Brasil

Por que o brasileiro é tão antiliberal? – Parte 1

Após muito ler começo a acreditar que já tenho umas ideias bem interessantes de porquê o brasileiro é do jeito que é, faz o que faz e pensa o que pensa especialmente em termos sociais, econômicos e políticos.

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Após muito ler, começo a acreditar que já tenho umas ideias bem interessantes de porquê o brasileiro é do jeito que é, faz o que faz e pensa o que pensa especialmente em termos sociais, econômicos e políticos. Tentarei sistematizar a coisa aqui, colocando as ideias que tive e li mais ou menos em ordem e, se possível, referenciando outros textos que escrevi. Uma coisa interessante que averiguaremos é o fato de uma aparente contradição. Por que o brasileiro é um dos povos que mais oferecem resistência a ideias progressistas no campo social, moral e cultural no ocidente, ao passo que é um dos países que simultaneamente é um dos mais libertinos e desavergonhados do mundo? Ao mesmo tempo que temos uma forte bancada religiosa, ela coexiste com o Carnaval e com a maior parada gay da América Latina. Por que essa contradição?

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Outro paradigma a ser entendido é porque o brasileiro odeia a autoridade política constituída, doravante, a classe política, mas é extremamente dependente e amável com uma autoridade centralizada e paternal, isso nos leva simultaneamente a perguntar: Por que o brasileiro é um trabalhista na economia e um old tory em termos de moralidade pública? Por que o brasileiro odeia os políticos mas quer tanto um líder político que os guie, uma espécie de Moisés presidencial que abra o Mar Vermelho do progresso material e moral? Antes de começar a responder, declaro que discordo da tese apresentada por Bruno Garschagen em seu livro, que considero demasiadamente enviesado, feito para encaixar a realidade num discurso e não para entender a realidade brasileira, ainda que ela não se encaixe perfeitamente na proposta do Instituto Mises Brasil, mas falarei disso em um texto à parte.

Primeiramente, para entendermos o brasileiro temos que nos lembrar que o brasileiro é uma espécie de “capiau perdido na capitar”, sim, o nosso povo tem uma experiência urbana muito recente, como Oliveira Vianna chama a atenção no seu livro “Evolução do povo brasileiro“, publicado na década de 30, ao contrário de nossos “abiguinhos” anglossaxônicos no norte, nós não somos um povo formado por mercadores, mas sim um povo de camponeses, agricultores e pastores. Alguém pode objetar que os Estados Unidos também teve uma grande influência de agricultores, mas só tardiamente na expansão para o oeste selvagem, e eram famílias nucleares de calvinistas puristas com posse de pequenas fracções de terra. No Brasil, ao contrário, como já demonstrei nesse texto, nascemos do latifúndio para o minifúndio, processo inverso se dá na terra do Tio Sam.

Niall Ferguson em “Civilização” mostra sabiamente que um dos elementos centrais do sucesso econômico é a posse segura da propriedade privada, e mostra como a má distribuição das terras atrasou o continente latino-americano no desenvolvimento da democracia representativa que, na visão dele, é um elemento chave pro sucesso econômico, um “killer app”, melhor dizendoApelando novamente a Oliveira Vianna, somos capazes de ter a exata noção do tamanho desses latifúndios que sucederam às capitanias hereditárias (que já eram enormes fazendões), sua extensão variava de 14 km² a 140 km². Em suma, éramos um bando de camponeses, pastores e agricultores sem terra, sem propriedade privada, que num regime que vagamente lembrava o feudal, servia a um capitão donatário ou a um fidalgo português e sua família dono dessas grandes extensões de terra. Ei-la aí, a figura central de autoridade paternal a quem devemos nossa servil obediência e confiança.

Isso seguiu mais ou menos dessa forma, com pequenas alterações pontuais até mais ou menos em 1808 quando Dom João VI e sua família chegaram ao país, e se vê forçado a transformar a insípida burocracia inaugurada com Thomé de Sousa em meados do século XVI em uma burocracia absolutista análoga a européia não só para governar o vasto território nacional, mas também para mobilizar forças pra invadir a Guiana francesa e ter ao menos uma moeda de troca contra Napoleão do outro lado do oceano a milhares de léguas de distância. Você pode pensar que estas coisas estão muito longe no tempo para que sirvam de explicação para nosso ethos hoje, o que eu discordo. O processo de urbanização do Brasil é demasiado recente, começa lentamente na década de 50 e ganha impulso na década de 70 se concretizando quase na virada para década de 90, momento em que mais da metade dos brasileiros passam a viver nas cidades, abandonando o campo. Isso aliás, segue tão vivo em nossas mentes que até hoje o gênero musical mais amado pelo brasileiro é o sertanejo, ainda que com modernosas distorções do pop e do eletrônico resultantes das nefastas “contribuições” da geração Y e Z. Nos Estados Unidos, ao contrário, o yuppie urbanizador já vinha forte desde o fim do século XIX, já na década de 20 do século passado a maior parte dos americanos já viviam nas grandes cidades.

Some-se a isso a enorme dificuldade que a coroa teve ao longo do período colonial em descentralizar a administração das terras tupiniquins, por exemplo, na divisão do território em dois governos gerais, o do Estado do Brasil e o Estado do Maranhão. A coisa ficou tão feia que quase resultou numa guerra civil, além da constante ameaça do domínio externo por franceses e holandeses ao território nacional, no que prudencialmente se reunificou a administração central da colônia para evitar mais desastres, salvo engano já não mais sob a união ibérica e consequentemente fora da batuta filipina. Sucede-se a isso a chegada de uma monarquia absolutista cujo poder se centraliza nas mãos d’El Rei de Portugal, a quem se tributa todas as melhoras no Brasil após a abertura dos portos às nações “ditas” amigas. Nosso Império nasce em 1822, mas institucionalmente foi tudo muito bagunçado como se pode constatar num documento de época, a “História do Brasil” escrita pelo fidalgo inglês John Armitage. A constituinte de 1823 que criaria um sistema com maiores poderes para o parlamento do que para o Imperador, gerou um quiproquó dos diabos, o que resultou em Dom Pedro I (IV de Portugal) invadindo e fechando a assembléia com canhões e mosquetões. Por fim, é outorgada a boa constituição de 1824 que apesar ser aclamada como liberal para a época, na verdade era uma espécie de legislação em causa própria do imperador, formando segundo seu interesse um texto que na prática justificava uma espécie de “aboslutismo ilustrado constitucional”, uma vez que o poder moderador e parte do executivo atribuídos ao monarca, dava a Dom Pedro I o poder de mandar o parlamento às favas quando bem quisesse e montar outro gabinete a seu gosto.

Ou seja, o “governo de leis e não de homens” que o franco-maçom Thomas Jefferson pregava nunca existiu por aqui (o que eu não acho ruim, diga-se de passagem), pois cabia no fim das contas ao poder pessoal e personalista do Imperador, travar os abusos da impessoalidade da burocracia. No fim das contas, o Império preservou boa parte da estrutura foral do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que só começará a ruir lentamente a partir de 1828, mas de maneira mais clara com o ato adicional nas regências. Mesmo assim, no segundo reinado, a vida política municipal era muito ativa e autônoma, o que só viria a ser destruído numa só tacada pelo americanismo ideológico que se implanta com a República, e do qual jamais nos recuperamos de maneira democrática e não-autoritária.

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Outro aspecto é que a burocracia mesma, ainda que de forma insípida e em germe, já estava presente na formação do Brasil algo que também remonta a nossa situação luso-católica. Explico: Como pontuei no muito elogiado texto sobre os “conservadores de bambuluá, o nosso querido país é fruto de uma concepção imperial e clerical, na qual o Estado chega e cria a estrutura administrativa, o “Império”. Segundo José Pedro Galvão de Sousa e João Camilo de Oliveira Torres, respectivamente nas obras “Política e Teoria do Estado” e “Interpretação da realidade brasileira“, império é uma estrutura administrativa unitária, que submete dentro de suas fronteiras uma enorme gama de reinos ou povos distintos sem qualquer laço ou vínculo cultural. É exatamente essa noção que levou Thomé de Sousa a chegar no país com uma constituição pra governar índios, que são hostis a qualquer burocracia por sua própria natureza, como já havia ressaltado mais ou menos na mesma época que Oliveira Vianna, o integralista Plínio Salgado na sua “Psicologia da Revolução”. Pacificando esses povos e criando sua unidade cultural comum, veio de outro lado o poder da Igreja, que através da catequização de índios e negros, criou a base cultural comum que uniu portugueses, espanhóis ao sul, os africanos e os silvícolas.

Por conclusão, são essas mais ou menos as forças motrizes da psicologia centralista do povo brasileiro. Para este texto inicial de uma série que deve ter entre dois e três textos, acredito que estamos bem explicados de porque somos tão amáveis com figuras como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula, para os mais antigos e não tão influenciados pelos discursos esquerdistas, o mesmo se aplica a algumas figuras do regime militar, como o general Médici, por exemplo. O americano e o britânico dependem da sua propriedade privada e de sua liberdade de comércio para terem sua liberdade, o brasileiro, carente disso, dependia de um “homem forte” ou de “coronéis da roça” para manter a ordem para só então assim, gozar da sua amada liberdade. Inclua-se nessa situação, o fato de que o monopólio colonial britânico sobre as treze colônias era muito menos duro que o monopólio português sobre o Brasil, o que dava aos yankees uma maior flexibilidade para comerciar, criando um forte mercado interno (algo que o Brasil só começou a ter, de fato, no Império) e alguma liberdade externa de comércio, algo que os brasileiros nem sequer concebiam nos seus melhores sonhos. No próximo artigo da série, entenderemos o paradoxo do moralismo brasileiro, aguardem.

Veja também:  Por que o brasileiro é tão antiliberal? - Parte 2
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(Fonte da imagem: Amazon)

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