Brasil

Pixotadas historiográficas da “nova direita”.

Em seu livro, Paulo Schimidt fala sobre a abolição da escravidão e da monarquia, Paulo acusa uma "elite" de conservadores ressentidos com a abolição, dando a entender, obviamente, que a abolição fora obra dos liberais e que o golpe republicano fora obra dos nossos bons e velhos saquaremas

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Não é a primeira vez que critico os pretensos historiadores da “nova direita” e defendo certas perspectivas históricas, políticas e econômicas que irritam boa parte dos “neodireitistas”. Já critiquei, por exemplo, o Leandro Narloch, que já me pareceu alguém sério, mas que virou uma espécie de “psolista de direita”. Hoje vou falar do que li de Paulo Schimidt no “Guia Politicamente Incorreto dos Presidentes da República”. Em seu livro, falando sobre a abolição da escravidão e da monarquia, Paulo acusa uma “elite” de conservadores ressentidos com a abolição, dando a entender, obviamente, que a abolição fora obra dos liberais e que o golpe republicano fora obra dos nossos bons e velhos saquaremas. Embora já tenha respondido essa ideia aqui, reproduzo aqui alguns pontos da crítica.

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A Lei Áurea foi apresentada ao Parlamento por Rodrigo Augusto da Silva que era ministro da agricultura do Gabinete João Alfredo de Oliveira, que assim como o primeiro, era do Partido Conservador. Após votada nas duas casas, a lei Áurea foi levada à princesa-regente D. Isabel para apreciação e sancionamento, só que devido aos imbróglios causados pelo Barão de Cotejipe ao lado de 5 dos 9 deputados que votaram contra a lei, a princesa
precisou usar o poder moderador e nomear o Visconde de Ouro Preto, este sim, liberal, para que então a lei fosse sancionada.

O fato é que a ideia de que o Partido Conservador foi o partido da escravidão é meio simplista se considerarmos o período da abolição.  Depois da Guerra do Paraguai, o Partido Liberal radicalizou o discurso federalista o que puxou muitos dos grandes fazendeiros que outrora apoiavam os conservadores para o apoio dos liberais. O federalismo daria mais poder às elites locais, que eram – ó raios! – os mesmos grandes latifundiários. Com isso sobrou no apoio dos conservadores alguns grandes fazendeiros, boa parte do meio militar e membros da burocracia e da administração pública, estes últimos beneficiados pelo centralismo defendido pelos conservadores.

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Dizer que os “saquaremas” eram o partido dos grandes latifundiários é válido até a Guerra do Paraguai, nos 20 anos que sucederam o maior conflito sul-americano, ocorreu uma lenta mudança de bases, suficiente porém, para surtir efeito em 1889. Contudo, esse amor a escravidão não era tão grande assim, uma vez que coube ao mesmo passar as principais leis que levaram ao desfecho de 1888. A lei Eusébio de Queiróz em 1850, a Lei Saraiva-Cotejipe de 1871, conhecida como lei do ventre livre, além da lei dos sexagenários já no final dessa saga.

Prova de que os liberais foram tão ou mais responsáveis pela proclamação da república e reagiram mais forte a abolição do que os conservadores, não poderia haver do que o fato claro como o dia de que o primeiro ministério golpista republicano de marechal Deodoro da Fonseca tinha em sua maioria “luzias”, a saber: Aristides Lobo (sim o mesmo que disse que o povo havia assistido a tudo “bestializado”) era do partido liberal, Campos Sales, futuro presidente da república, era do partido liberal. Demétrio Nunes era membro do nanico partido republicano, mas antes era do partido liberal. Ruy Barbosa então, dispensa comentários. Quem também confirma essa perspectiva é um autor da “nova direita” mesmo! Bruno Garschagen, cientista político nas páginas 107 e 108 do seu livro “Pare de acreditar no governo” aponta que se houve abolição foi graças aos conservadores. Os liberais, na verdade, é que tinham o apoio da aristocracia latifundiária.

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Falando em Bruno Garschagen e em seu livro… Bem, ele não sai ileso. O livro dele têm algumas pixotadas históricas também, muito provavelmente feitas para encaixar a história do Brasil na perspectiva ideológica da Escola Austríaca. Na página 38, por exemplo, Garschagen fala da crise econômica de Portugal no fim do século XVII. A crise, segundo Bruno, teria sido ocasionada pelo desenvolvimento do mercado interno na colônia (Brasil), boom interno este, que seria fruto da não intervenção do Estado na economia.

O Brasil colônia viveu momento de grande crescimento econômico entre o fim do século XVII e o início do século XVIII por conta da expansão do seu mercado interno, e não das exportações. […] A única região do território nacional que não acompanhou as demais foi a que na época era formada pelos atuais estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte. […] A origem do problema foi a decisão do Estado português em separar administrativamente aquela região, antes ligada a Pernambuco […]

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O que o cientista político cachoeirense omite, é que no mesmo período, a coroa portuguesa foi forçada a intervir brutalmente na economia, algo que seria chamado hoje de “política cambial” pelos nossos desenvolvimentistas. Essa intervenção decorre da perda do monopólio do açúcar para os holandeses. A coroa assim procedeu ao desvalorizar sua moeda várias vezes seguidas, o que encareceu as importações na colônia. De acordo com Furtado (1979, p. 69), com a necessidade de manter os colonos brasileiros satisfeitos e tentar uma recuperação econômica com base na colônia, coube ao Estado português “afrouxar” o cinto do monopólio colonial na produção de “manufaturas”. O mercado interno brasileiro passou a existir ainda no século XVII, o que durante muito tempo historiadores marxistas negaram para encaixar a historiografia na teoria do plantation. O vigor do mercado interno brasileiro será melhor estudado pelos historiadores Douglas Cole Libby e Afonso de Alencastro no seu livro sobre a “Economia do Império brasileiro“.

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Existe – é claro – outras coisas dignas de nota em ambos os livros citados, mas tanto elogiosamente quanto criticamente, ficam para outra oportunidade.

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