez, filho de espanhóis, porém que morou a vida toda em Portugal, e João de Santo Tomás foram elogiados pelo supracitado historiador conservador brasileiro, como moralistas de qualidade internacional, João de Santo Tomás, por exemplo, foi de grande influência sobre o neotomista Jacques Maritain. A estes se seguem o padre António Vieira, o padre José de Anchieta e o filósofo português Matias Aires da Silva d’Eça, que serviriam base intelectual para o catolicismo no Brasil. Não é de se estranhar nesse moralismo, que o barroco, baseado numa forte separação do sagrado e do profano, foi de larga data a força intelectual da arte dominante no Brasil e a principal influência da nossa mentalidade católica. Quem – como este que vos escreve – já teve a oportunidade de visitar Mariana e Ouro Preto se sente maravilhado não só pela beleza do lugar e pelo clima lisboeta das duas cidades, mas também um sentimento familiar e maternal de quem está em casa ao entrar em qualquer uma daquelas magníficas construções coloniais.

Recentemente, tive a oportunidade de discutir o livro escrito por Martim Vasques da Cunha, “A poeira da Glória“, onde me dei conta de quão forte foi o romantismo no Brasil, algo que de passagem o crítico literário Rodrigo Gurgel também menciona em “Muita retórica e pouca literatura: De Alencar a Graça Aranha“, ao comentar a diferença do romantismo alemão e o brasileiro, cujo símbolo é José de Alencar. O elemento central do romantismo é o estético, o belo, o que ás vezes não necessariamente corresponde ao moral ou ao justo. Um dos males da modernidade é essa separação das virtudes que antes andavam irmanadas no supremo bem, Deus. Para quem quer ter uma experiência de uma escrita romântica, recomendo o livro “O gênio do cristianismo” de Chateaubriand, ou “O que há de errado com o mundo“, de Chesterton, após ler ambos me diga afinal, se a forma da escrita não é o centro no qual orbita o texto.

A junção do culto do belo, das belas formas, embora nem sempre correspondentes ao ético, ao se juntar com esse separatismo barroco e ao moralismo português, só poderia ter como resultado uma moral rígida, porém estetizada. O moralismo do brasileiro, assim, é um misto de uma exigência pessoal de rigidez moral no espaço público, que é deveras forte; porém, a um olhar mais atento, percebe-se que trata-se mais em força de discurso ou retórica moralista, uma moral apenas de aparência, que embora exista é bem mais flexível do que o discurso público dá a entender. Completamente diferente do moralismo puritano do norte-americano, que é preso de fato a fortes pressupostos lógicos-teológicos da teologia reformada. Há também um pressuposto histórico interessante que leva a essa contradição, o catolicismo, diferente do calvinismo é agregador e não sectário. O católico tem a obrigação moral de pregar e catequizar o pagão, para levar a ele a salvação. Basta consultar os trechos finais da Carta de Pero Vaz de Caminha para perceber esse aspecto missionário-evangelizador do catolicismo, especialmente o catolicismo português. O calvinista, preso por sua vez na sua teia de sectarismo motivado pela sua predestinação e por uma rígida moralidade filosófica, não se preocupou muito em “dar papo” pras populações aborígenes, ao contrário do português, que logo começou a formar famílias mestiças com índias e negras. Um aspecto interessante da própria forma de viver dos índios, que é ressaltada por Darcy Ribeiro, é que apesar de terem as noções do casamento (que é um dado universal da espécie humana), a moralidade sexual das índias era bem menos repressiva que a das portuguesas, o que levou a certa degenerescência da conduta moral na colônia e que foi motivo de ríspidas condenações dos padres jesuítas que aqui chegaram.

Ou seja, a devassidão sexual é um dado oriundo da própria formação étnica do Brasil, mas reforçado pelo moralismo lusitano e pelo esteticismo romântico cujo auge foi a missão artística francesa de 1816, trazida a cabo nesta terra pelo El rei de Portugal, Brasil e Algarves, Dom João VI. Desta forma, o epíteto de que “não basta a mulher de César ser honesta mas ela têm que parecer honesta” a que se refere o filósofo Luiz Felipe Pondé, não é de forma alguma uma frase inócua, mas um estado de espírito do próprio brasileiro médio. O lapso mesmo de ausência de coordenação lógica no nosso moralismo, aspecto central do nosso conservadorismo, pode ser vista na degeneração do cristianismo no Brasil, que é, a saber, o neopentecostalismo e o pentecostalismo protestante. Os políticos da bancada religiosa são majoritariamente evangélicos, e sua defesa moral é fortemente inconsistente já que amparada num irracionalismo dos costumes. Ou seja, não há uma base intelectual para a sustentar a defesa da moral tradicional, excepto a Bíblia Sagrada e o bem-estar que a estética do familiar traz às mentes e corações humanos no campo moral. Razão esta pela qual tenho sustentado desde o texto dos “conservadores do mundo da imaginação” de que o protestantismo brasileiro tem mais do catolicismo do que supõe, imagina e/ou gostaria de ter. Este, aliás, é um fenômeno que mereceria maior atenção sociológica e que teria muito interesse em vê-lo analisado por outros escritores mais fluentes que este escriba, sobretudo, se analisado por uma óptica agostiniana e segundos as delimitações e especificações que Dom Luigi Sturzo coloca na sua “Sociologia do Sobrenatural“.

Outro aspecto da nossa sociedade extremamente familiar e moralista (ao menos esteticamente), é o patriarcalismo e o que se convencionou a chamar pela “esquerda classe-média” de machismo, como se isso fosse de certa forma, uma coisa fruto do cristianismo ou da cultura européia apenas. Embora a sociedade cristã portuguesa seja extremamente patriarcal (a família romana da qual esta descende também era), a sociedade indígena também assim o era. O próprio Oliveira Vianna, assim como Plínio Salgado, ressalta que era hábito comum dos povos indígenas, nas suas inumeráveis guerras, tomarem os soldados rivais como escravos após as batalhas, e os humilharem ao colocá-los a seus serviços, em funções femininas como o cuidado com as crianças, a colheita de alimentos, e culinária, o que não raramente ocasionava suicídios dos dominados. A situação em si era uma mortal ofensa a honra dos mesmos, a qual seria a seus olhos enormemente degradante.

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Esse aspecto aparente da moralidade é o que nos leva a sermos um bocado hipócritas, sobretudo nos períodos mais recentes em que o cristianismo está fortemente decadente em nosso país, e um dos aspectos em que isso vai ser mais evidente é na economia, especialmente nas relações político-econômicas. Porém, a economia será algo do qual trataremos num próximo texto. Até lá.

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(Fonte da imagem: Amazon)

Pixotadas historiográficas da “nova direita”.

Não é a primeira vez que critico os pretensos historiadores da “nova direita” e defendo certas perspectivas …

  • ProxyDoug

    Gostaria de saber se a o site planeja abordar a tentativa explicita da Globo de trazer o Black Lives Matter ao Brasil.
    Há um certo tempo na série Mister Brau houve um episódio em que a Camila Pitanga explicava para uma classe de alunas como o negro é oprimido pelo branco na sociedade brasileira. Há duas semanas, o Profissão Repórter foi dedicado a falar sobre violência de policiais contra a população negra e por último a capa da Galileu desta semana compara a policia no Brasil ao exército durante a ditadura.

    E isso que eu não assisto TV e nem assino nenhuma publicação da Globo.

    Está claro pra mim a intensão de envenenar relações que esta empresa tem e acho que seria interessante iniciar esta conversa antes que isso ocorra.

    • Gabriel Victor

      Obrigado pelo comentário e sugestão.
      Coincidentemente, faz alguns meses que estamos recolhendo material para essa pauta.

      Pode aguardar sossegado que em breve traremos a denúncia.

  • Bruno Francisco

    muito interessante o texto, ver tudo por um novo olhar..